Textos

Arquivo Narrativa II

Jacira Fagundes
16/10/2020


Clotilde Grassi
Título: E A VIDA CHEGA AO SEU OCASO
3º Capítulo
Quando Joseph retornou de suas viagens e peregrinações internacionais, desta vez de regresso dos Estados Unidos, deparou-se com seu velho taco de beisebol. Foi colocar sua pesada mala quadrada sobre o armário do quarto e a mala teimava em rolar para o chão. Percebeu seu taco ali, esquecido, atrapalhando a acomodação da bagagem. Afagou-o em suas mãos já trêmulas e alisou em toda a sua extensão. Era de pesada madeira, mais fina de um lado, alargando-se harmoniosamente até o final. Hoje em dia tem tacos mais leves, confeccionados com novos e modernos materiais. Visualizou, em sua memória, as tacadas certeiras que tinha desferido nos longínquos dias de sua adolescência e juventude. Queria poder correr de novo sem parar, mas agora tem o peso de tantos anos. Naqueles dias foi orientado a praticar esportes como forma de vencer a asma, essa sufocação que, não raro, o obrigava abandonar o campo, soltar o taco e tentar achar o ar. Melhor, tentava soltar o ar que entrara nos pulmões e ficara lá, tentando lhe afogar.
Foram os superiores da Escola que o animaram a participar dos jogos como medida desesperada de o ver curado daquele desconforto. Certamente os professores não se sentiam confortáveis vendo seu aluno sair tantas vezes para respirar lá fora. Esse impulso poderia contagiar os demais alunos numa época em que a disciplina imperava. Para cada situação nova ou estresse, uma nova crise de ar lhe abatia. Sabia-se da sua infância infeliz, da sua chegada indesejada ao mundo, da imensa rejeição que se utilizava de seus pulmões para mandá-lo de uma vez para além vida. Mas Joseph venceu a asma e a insegurança. De tantos solavancos e tempestades, se tornou um forte servo da humanidade, dedicado à causa de tantos, que se identificava com os demais carentes de amor verdadeiro assombrando muitos jovens mundo a fora.
Conservando-se em pé com o descascado taco nas mãos, esqueceu o tempo e recordou muito a vida que ficara para trás. Quando jovem ainda, estudante de Sociologia, Antropologia Humana e Teologia, tinha suportado uma grave crise espiritual, que o levou, agora lembra, ao esgotamento de suas forças. Abalado só de pensar nisso, bateu com o taco no chão. A seguir, fez o movimento de arremesso, vendo em sua frente, ainda que de forma imaginária, a bolinha rodando no céu. Não se destacou como atleta, ainda que se esforçasse. Abandonava repentinamente o campo de batalha, soltando o taco onde se achava e, se encurvando para encontrar o ar, muitas vezes tombava. Os colegas lhe socorriam erguendo os braços bem alto, na vertical. Nem sempre resolvia o problema, mas se esforçava para se restabelecer como resposta à dedicação dos amigos.
Recordou, também, seu tempo de professor de teologia, trabalhando com pequenos jovens aspirantes, emocionando-se até às lágrimas ao ver aqueles meninos inseguros, precisando de um pai amoroso e compreensivo, necessitados de amparo como ele já fora. Decidiu ser esse pai, sendo confrontado pelos bispos que o acusaram de querer se colocar no lugar de Deus Pai. Tinha certeza que não se avocava tal posição. Era humilde e dedicado, tão só. Revelou-se um pedagogo muito dotado, já que o afeto é primordial quando se ensina. Enfatizava aos jovens a importância de se tornarem fortes, sobretudo livres, e nada fazer que lhes fosse imposto. Deus quer corações livres, do contrário Ele não tem interesse.
Foi grande a alegria quando da fundação do movimento jovem de entrega pessoal. Lembra bem da fisionomia de cada um, agora, enquanto afaga o taco de beisebol preso em suas mãos. Não o larga, pois é este objeto de madeira que lhe puxa o pensamento para trás, para o que foi e fez ser quem agora é. A fundação tinha como prioridade oferecer livremente o coração de cada jovem em busca de um mundo melhor para se viver, tornando-se um importante movimento internacional, alcançando muitos países, entre os quais, o Brasil. A mudança que se queria ver no mundo, começaria por cada um, conforme preconizou Gandhi. O Movimento de Shoensttat dava seu sinal de prosperidade desde a base inicial com estes jovens em sua oferta pessoal em prol da humanidade. Sem sacrifício e de coração livre estes jovens acolheram com alegria o rumo de uma vida nova que seria feliz não viesse, em seguida, a segunda guerra mundial. Requisitados, seguiram resignados para defender a Alemanha com seus uniformes e quepes azul-cinza característicos. Era sabido que muitos não voltariam.
Acusado pelos homens de Hitler de que criava agrupamentos e provocava tumulto, Joseph foi preso, interrogado ininterruptamente e, por fim, mandado ao campo de extermínio nazista de Dachau, posteriormente, transferido para Auschwtz. Sente em seu estômago a dor da fome que lá sentiu. Neste momento, suas pernas cansadas tremem ao sentir a fraqueza que mal conseguia suportar o peso do corpo esquelético que, por vezes, pensou não mais restaurar os músculos desaparecidos. Enfim, está vivo. Sente-se muito vivo após mais uma viagem internacional para palestrar. Saiu um sorriso espontâneo ao relembrar as comunidades da América Latina e África onde esteve semeando. Renovado por estas imagens gravadas na memória, repõe o taco de basebol sobre o armário, joga o corpo cansado sobre a cama. Sobra espaço no colchão, seu corpo pequeno se afunda estando leve. Sente fome, mas os músculos gritaram mais.

