Dicas

Dicas de Leitura - por Magaly Andriotti Fernandes

Jacira Fagundes
03/04/2020


DICAS DE LEITURA por Magaly Fernandes

A Fuga

Título da obra - A fuga
Gênero - conto
Autor - Clarice Lispector
Obra - Todos os contos, pág. 88 Editora Rocco

Conto escrito na terceira pessoa, conta a história de uma mulher, casada há doze anos, que mora no Rio de Janeiro, entre a Tijuca e a Gloria. E que num dia de muito calor, resolve fugir de casa. Clarice consegue nos fazer sentir o calor do dia em sua descrição, e associa o calor à sensação de sufocamento em que vivia a protagonista. Ela sai, sem plano, sem projeto. O calor, o mal estar instalado, explode e a faz fugir. Ela anda sem rumo, no meio da chuva.
A forma como Clarice fala da personagem, de seus sentimentos inserindo-a no todo, na paisagem, por exemplo no terceiro parágrafo...” tonta como estava, fechou os olhos e imaginou um grande turbilhão saindo do “Lar Elvira”, aspirando-a violentamente e recolocando-a junto da janela, o livro na mão, recompondo a cena diária. Assustou-se. Esperou um momento em que ninguém passava para dizer com toda a força: Você não voltará. Apaziguou-se. Tem momentos, que parece que ela irá se matar, se jogar ao mar, ficar ali na chuva, molhando-se. Clarice faz disso, o percurso da protagonista que não tem nome. Aqui também pode-se pensar na epifania tão comum nos textos da autora. Não tenho claro se posso chamar essa sensação de uma epifania.
A princípio se passa em um dia e uma noite. Ela descreve a sensação boa de estar no hotel, mas não fica claro se foram só pensamentos, ou se de fato ela ficou hospedada. O desejo de sair de navio.
Com uma simples frase ela dá a dimensão da personalidade obsessiva do marido. O seu particularmente sólido, bom, nunca erra. Das pessoas que só usam uma marca de lápis, e dizem de cor o que está escrito na sola dos sapatos.
Um conto curto, de três páginas, mas que retrata, o conflito dessa esposa, que quer sair daquele casamento que lhe pesa como chumbo. Cenas cotidianas, mulher na janela, espera o marido. Etc, etc..mas rico na contextualização dos afetos, do mundo interno feminino. A realidade e a imaginação ali estão postos de forma magistral.

Escolhi esse conto pelo nome. Nesse momento de enclausuramento...a fuga é uma possibilidade
Possibilidade atual ,diferente da protagonista. Vamos fugir para dentro, para a leitura e para a música. A arte nos eleva e alimenta.


É para lá que eu vou



Dica de Leitura – por Magaly Andriotti Fernandes

Livro - Todos os contos
Autora - Clarice Lispector
Editora - Rocco
Capítulo – Onde estiveste de noite
Conto - É para lá que vou – pag. 508


Há uma semana, venho lendo, um conto de Clarice por dia de sua Coletânea - Todos os Contos. Leio aleatoriamente, escolho o título que me atrai no dia. Esse tempo estranho que vivemos de isolamento social, nos fazem sentir e refletir de forma distinta do que fazíamos até então. Hoje foi a vez do conto E para lá que vou.
Um conto curto, de uma página e meia, porém denso. Compreendo eu, que a autora fala do sentido da vida, que tanto pode ser a morte como o amor. Narrado em primeira pessoa, num monólogo.
Ela está refletindo sobre os limites do corpo, dos sentidos…para além da orelha, um som, à extremidade do olhar um aspecto, as pontas dos dedos um objeto…vai falar da palavra escrita... na ponta do lápis, o traço...da palavra falada...palavras ao vento.
Quando chega a morte, o amor se mostra como uma possibilidade. O amor pela pessoa amada e dos filhos. E ela irá terminar de uma forma otimista, ...Que estou eu a dizer? Estou dizendo amor. E à beira do amor estamos nós. Recomendo.
Essa leitura primeira, estou lendo, como diz aleatoriamente, depois farei uma pelos capítulos como organizou Benjamin Moser – no prefácio do livro.



