Jussara Lucena, escritora

Textos

Xilogravura

Lucas estava planejando a edição de mais um livro. Ele sabia que existiam profissionais muito experientes na preparação das capas, mas gostava de definir algumas linhas básicas do projeto ele mesmo. Hoje, tudo era mais fácil com apoio dos sistemas digitais, mas nem sempre foi assim.
A grafia e a história sempre estiveram intimamente ligadas. Os fenícios por volta de 1500 a.C foram os primeiros a representar um sistema, simples, de escrita, em que cada símbolo, as consoantes, representava um som. O sistema deu origem aos alfabetos árabes e hebraicos, que permanecem sem vogais até hoje. Por serem grandes navegadores e comerciantes, espalharam seu alfabeto pelo mundo antigo. Os gregos acrescentaram as vogais. A letras impressas desenvolveram o papel de perpetuar a história das civilizações, anseio de figuras marcantes como Alexandre e Carlos Magno.
Lembrou-se de algo, de um objeto que durante muito tempo esteve associado a tipografia, no desafio de contar histórias. Ela poderia ajudar-lhe a resgatar um pouco do passado, não tão distante assim. Subiu ao sótão e abriu um velho armário. Lá apanhou um pedaço de madeira, marcada de tinta seca pelo tempo. Limpou a poeira e aproximou de seu nariz, respirou fundo e pareceu impregnar-se de passado.
Era uma obra de arte. A xilogravura parecia perfeita, apesar dos mais de cinquenta anos desde a sua produção. Enquanto tocava a estampa com os dedos, como que reconstruindo o trabalho do artista, relembrou o tempo em que trabalhou na velha tipografia.
Começou muito cedo, como menor aprendiz. A única forma de alcançar o cavalete de tipos era usando alguns suportes de madeira, uns três, apoiados uns sobre os outros e ainda se apoiando na ponta dos pés. Assim mesmo a caixa alta era difícil de ser alcançada.
Foram milhares e milhares de documentos produzidos, páginas e páginas de jornal e revistas que compusera, tipo por tipo. Lembrou-se de um trabalho em especial.
Logo cedo recebeu o original para reprodução. Era um misto de texto datilografado com traços feitos a caneta, delineando a moldura e as linhas. Aproximou-se do cavalete. Como era um trabalho importante, procurou utilizar sua melhor técnica de composição.
Para o planejamento do trabalho pegou a régua com escala dividida em furos, cada furo correspondia a quatro cíceros, que por sua vez se dividiam em 12 pontos, a mesma medida utilizada até hoje na escala das fontes de qualquer processador de texto ou outras ferramentas digitais de edição desta segunda década do século vinte e um.
Depois, escolheu uma bolandeira, a de tamanho médio serviria. Colocou lingotes na borda lateral e superior e começou a preparar a matriz, construída com peças moldadas em liga de chumbo e antimônio.
Na primeira linha utilizou espaços de 12 pontos. Logo em seguida escolheu a vinheta que lhe pareceu mais adequada para um documento formal. Garantiu que não estivessem desgastadas, nem amassadas. Com elas formou as linhas da moldura da lateral esquerda e superior do documento.
Foi até a gaveta de clichês e escolheu um com o Selo Nacional Brasileiro, que depositou no canto inferior esquerdo da matriz. As estrelas do selo pareciam brilhar refletindo a luz das lâmpadas fluorescentes que iluminavam o ambiente frio da oficina. Em contraste com silêncio das estrelas, se ouvia ao fundo o som ensurdecedor de uma impressora Catu em seu vai-e-vem, lançando tinta sobre os rolos, que por sua vez entintavam os tipos da matriz e enchiam as folhas de papel com significado.
Imaginou o documento acabado, adequou o seu leiaute, dividiu os espaços entre cada uma das linhas e os ajustou para que se adequassem aos limites e margens do papel. Tudo era um bom exercício de matemática.
A partir daí escolheu as fontes para cada uma das partes do documento e pensando nelas lembrou daqueles que as desenvolveram, muitas vezes foi o trabalho de uma vida inteira de pessoas como Bodoni, Garamond, por exemplo. Precisa usa-las bem. A composição precisava ser legível, visualmente envolvente, deveria retratar a importância do documento para quem o via e mais ainda, para quem o portaria. Seria um símbolo de conquistas, tinha que ser bem feito. As fontes também precisavam ser adequadas ao papel escolhido. Muita tinta poderia borrar o papel, que por sinal era especial e compatível com o valor intrínseco do impresso pretendido.

