Textos

Repositório PUC - da leitura à escrita

Jacira Fagundes
24/08/2020



O texto a seguir é parte da tese de Doutorado de Amilcar Bettega Barboza no Curso de Escrira Criativa da PUCRS, sob a orientação de Luiz Antonio Assis Brasil.
A tese completa encontra-se na Internet sob o título :
Repositário PUC - da leitura à escrita
A construção de um texto

Repositório PUC – Da leitura à escrita
A construção de um texto - Apresentação da Tese de Doutorado do Curso de Oficina Criativa
Autor: Amilcar Bettega Barboza
Orientador: Luiz Antonio de Assis Brasil

1. Da leitura – o prazer
Olhar para mim mesmo enquanto escrevo. Gostaria de fazer uma ressalva para dizer que não vai aí nenhuma intenção narcísica. Pensar a composição de seus próprios textos, estar atento para a maneira como eles se organizam internamente e questionar esta organização, a todo momento é, hoje, neste século XXI o avançar a passos largos, O mínimo que o escritor deve fazer se quer ver o seu trabalho vinculado ao domínio da arte.
Tornar público este pensamento não é mais do que deitar luz onde normalmente há sombras, o que não deixa de ser uma forma de praticar a honestidade, consigo próprio, o escritor, mas também com o leitor. Do ponto de vista institucional, a proposta de uma tese em cotutela entre a Université Sorbonne Nouvelle – Paris 3 e a Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, no Brasil – se justifica, pelo lado francês, por ser Paris 3 a universidade onde eu estava inserido, como Leitor de português a ensinar a língua aos estudantes franceses (e não só), no momento em que decidi começar o doutorado. Numa esfera mais ampla, acredito que o caráter original de um trabalho deste tipo justificaria por si só a sua proposição a uma universidade francesa – não fiz nenhuma pesquisa estatística, mas não tenho notícias de algum trabalho ficcional ter sido apresentado a uma universidade na França com vistas à obtenção de um título de doutor em Letras. Pelo lado brasileiro – obrigatoriamente deveria haver um “lado brasileiro”, já que minha proposta contemplava a escrita de uma ficção e eu jamais concebi escrever ficção em outra língua que não a materna – foi também natural a escolha da PUCRS pelo seu pioneirismo nos estudos ligados à Escrita Criativa no Brasil e na abertura à recepção de trabalhos ficcionais como tese de doutorado. Um pioneirismo que levou recentemente esta universidade a criar, no âmbito do seu Programa de Pós-Graduação em Letras, uma Área de Concentração designada justamente Escrita Criativa, sob a coordenação do escritor e professor Dr. Luiz Antonio de Assis Brasil, com longa experiência no domínio da criação literária. Estruturando o meu trabalho da forma como aqui o apresento, penso poder contribuir para os estudos de doutorado em Letras com área de concentração em Escrita Criativa da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e para os mesmos estudos desenvolvidos na unidade de pesquisa dos Études Lusophones da École Doctorale Europe Latine - Amérique Latine da Université Sorbo
Para Proust, a leitura não pode ser comparada a uma conversa, mesmo se o autor do livro fosse o mais inteligente dos homens. O que diferencia um livro de uma pessoa (um autor) não é a maior ou menor fonte de inteligência com a qual nos poremos em contato, mas sim a maneira, o meio através do qual se dá este contato. Na leitura, assim como em uma conversa, nos comunicamos com outro pensamento. Mas à diferença desta última, permanecemos a sós conosco, ou seja, « continuamos a gozar do poder intelectual que temos na solidão e que a conversa dissipa imediatamente, continuamos a poder ser inspirados, continuamos em pleno trabalho fecundo do espírito sobre ele próprio». Esta ideia é interessante porque aponta para o caráter ativo que, para ser de fato enriquecedora, toda leitura deve incorporar. E nisso ajuda a aproximar o ato de ler ao de escrever. A leitura, como um encontro consigo próprio. Assim como é a escrita. A solidão do leitor, em certa medida, se assemelha à solidão do escritor, ambos cortados do mundo real, imersos no contramundo de suas imaginações, de seus pensamentos. Uma frase escrita representa todo um caminho percorrido pelo pensamento do escritor que, de posse de sua arte, conseguiu expressá-lo daquela forma. Esta mesma frase lida é o início de uma operação mental de parte do leitor que, fazendo uso de sua sensibilidade e de sua carga de experiências pessoais, também produz (novas) imagens e ideias.
