Jussara Lucena, escritora

Textos

Seu belo corpo enterrei (novo)

Não consegui sufocar o sentimento. Procurei evitar o quanto pude encontrá-la nos braços de outra pessoa. Mudei de cidade, de emprego. Me anulei como homem, eu não conseguiria amar outra mulher. Concentrei-me apenas em sobreviver, vegetar. O trabalho era minha fuga, o sono também.
Poderíamos ter vivido tanta coisa juntos. Eu queria fazê-la feliz. Não consegui. Que o outro conseguisse, então. Era o que eu desejava, mesmo lutando contra os sentimentos que me consumiam e faziam arder o peito quando uma lembrança dela me vinha à mente.
Eliminei o telefone dela da minha agenda. Cancelei minhas contas nas redes sociais, criei um novo endereço de e-mail. Pensei que ajudaria em meu isolamento. Eu seria apenas mais um vagando pelas ruas de uma grande cidade, desconectado do passado. Um antidepressivo me mantinha, de certa foram, desligado. Afastado dela e de tudo, levado pelo vento, pelo movimento do mundo. Sem reação, sem emoção.
Várias vezes me peguei procurando pelo seu contato nas páginas das redes sociais. Felizmente consegui resistir. Jejuns me mantinham firme ao propósito de não a procurar. Passei a me penitenciar cada vez que um vago pensamento insistia em renascer.
Tudo seguia como planejado, até aquele maldito dia. Estação da Sé do metrô, dezoito horas. Eu precisava fazer uma conexão para a minha linha. A porta se abriu. Na multidão que saia, estava ela, abraçada ao companheiro, carinhosamente. Saíram involuntariamente, empurrados pela massa que se deslocava, voltaram colados a mim, pressionados pela multidão que entrava. Com meu peito junto ao seu rosto, olhei nos olhos dela, que baixaram evitando um cruzamento. Pude sentir o seu perfume, o mesmo que impregnava o meu corpo nos momentos mais ardentes. Ela apenas me ignorou, abraçou-o mais fortemente. Ele, não percebeu o que ocorria, apenas beijou sua testa.
Esforcei-me para ganhar algum espaço, espremido no vagão, até que consegui dar as costas aos dois. Decidi descer na estação seguinte. Percebi seu olhar dela pela janela do trem que partia. Não parecia triste, tinha apenas uma expressão de dó, pena. Senti-me o último dos homens. Foi como se um fio de arame cortasse o meu cérebro de lado a lado. A dor persistiu ainda por muitas horas. A lembrança, por meses.
Entre tantos milhões de pessoas nesta metrópole, por que tive que encontrá-los? O que mais incomodou-me foi perceber o quanto segura se sentia nos braços do sujeito. Eu que tentei tanto protegê-la!
Minha estratégia havia falhado. Perdi o sono, faltou-me concentração no trabalho. Não encontrei mais a paz que eu supunha ter. Na memória, cenas dela, nua, deitando-se sobre mim. O sorriso, o brilho no olhar, a declaração de amor. Como tudo isso foi acabar?
A voz dela ecoava em minha mente: “não pude mais esperar, você não teve atitude!”. Havia tantas coisas que me prendiam a uma outra vida, a um outro relacionamento. Ela não compreendia.
Eu não conseguiria viver sem ela. Não enquanto ela existisse.
Procurei um lugar distante. Encontrei uma caverna, mata fechada. Havia um ponto de pesca, também era possível caçar. A água pura de uma queda d’água mataria a sede. Comprei um conjunto de arco e flecha. Eu já havia tido um a boa pontaria nas disputas da juventude. Minhas flechas certeiras provocariam morte sem dor. Também levei alguns suprimentos e ferramentas, o necessário para que eu pudesse me adaptar para viver melhor, longe de tudo.
Enterrei-a debaixo de uma grande árvore, com ela os objetos que poderiam lembrá-la. O vestido do primeiro encontro também. Na árvore gravei o seu nome, não o meu. A chuva que caia, parecia mistura-se ao que restou dela e lavava as minhas mãos, tirava a minha culpa.
Cavei uma outra cova ao lado da dela, porém não tive coragem de tirar a minha vida. Joguei-me no fundo da vala. Lá passei três dias de olhos fechados, esperando que a morte decidisse me levar. Apenas servi de aperitivo para formigas e outros insetos, nada aconteceu. Na quarta noite, ela surgiu em meus sonhos, me estendeu a mão e me tirou lá do fundo. Depois, desapareceu, mergulhando na escuridão.
Eu a vigiaria permanentemente, sentado na pedra que rolara morro abaixo no último temporal.
Enganei-me quanto a esquecê-la. Mesmo após orar por ela todas as noites, minha amada surgia em meus sonhos e me perguntava por que eu havia feito aquilo. Chorava e implorava para que eu a libertasse. Gritava de dor, murmurava meu nome. Mas eu não sabia como fazê-lo.
As dores me destruíam. Eu não reconhecia minhas mãos, não tive coragem de olhar o meu rosto no reflexo das águas. O tempo foi passando e acabei esquecendo quem eu era. Também não lembrava por quem eu chorava. Por entre as pedras que cobriam aquela cova, surgiam cabelos negros, que cresciam dia após dia. A árvore secou, caiu, apodreceu. Quando chovia, a água que caia misturava-se ao sangue que extravasava da sepultura, manchando de vermelho a nascente de água de onde eu bebia. A cena não me assustava mais. As vozes sim.
Pensei em escavar a sepultura. Mas quem estaria ali. Não havia cruz, nem nome. Era uma mulher, havia uma pulseira pendurada no galho seco fincado na cabeça da cova. Apenas uma inicial: M.
Peguei meu arco, algumas flechas e decidi sair dali. A voz continuava ecoando em meu pensamento. Eu precisava libertá-la, mas não sabia a quem, nem como. Eu precisava encontrá-la.
Na trilha ouvi vozes. Um grupo se aproximava. Escondi-me e observei. Logo partiriam, não mexeriam comigo. Só prejudicariam a minha caça por um tempo. Estariam armados? Por segurança, preparei meu arco. Já fazia muito tempo que eu não falava com ninguém. Será que ainda sabia?
Dois deles se separam do grupo e foram até uma queda d’água próxima. Resolvi segui-los. Tiraram a roupa, banharam-se, depois sobre uma pedra aquecida pelo sol, faziam sexo. Resolvi aproximar-me, eu parecia reconhecê-los. Perceberam minha presença e ficaram em pé. Sim, eu conhecia aquele corpo, o rosto um pouco mais velho, os mesmos longos cabelos negros.
Procurei certificar-me. Sim, era ela, a mesma mulher que em meus sonhos pedia liberdade. O rapaz, o mesmo que a abraçava naquele vagão de metrô.
Tudo aquilo precisava acabar. Preparei duas de minhas flechas. Seriam disparadas rapidamente, sem tempo para reação. Não havia como errar. Eu a libertaria, eu me libertaria.

Texto que fez parte da Antologia Macabro Amor, organizada por Rô Mierling, EdiTora Illuminare.

Adnelson Campos
20/11/2020

 

 

site elaborado pela metamorfose agência digital - sites para escritores