Crônicas

Um livre comércio

Jacira Fagundes
27/06/2020





Um livre comércio
Jacira Fagundes



Um bom tempo deveria ter sido aquele...tão distante do nosso. Mas vale lembrar.

Havia naquele tempo, uma localidade habitada por gente muito simples. Era um povo que vivia do plantio e recolhia-se ao cair da tarde. Mas nem por isso as pessoas ali eram rudes ou desprovidas de inteligência e cultura. Terminada a lida, reuniam-se em volta da mesa grande da varanda a se ocuparem, ora recitando, ora plagiando, ora compondo seus próprios poemas.
Comercializava-se naquela comunidade; e o poema – inventado ou reciclado – era a moeda de circulação. Um bater de palmas na cerca dos fundos significava sinal para o dono da casa, receber uma oferta de compra:
– Vizinho, preciso de 2 quilos daquele seu feijão. O amarelinho.
– Vou pegar lá dentro. É pra já.
– Tenho aqui uma poesia de cordel. Serve?
– Que serve nada, homem. O amarelinho é raridade; está por um poema de Quintana. E dos grandes!

E era assunto comum na entrada do único açougue da cidade.
– Compadre! Vim buscar o terneiro que encomendei pro batizado do Quinzinho.
– Quatro quilos justos! Dá um Manuel Bandeira mais um Vinícius.
– Que pena! Deixei o último Vinícius com meu filho. Mas tenho aqui uma pérola: o Navio Negreiro de Castro Alves sem uma falha. Completinho.
–Vá lá. O Navio Negreiro e levas de contrapeso esta bela fatia de torresmo.

Havia gente de toda espécie naquelas cercanias. Os mais preguiçosos produziam pouco, tanto na lavoura quanto nos poemas. Com pequeno poder de compra, recitavam antigos versos sabidos e repetidos por todos, ou pequenas trovas, o que lhes rendia no máximo uma taça, pão e manteiga ou dois martelinhos ali mesmo no balcão da bodega.
Os sovinas só comiam o que era produção própria e fabricavam poemas em quantidade, descuidados da qualidade. Os poemas iam para o estoque numa espécie de cofre que mantinham no celeiro longe da vista dos vizinhos.
Mas a maioria – velhos, jovens e até crianças – desenvolvia uma boa produção a fim de garantir a equiparação de renda e não comprometer o comércio com inflação.
Era assim que vivias aquele povo, usufruindo de um livre comércio em que todos garantiam mesa mais ou menos farta e um certo conforto. Eram bem humorados, respeitosos e crentes na providência divina. “Um bom tempo ...” Pois que se orgulhavam das suas histórias passadas pelas avós de geração a geração.

Mas existia uma história em especial, segredada somente para os pequenos descendentes de uma das famílias do ramo dos sovinas. Era a história de um tetravô – na época um jovem esperto e decidido. Certo dia ele se encheu de coragem, tomou o trem e foi visitar uma cidade muito rica e distante. Voltou outro homem. Na bagagem de mão trazia um envelope contendo pequenos retângulos de papel, impressos de um lado e de outro com a imagem de um tipo barbudo e imponente. A tiracolo, carregava uma máquina copiadora. E dentro do peito retumbava um desejo enorme de enriquecer.
Não conseguiu controlar.




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