O leitor entra em contato com a obra por meio de algo (o texto) que obrigatoriamente vai evocar neste leitor imagens que são do seu universo (real, da própria experiência ou alheia, ou ao contrário, da fantasia pura – mas em ambos os casos, sem dúvida nenhuma, de um universo que é o dele). São imagens que lhe pertencem, por assim dizer. Se o texto é criado pela imaginação do autor, na leitura ele é reimaginado pelo leitor. E nesta reimaginação, as referências são as do leitor e não mais as do autor. Ao lermos uma frase que diz “era um dia chuvoso” automaticamente vamos construir a imagem do “nosso” dia chuvoso. Talvez recorreremos a dias chuvosos vividos há muito tempo ou vistos em filmes ou em quadros ou ao que pensamos ter sido os dias chuvosos. O que é certo é que nós é que vamos construir a imagem mental deste “dia chuvoso” e ela será única, diferente das imagens construídas pelo autor ou por quantos forem os outros leitores. Assim, toda leitura é auto reflexiva, ela aponta para dentro do leitor, para a sua experiência, para o seu mundo, para a sua imaginação. Apesar de ser uma forma de comunicação, de apreensão de algo que vem do outro – que vem de fora – ela remete àquele que a pratica para a sua vida interior. Não deixa de ser, portanto, um exercício de autoconhecimento, que permite ao mesmo tempo a exploração e expansão de si próprio. E, se por um lado, a leitura está ligada à ideia de recepção, no sentido inverso àquela de emissão que a escrita inspira, ela não é, não pode ser, jamais um exercício passivo. Ou quando o é, esvazia-se de sentido. Já não é leitura. Porque não ativa no leitor o seu espírito, o seu mundo interior. Não deixa marcas.
No ponto inicial daquele texto ( leitura) que pode se transformar no desejo de escrita, Barthes identifica três tipos de Prazer
1) O prazer da leitura que se basta, que se fecha em si mesmo; o sujeito não é tocado pelo tormento de fazer igual: são os leitores que permanecem leitores – os leitores que não escrevem.
2) O prazer da leitura quando ele traz uma sensação de falta (falta alguma coisa), que vai desembocar no desejo de escrever;
3) O prazer de escrever, que não está livre da angústia originada pelas inúmeras dificuldades envolvidas neste ato, mas que é já um prazer de outra ordem, provocado pelo (outro) prazer não totalmente satisfeito. Para efeitos deste estudo, o que nos interessa é o prazer incompleto, produtivo, porque desperta no leitor a vontade de completá-lo, induzindo-o a dar segmento à leitura – já num processo interior, de reflexão da matéria lida – ou, em alguns casos, provocando o desejo da escrita. É o que analisaremos a seguir:
2. Da escrita (a vocação)
É comum, ao lermos as entrevistas que são feitas com escritores, nos depararmos com pedidos de conselhos aos jovens que pretendem se lançar na escrita, ou, de uma forma mais direta, com indagações do tipo “o que fazer para se tornar um escritor”? Dez entre dez dos escritores responderão – como teriam respondido Proust ou Barthes: ler, ler muito e bem. Mas se só escreve quem lê e se todo escritor é, antes de mais nada; e por algum tempo foi apenas isso – um leitor aplicado, a recíproca não é verdadeira. Penso que além do desejo de completar algo que na leitura ficou faltando, como visto no capítulo anterior, além mesmo da prática constante e aplicada da leitura, é preciso acrescentar a esta equação um componente ainda mais subjetivo e de difícil definição que é o que, na falta de melhor palavra, poderíamos chamar de vocação literária.
Se prestarmos atenção aos discursos dos escritores quando eles falam de seu trabalho, de sua vida ou mesmo quando emitem opiniões sobre outros assuntos, não é raro identificarmos certo sentimento de inadaptação, uma maneira de estar no mundo que é oblíqua, dessintônica. A criação de mundos ficcionais, a substituição da concreta realidade pela fugaz ilusão de uma ficção, é uma maneira de compensar esta espécie de inadequação ao mundo que parece ser uma constante no modo de ser de todo o artista em geral, e do escritor em particular.