O violinista que veio do mar


Dica de Leitura – por Magaly Andriotti Fernandes

Título: O violinista que veio do mar ( Ladies in Lavender)
Gênero: filme (visto no You Tube)
Direção: Charles Dance
Elenco: Daniel Bruhl (Andrea) ; Judi Dench (Ursula); Maggie Smith (Janet); David Warner (Dr. Francis Mead); Natascha McEthone (Olga Daniloff)


Sinopse
Elas salvaram um estranho. E o estranho roubou seus corações. Em 1936 na pequena vila de Cornwell, norte da Inglaterra, nem mesmo a iminência da guerra altera o pacato cotidiano dos moradores. Mas quando uma tempestade trás o charmoso carismático e misterioso jovem na praia da casa das irmãs Ursula e Maggie, o povoado entra em ebulição.

Nesse tempos de isolamento, e enclausuramento, devido ao vírus, os filmes são uma boa pedida, para passarmos os dias.
Esse filme inglês se passa antes da segunda guerra mundial, na Cornualha, uma pequena cidade da Inglaterra na beira do oceano.
Duas senhoras que moram quase na beira do mar, encontram um jovem naufrago. O levam para casa e o cuidam. E com o tempo descobrem que ele é um violinista.
As imagens são lindas, a música também.
O filme se passa de forma lenta, pelo rádio o espectador vai situar-se em que tempo se passa. Janet é viúva, e Ursula é solteira. Na casa, com elas, vive uma governanta, que dá graça ao filme. Ela é uma mulher forte, que cuida das irmãs.
O que para mim é a essência do filme trata-se da relação da cidade com um estrangeiro, ele um polonês. Não fala inglês. Fala alemão, e nos tempos antes da segunda guerra, esses eram vistos como espiões.
Nessa época, na cidade de visita, está Olga, uma mulher jovem, independente, que veste pastelonas, pintora, solteira. Uma mulher que se permite entrar no bar, pagar a sua própria bebida e dos que acompanha.
Andrea, a protagonista , está sonhando em ir para América. Quer conhecer um violinista famoso. E isso termina ocorrendo através de Olga.
Gostei e recomendo. Cenas singelas, que revelam o quanto a cultura interfere na possibilidade de algumas mulheres de viver um amor, um relacionamento afetivo. Ursula é uma delas. Com a presença do violinista ela passa a viver um devaneio. A irmã, madura, a cuida, não a crítica. Andreas ganha uma família.
Filme para alimentar a alma nesses tempos de escuridão.



Dica de Leitura – por Magaly Andriotti Fernandes

A Sereníssima República de Machado de Assis

Conto - A Sereníssima República de Machado de Assis
Leitura realizada a partir de edição em pdf, no site Domínio Publico
Fonte: ASSIS, Machado de. Obra Completa. Rio de Janeiro : Nova Aguilar 1994. v. II. Texto proveniente de: A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo Permitido o uso apenas para fins educacionais. Texto-base digitalizado por: Núcleo de Pesquisas em Informática, Literatura e Lingüística (http://www.cce.ufsc.br/~nupill/literatura/literat.html)
A Sereníssima República é um conto integrante da coletânea Papéis Avulsos, de 1882,