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Capítulo 4 Clotilde

EM BUSCA DE AR
Dizem que esporte é vida, física e mental. É verdade. Comprovadamente, a corrida, as tacadas de baseibol, o adversário na iminência de te desbancar, se pensa em que? Em nada. Existe o nada. No nada, a paz. E o corpo segue sua marcha rumo ao funcionamento natural, vocação para o qual foi feito.
Uma tacada, duas, três e coff, coff, cof, co, xiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii
Acordei roxo deitado na grama com um amigo segurando uma perna para cima, apontando para o céu. Outro a sacolejar meus braços, outro afundando meu tórax e mais outro me abanando com sua camiseta.
- E aí, seu louco, quer matar a gente de susto? Como é o lado de lá, o andar de cima que dizem ser em cima?
- Fiquei aqui, não parti para o além, e agora estou imóvel com o peito ardendo, ardendo. Rasgado o peito por dentro.
- Quem te disse que o esporte te traria o ar que te foge?
- Meu professor que não agüenta eu sair da sala, mau exemplo para o resto da turma. Correndo se é feliz, asseguro, sob o sol, livre no espaço, liberto da vida, o espírito voando com a bola. Pena o ar que não quer me acompanhar, fico sem forças, caio mal, fica a dor, a ardência e o desespero.
- Por hoje já nos assustou bastante, vamos terminar o jogo sem você. Fica assistindo, quem sabe da próxima vez você consegue, aos pouquinhos, até vencer teu pulmão fechado.
Voltando o ar, devagarinho, a cor, a energia, a vontade de correr, mas ninguém vai querer alguém assim no time. E o sentimento de rejeição quis chegar, com a lembrança da falta de afeto de toda uma vida, razão pela qual o ar se ausenta.

