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Última viagem

A mulher sente um abalo ao vê-lo quieto. Estirado, o gigante ocupa espaço cada vez menor. Encolhe-se quando ela o acaricia, mais em razão da ameaça do que pelas juntas retorcidas. Adivinha?
Então ele empurra o prato de comida, os músculos retesados, e avança em direção à janela. Num salto ultrapassa a vidraça. Toma a rua em desesperada carreira. O ônibus freia em cima e o enorme corpo jogado retoma a forma que a doença esqueceu: do valente Doberman, estranhamente estendido.
Gulliver detém o espaço do gigante, os dentes pontiagudos à mostra, o focinho deixando escapar um fio de sangue.


Jacira Fagundes
28/11/2012