Hoje resolvi ler Machado de Assis, diante dos fatos políticos que nos assombram os dias e as noites e fui ao site do domínio público e escolhi esse conto A Sereníssima República. Esse nome me fez pensar que nosso querido escritor me ajudaria a entender um pouco o que aqui se passa, ou então me dar um alento para novos sonhos. O que de fato aconteceu. Trata-se de um conto bem humorado, com um tanto de sarcasmo que é próprio de Machado: se utiliza das aranhas para fazer uma crítica social e refletir sobre os processos humanos diante do poder e a corrupção como uma perspectiva já vislumbrada lá nos idos de 1882. Ano que o Brasil, sob o comando de um Rei, se encaminhava para a República.
O conto irá falar de uma conferência em que o protagonista toma para si o ineditismo da descoberta sobre a linguagem dos insetos. “Sim, senhores, descobri uma espécie araneida que dispõe do uso da fala…o primeiro exemplar dessa aranha maravilhosa apareceu no dia 15 de dezembro de 1876...no canto de um recanto de minha chácara...... O objeto dessa conferência é, como disse, ressalvar os direitos da ciência brasileira, por meio de um protesto em tempo; e, isto feito, dizer-vos a parte em que reputo a minha obra superior à do sábio de Inglaterra…”
Pode-se pensar nele como uma fábula que ele utiliza-se da sociedade de aranhas, para falar de democracia, de corrupção.
Eu tenho escrito sobre aranhas, tenho dois contos publicados na Coletânea Planeta Fantástico I e II, Aracnídeo e Aracnídeo – o Retorno. Tenho outros contos que falam de memórias, relações familiares e aranhas. Então saber que meu escritor preferido já as havia utilizado em conto, me deu uma sensação maravilhosa de pertencimento, sentimento não muito claro. A forma como ele humaniza as aranhas é muito engraçada, e o que mais amei foi a trama das relações de poder, homem-inseto, inseto-inseto. Ali, o inseto no lugar, de forma bem humorada e sarcástica, do humano. Recomendo.







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Comentários:

Magaly, venho acompanhando tuas dicas de leitura. Ainda não li todas. Mas, com certeza, apresentas uma relação de leituras muito interessantes. Parabéns!

Jacira Fagundes, Porto Alegre 28/04/2020 - 17:25

Interessante as várias interpretações que podem ser extraídas de um bom conto. Revelam a potência da narrativa.
Escrevo sobre o conto A Fuga:
A meu ver, rodopia na mente da personagem - um desejo. A figura do navio bem pode significar a dinâmica da vontade dela de querer mudar o rumo das coisas mas sem conseguir.
Sente a vida seguir monótona e fria. Do cotidiano enfadonho emerge a vontade de partir, seguir em frente porém não o consegue, então, ela acorda deste dilema quando o o marido apaga a luz, e tudo volta a escuridão. Apaga-se junto o devaneio. A partir deste momento volta à dura realidade.

Enrolada nos lençóis noturnos do cotidiano dá-se conta que a vida segue e ela não.

Berenice Güez, Porto Alegre/RS 11/04/2020 - 08:24

Interessante as várias interpretac&807;o&771;es que podem ser extraídas de um bom conto. Revelam a pote&770;ncia da narrativa.
Escrevo o seguinte sobre A Fuga:
A meu ver, rodopia na mente da personagem - um desejo. A figura do navio bem pode significar a dina&770;mica da vontade dela de querer mudar o rumo das coisas mas sem conseguir. Sente a vida seguir monótona e fria. Do cotidiano enfadonho emerge a vontade de partir, seguir em frente porém na&771;o consegue, então, ela acorda deste dilema quando o marido apaga a luz, e tudo volta a escuridão. Apaga-se junto o devaneio. A partir deste momento volta a dura realidade.

Enrolada nos lenc&807;o&769;is noturnos do cotidiano da&769;-se conta que a vida segue e ela na&771;o.

Berenice Güez, Porto Alegre/RS 11/04/2020 - 08:16

Magaly, faço minhas as palavras daTusnelda. E, mais, os contos da Clarice tocam nosso sentir. Parabéns!

Terezinha Lanzini, Canoas/rs 06/04/2020 - 20:32

Eu não li este conto de Clarice, mas com esta dica que você nos oferece confesso que estou louca para ler.
Parabéns pelo poder de síntese que você tem, comentando o conto sem entregar o conteúdo.

TUSNELDA MARIA STIGGER MARINS, Porto Alegre 06/04/2020 - 08:35

Parabéns!

Antonio Carlos Fagundes, Porto Alegre RS 04/04/2020 - 20:58

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