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EPISÓDIO 3 Magaly Fernandes



Setembro é um mês de muitas chuvas, Umut está novamente em sua cama. E ela parece (que tem) ter cola. Não permite que ele saia, sente-se envolto e preso pelas cobertas. Aquele som de pingos constantes o deixa ainda mais sonolento. Muda de posição, puxa o lençol e cobre-se por inteiro. O som que escuta agora é o das ondas do mar. Está na areia sentado, esperando o pai voltar com os peixes. Enquanto o pai viveu, moravam num casebre à beira do mar. Bem antes do sol nascer, já estava em pé para ajudar com o barco que ia para pesca. Não ia junto, ficava na areia esperando a retirada das redes. Ajudava na limpeza dos peixes. Tem gente que não suporta o cheiro, Umut sentia-se acolhido. O abraço do pai se confundia peixe/pai. O pai passava a mão em sua cabeça, o ensinava a abrir os mais difíceis. Depois chegar em casa, tomar aquele café quentinho, o peixe frito na hora. Porque fora fugir do seu destino. Devia estar sendo castigado por isso.
O celular toca novamente. Ele não se mexe, fica paralisado. Trabalhar naquele shopping o estava matando. O trabalho era humilhante, o salário não pagava suas despesas. Sentado na areia, se via de jeans, camisa de linho, namoradas, uma casa de tijolos. Carro nunca chegou a sonhar. E agora ali naquele quarto sem banheiro, aquelas pessoas que não falavam com ele. E mais essa, o único cara com quem falava foi morrer bem ali ao seu lado.
Levantou-se, parecendo uma tartaruga, pesado e desanimado. O banheiro estava ocupado. Desceu, foi tomar um café.
— Umut, os policiais deixaram essa intimação.
— Para mim? O que eu tenho a ver com eles?
— Todos fomos intimados a ir na Delegacia.
E agora, meu Deus, o que vai ser de mim. Será que minhas digitais estavam na porta? O que podiam querer com ele, tinha dito que apenas escutara o gemido , nada significativo.
Ligou para o chefe e avisou que chegaria novamente atrasado, ia direto dar o depoimento.
No caminho lhe ocorreu falar que, seguidamente, ele e o vizinho ficavam conversando um no quarto do outro. Sim, mas do que falavam??? Não isso não ia dar certo. Seria vago, falavam de mulheres, jogo.
— Sr. Umut que bom que chegou no horário. Sua identidade, por favor. Encontramos algumas digitais na porta do quarto. O senhor nos disse que não esteve lá.
— Na madrugada não estive mesmo. Mas na noite anterior, sim.
— Pode nos contar o que foi fazer?
— Nas noites de terça, sempre tomávamos uma cerveja e jogávamos canastra. José gostava de ficar levando vantagens ao contar de suas sacanagens com as mulheres. Na noite anterior a sua morte, cheguei a entrar no quarto, mas ele não estava disposto, me botou a correr, estava esperando uma dona.
— Falou o nome?
— O senhor vai me desculpar, mas vou repetir o que ele me disse: – Umut hoje vem aí uma pexereca das mais gostosas.
— O que tu sabes da vítima, podes nos relatar.
— Sei muito pouco, canastra exige concentração e o José era rápido. A gente bebia uma ceva, eu ficava ouvindo ele falar de suas transas, jogo de futebol. Eu durmo cedo Foram umas três ou quatro vezes que fizemos isso..
— Leia seu Umut, e assine. E saiba que vamos estar lhe enviando outra intimação.
— Não posso estar saindo do trabalho, vou perder o emprego.

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CAPITULO 4 Magaly

Umut saiu da delegacia, apavorado. E agora o que ia fazer? Não tinha nada com aquele cara. Um dia, ele chegou a oferecer droga para vender. O dinheiro o fez pensar duas vezes, mas resolveu que não, aquilo não era para ele. Pensou em falar com Beatriz, moça que conheceu no Tinder. Ela tinha ensino superior, de repente poderia lhe ajudar, lhe dar alguma ideia. Ou quem sabe fugir para Torres onde ela morava. Será que o receberia? Agora não tinha como falar com ela, precisava trabalhar. Com a mãe, nada resolveria e ainda a deixaria bem preocupada.
Jogou-se na limpeza do shopping. Não era de muitas palavras, mas aquele dia estava mais ensimesmado que nunca. O chefe solicitou que ficasse até mais tarde para pagar o horário. Ficou indignado, mas fazer o quê?
Chegou na pensão mais de dez horas da noite. Jantou no shopping mesmo, tinha uma amiga, no Mac Donalds, que guardava sobras de lanches para ele. Entrou no chat e procurou ver se Beatriz estava acordada.
—Oi, Bia, posso falar?
—Diga Umut
— Lembra que te falei que um cara foi morto aqui no quarto ao lado? A polícia pensa que fui eu. O que faço? Fujo? Pensei em ir aí. Torres é a tua cidade, não é? Eles nunca me encontrariam.
— Umut, foi tu?
— Não , claro que não, eu jamais mataria uma mosca.
— Então fugir do que? Fica e enfrenta.
— Aqui as coisas não são bem assim Bia. Sou pobre, não tenho advogado, não sou da cidade, sou serviços gerais.
— Isso não faz de ti um criminoso.
— Para ti não, Bia, mas para a polícia sim.
Ele ouviu passos rápidos e gritaria.
Nisso sua porta foi escancarada com muita força.
— Sr. Umut, o senhor está preso.
E os policiais já foram o algemando, e ele gritando.
— Eu não fiz nada, seu. Eu nem conhecia o José, porque o mataria?
— Cala tua boca, tu vais te explicar para o Delegado.
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CAPÍTULO III Maurícia