Alguém perfeitamente adequado à realidade não produz arte. Ou melhor, não sente a necessidade de produzir arte. Se a vida real é insatisfatória e a existência cheia de vazios, a ficção se encarrega de preenchê-los. E isto tanto do lado de quem a faz – o escritor – quanto de quem a lê. Assim, uma vez manifestado o desejo de escrever e este for persistente, teremos já boas condições para o início de uma trajetória no terreno da escrita. Vargas Llosa insiste nesta ideia de que a vocação estaria na combinação dessas duas coisas em tempos diferentes: uma predisposição (subjetiva) inicial e, posteriormente, a escolha racional, um ato da vontade. O certo é que em algum momento – que é sempre de grande excitação e normalmente durante o período da juventude – aquele que se prepara para (ou especula) lançar-se à aventura da escrita se vê às voltas com questões do tipo “poderei de fato tornar-me um escritor?”
Sim, a escrita vivida como a própria vida. Porque uma vez picado pelo “bicho” da escrita, dificilmente a pessoa vai se livrar dela. É coisa para toda a vida, o tempo todo. Algumas ideias frequentes na fala de muitos escritores a respeito de seu trabalho – entrega, exclusividade, disciplina, obsessão – apontam para este caráter meio doentio da literatura. Como uma droga. Ou como, na metáfora que Mário Vargas Llosa, uma vez mais, utiliza em suas Cartas..., uma solitária voraz que o escritor traz dentro de si e que lhe exige tudo, que se alimenta de sua própria vida.
3. Da leitura à escrita – a imitação
Pois o impulso do leitor fascinado que quer, que deseja com todas as suas forças escrever tem algo (tem muito) de infantil: é a criança que quer prolongar a brincadeira (e a brincadeira é sempre uma reprodução da vida), reflexo da sua fome permanente de prazer. É a criança querendo fazer como os outros – os grandes – fazem, querendo ser parte ativa, juntando-se de maneira ativa à fonte do prazer.
É o que poderia definir – e define, para mim – a questão da influência em literatura: há certos autores – naturalmente aqueles de nossa preferência – que nos revelam possibilidades dentro do campo de nossa sensibilidade e de nossas afinidades, que nos apresentam caminhos e nos ajudam a encontrar o nosso próprio. Mesmo que este caminho esteja, de certa forma já intuído por aquele que admira (naquilo que admira), pois a admiração em literatura nunca é gratuita: ela nasce de uma profunda identificação, de um sentimento de pertencimento a uma determinada família literária – e isto vale tanto para escritores quanto para leitores, também estes fazendo parte de famílias. São estes autores da mesma família, os nossos parentes, que nos fazem escrever, são eles que, ao nos tocarem, acendem em nós o desejo de, nós também, tocarmos o outro. E a família, percebe-se em seguida, por mais particulares que sejam as características que a constituem como família literária, está sempre a aumentar. Um autor leva a outro, cada leitura leva a outra nova leitura – sem falar nas releituras, que são sempre novas leituras.
Se o leitor ingênuo lê pelo prazer, o leitor-escritor, o leitor reflexivo lê também para enxergar o texto por dentro (ou por trás de sua fachada aparente), para saber por que aquele texto específico provocou-lhe (e a outros) tanto prazer. São posturas diferentes diante do texto, que resultam em leituras diferentes: uma constrói a história a partir dos elementos que o texto oferece e a outra a constrói igualmente, num primeiro momento, para desmontá-la logo a seguir (ou ao mesmo tempo) a fim de entender as engrenagens deste artifício que se chama texto literário. Ora, toda leitura de uma obra literária pressupõe um pacto implícito entre o leitor e o texto: sabemos que se trata de uma ficção, mas fingimos acreditar que se trata de algo real. Mesmo a mais fantástica das narrativas traz sempre uma reivindicação do real. O leitor acompanha as peripécias do personagem de um conto ou de um romance como se todos os acontecimentos narrados tivessem de fato ocorridos, mesmo sabendo que se trata da imaginação do autor, e mais do que isso, que os elementos da narrativa estão organizados, manipulados artificialmente, de maneira a lhe causar essa impressão de realidade.
Um texto ficcional funciona em uma estrutura próxima da dos jogos de adivinhação. A linguagem literária assemelha-se a uma linguagem cifrada onde o texto é constituído de uma série de pistas lançadas pelo autor a um desconhecido leitor que, interpretando e relacionando as pistas entre si, poderá clarificar pelo menos algumas das zonas de sombra deste texto, extraindo-lhe sentidos. Seria como decifrar uma mensagem após longo estudo dos indícios, o que, é evidente, nunca se dá sem esforço. A satisfação do leitor ao sentir que apreendeu algo essencial do texto é a recompensa prazerosa por este esforço.



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