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Minuano



O vento soprou forte e fez bater os caixilhos da vidraça. Embaixo das cobertas, a menina virou-se para a parede e encolheu-se. Puxou o acolchoado mais junto ao corpo e tentou cobrir a cabeça. Menos os olhos, que conservou abertos, atenta aos movimentos no escuro. Uma rajada violenta escancarou as venezianas, jogou-as para fora e para dentro, um assovio estridente encheu a peça. A mãe, na cama ao lado, despertou com o barulho. Levantou-se e fechou-as. Passou a tranca na janela. “Pronto”, falou baixinho, “já parou”. “Tenta dormir, criança.”
Bem junto ao quarto cessou o trotar do animal. O vento voltou a uivar, cada vez mais insistente. O pai apeou do cavalo, o salto incerto fez eco no chão e misturou-se ao barulho do vento. Passos trôpegos invadiram o quarto. Toda a peça ficou de repente impregnada do cheiro do pai: fumo e pinga. E bosta de bicho. Sons inconfundíveis vieram da cama de casal. A menina, meio tonta, meio alerta, comparou-os ao silvar do vento. Aos gemidos das almas vagando pela coxilha em noite de vendaval. Teve medo. Cobriu a cabeça por inteiro, mas não conseguiu abafar os soluços. A mãe veio de mansinho. Aconchegou as cobertas, resignada:
“Não carece ter medo, filha. É só o minuano lá fora.”



Jacira Fagundes
28/11/2012