Seria uma mescla de fontes sem serifa, para um tom de leveza, deixando o documento mais limpo, destacando as principais informações. Aquele seria o momento para estrear aquela fonte novinha e que ainda possuía a etiqueta da Funtimod selando a embalagem.
No centro do documento utilizaria um misto de fontes itálicas e góticas. Ele estava cansado do estilo times new roman utilizado nas incontáveis horas de composição do jornal. Então escolheu uma fonte negritada de tamanho 24 para o título. Pegou o componedor, justificou na medida da linha, com o auxílio de alguns espaços de 16 pontos de espessura, empunhou-o em sua mão esquerda e com o polegar firmava os tipos colocados um a um, repetindo os gestos de Gutemberg nos primórdios da história da imprensa.
Lucas, o chapista, possuía o dedo indicador da mão direita e sua unha desgastados pelo apanhar dos tipos no fundo do caixotim. Seus olhos treinados para a leitura dos tipos justapostos de cabeça para baixo e com imagem espelhada lhe permitiram a leitura de textos em qualquer posição. Seus dedos passeavam com destreza por toda a caixa, alta e baixa.
A habilidade de um bom profissional de tipografia também podia ser avaliada pela velocidade e precisão com que distribuía os tipos de volta à caixa, depois que a matriz era utilizada. Tal tarefa, normalmente realizada pelos aprendizes, não era menos importante, pois das limitações das caixas de tipos e da quantidade de pacotes de fontes dependia a produtividade da gráfica.

A falta de jeito de quem distribuía empastelava a caixa, mistura os tipos, o que trazia perda de tempo e bronca dos mais experientes. Zeca, o ajudante e distribuidor, observa Lucas com atenção e sonhava com dia que conseguisse a promoção e também se tornasse um chapista.
O chapista, o impressor, o cortador de papel e os intercaladores formavam o conjunto de profissionais da antiga oficina tipográfica. Como o quadro de pessoas era pequeno, Lucas pelas suas habilidades e conhecimentos também atuava como revisor e calculava o papel necessário para cada tiragem. O segredo do bem aproveitar o papel estava em saber dimensionar as sobras em função do tipo de papel utilizado, da escolha da impressora se manual ou automática e das habilidades dos impressores. Impressor que estragava muito papel não se criava.
Compor em uma tipografia não era apenas agrupar tipos, fios e espaços. Cada material impresso precisava vender uma ideia ou produto, retratar fatos, despertar curiosidades, informar. Assim, era preciso ler, entender o texto e em alguns casos modificá-lo, pois nem sempre quem trazia o material para a produção tinha noção de como organizar um texto ou mesmo conhecimento da língua portuguesa. Muitos nem sabiam exatamente o que queriam.
Passada mais de uma hora, o trabalho estava na sua fase final. Colocou os espaços que separariam a margem lateral direita e a margem inferior da moldura, completou a moldura com as vinhetas, adicionou a última linha de “quadrados” de espaço.
Procurou na gaveta um novelo de barbante usado. Mudou de ideia, o trabalho merecia um fio novo. Pegou a ponta do rolo, posicionou-a no canto inferior direito e começou a amarrar a chapa, puxando a linha firmemente. Várias voltas e pronto, ele pegou a pinça e com a extremidade prendeu a ponta. Ela estava bem amarrada. Empurrou a chapa da bolandeira, colocando-a na gaveta. Deu uma última olhada. Mal podia esperar pela hora da prova.
Pouco mais tarde, o impressor foi até a seção e apanhou a matriz. Posicionou sobre a fria chapa de aço da mesa de preparação, colocou alguns calços em sua volta e desenrolou a amarra com muito cuidado para não danificar a chapa. Centralizou-a no quadro com ajudada de lingotes para dividir adequadamente o espaço. Pegou as chaves para firmá-la. Um giro aqui, outro giro lá. Esguichou um pouco de querosene por sobre os fios e com um punhado de estopa na mão, esfregou a chapa para limpar os resíduos remanescentes dos trabalhos anteriores.
Depois, apanhou uma lata de tinta azul e com a ajuda de uma espátula espalhou cuidadosamente a pasta sobre o prato da impressora Minerva. Ligou a máquina. Os rolos de borracha passando sobre o prato espalharam a tinta uniformemente.
Voltou, apanhou a chapa e levou até a prensa. Os rolos entintarem a matriz após algumas passadas. Preparou o forro com papel e manualmente deixou que a chapa o tocasse. Cuidadosamente tirou as medidas e fez um esquadro com o apoio de alguns quadrados presos por fita adesiva contra o papel do forro.
Depois, o impressor foi até a papelaria, apanhou a pilha de folhas e colocou-as no suporte lateral da impressora. Apanhou uma das folhas e, manualmente, provocou o contato do papel com a chapa. Pegou a folha nas mãos, examinou a quantidade de tinta sobre a folha e o relevo do verso do papel. O forro estava muito alto. Tirou uma das folhas que o formavam e depois fez uma nova prova. Levou até o chapista para revisão.
Lucas sorriu. Perfeito! Era o que ele tinha planejado. Deixou-se levar pelos sonhos e imaginou o seu futuro e o futuro daqueles que também recebessem aquele documento. Trocou alguns tipos que apresentavam leves defeitos e corrigiu algumas falhas da composição. A chapa voltou para a impressão. Fez questão de acompanhar a confecção das primeiras folhas. Pensou: um dia um desses certificados será meu.
O tempo passou. Ele conquistou o diploma universitário como havia sonhado e exerceu por muitos e muitos anos a profissão que escolheu. A experiência na gráfica foi fundamental em sua vida.

O velho Lucas deu uma última olhada na xilogravura. Depois, revirou o armário e apanhou uma pasta com alguns dos impressos elaborados na sua juventude. Entre eles encontrou a prova do seu primeiro conto que compôs nas horas de folga. O texto trazia algumas de suas experiências de adolescente, a lembrança de um grande amor, a dor da perda, a sensação de impotência diante da solidão. Reviveu cada um dos sentimentos. Lágrimas escorreram por sua face enrugada. Seu coração já não era mais o mesmo. Veio a dor, faltou-lhe o ar nos pulmões. Tudo se apagou e ele acordou no hospital.
A visão retornava aos poucos e percebeu a imagem distorcida de uma pessoa em sua frente. O homem, um médico, esboçava um sorriso, como alguém que reencontra um velho conhecido.
- Como vai mestre?
- Eu o conheço?
- O senhor prefere pastel de carne ou de camarão?
- Zeca?! O pasteleiro empastelador?
- Isto mesmo, o moleque da tipografia.
- Vendo-o vestido de branco, lembro-me do dia em você me ajudou a preparar a chapa para impressão daquela cartela onde se colariam o registro de eletrocardiogramas.
- Isto mesmo! E você me explicou pacientemente o que era. Disse que uma cartelinha, que guardaria os recortes de um eletrocardiograma, usadas num diagnóstico poderia ajudar a salvar vidas. Pois então, aqui estou eu tentando.
- Preciso lhe agradecer por salvar a minha.
- E eu por você ajudar no encaminhamento da minha.
- Como assim?
- Sempre o admirei, pelo seu esforço, pela dedicação. Me espelhei no seu trabalho, na sua vontade. Lembra-se do dia em que imprimimos o diploma universitário e você pegou um e colocou o seu nome num deles e escolheu o curso de administração? Pois bem, eu fiz o mesmo, porém escolhi o curso de medicina. Guardo aquele pedaço de papel como um troféu até hoje!
- Não acredito! Eu também.
- Agora descanse! Estou esperando pela edição do seu próximo livro. Meus filhos também!

Texto faz parte da Antologia De A a Z, da Illuminare.

Adnelson Campos
24/10/2018

 

 

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