O cheiro do café fresco chega até a loja e Miguelito se apressa para seu cafezinho da tarde na confeitaria do outro lado da rua, um luxo do qual não abre mão.
—Olha o tempo, pai, leva teu guarda-chuva. Tá trovejando, — acrescenta Ritinha baixando a voz, sabe que o pai não mais a ouve.
Miguelito empurra a porta da confeitaria e o aroma de café invade suas narinas. Vozes abafadas, tilintar de xícaras, vapor saindo da cafeteira, um leve ruído do ar condicionado.
— O de sempre Seu Miguelito? — pergunta a atendente — e na mesa de sempre, — acrescenta com um sorriso.
Miguel acena afirmativamente com a cabeça com a seriedade de costume.
Da mesa de sempre, Miguelito pode observar a entrada e saída dos fregueses da sua loja, o movimento da rua e da confeitaria. Conhece muitos dos frequentadores. Acho que também trabalham por perto. O grego se atrasou hoje, um imprevisto talvez, teve aquela tarde que também não pode vim à confeitaria por causa do banhero alagado.
Com um tilintar, a porta se abre, o grego entra. Procura um local para o guarda-chuva, acabou colocando-o com os demais junto da porta. Terno impecável, olha-se no espelho, ajeita o cabelo castanho encaracolado dando pancadinhas com as mãos. Inala o cheiro do café e olha para a atendente, pergunta como está.
—E o docinho de hoje, seu Guilherme?
— O mais brasileirinho.
Vai até a mesa central olha em volta, cumprimenta, troca algumas palavras com frequentadores mais próximos e senta. Tira o bloquinho e caneta do bolso e, antes de fazer as anotações costumeiras, conversa com um senhor, na mesa ao lado. Começa a anotar, a atendente leva o café e um brigadeiro. Enquanto saboreia o café e o quitute, continua suas anotações.
Miguelito estava curioso, por que o chamam ele de grego? Será grego mesmo? Ele parece deslocado aqui, é tão elegante e tem uma postura; mas parece que se gosta de tá aqui, vem todo dia. Da sua mesa, o grego o cumprimenta. Deve ter notado que eu tava olhando, que vergonha. Vou acenar com a cabeça.
Os trovões aumentam, o céu escurece, os primeiros pingos caem. Na rua, as pessoas se esbarram, atravessam diante dos carros, buzinadas de protestos. Os vendedores da calçada cobrem suas mercadorias com plástico, mas logo passa. O grego levanta, agradece e sai para o mormaço com cheiro de terra molhada. Miguelito viu que ele esqueceu o guarda-chuva. Vou entregar pra ele, não pode tá longe. Tá lá no segundo platô conversando com o jardineiro. Respira, Miguelito, senão não chega até lá , são só dois lances de escada.
A chuva recomeça. Ofegante, Miguelito entrega o guarda-chuva ao grego.
— E o senhor, vai ficar na chuva? Fica com ele, eu estou perto, e aponta para a loja de departamentos.
-- Eu também, vou para o Armarinho, ali, — indicando com a cabeça para a loja ao lado.
—Então vou te levar até lá, — diz o grego, sem ouvir os protestos de que não precisava.
Miguelito, meio curvado, tropeçava, caminhando ao lado daquele homem alto, andar ereto e roupas impecáveis. Tô parecendo um menino de rua protegido por um homem generoso. Quem ia dizê que um dia eu ia caminhá debaixo do guarda-chuva dum homem tão importante. A Ritinha tem razão, preciso me vestir melhor.
— Nos vemos amanhã ,— diz o grego ao deixá-lo na porta da loja.

16 horas do dia seguinte
— Olá, vizinho, —diz o grego quando Miguelito entra na confeitaria — venha sentar-se comigo. Miguelito titubeia. E agora, o que faço, bem que eu queria mas não tá à altura dele. Mas por que não? Se me convidou, é porque não liga.
Guilherme levanta — Guilherme Katsaros, prazer. — estendendo a mão para Miguelito. Com quem eu tenho o prazer de conversar?
— Miguel Hernández, mais conhecido como Miguelito, dono da Armarinhos São José.
Guilherme o convida pra sentar.
— Pois bem, sou Guilherme Katsaros, proprietário do Parthenon, — diz rindo.
— Dono do Parthenon! — disse Miguelito com toda sua humildade— quando via o senhor, sempre imaginei que seria uma pessoa importante.
— Por que, Miguelito? Mas não me chame de senhor. Somos colegas de profissão.
—Você sempre se veste muito bem, e o seu jeito. Dono do Parthenon, repetia. Conseguiu construir aquela beleza e toda em mármore!
Guilherme sorriu, já estava acostumado com este tipo de perguntas. — Parece, mas não é, usei material que imita mármore. ( incluir o material usado?) Só a lojinha que meu avô iniciou tem a fachada toda em mármore. As demais são todas são imitação. Imagino que seu armarinho também está na família há muito.
— Não, minha família não é deste ramo, eu fui o primeiro. Sou filho de um pai lutador, caminhoneiro, agora tá aposentado. A gente morava no bairro mas quase não saía de lá. Quando terminei segundo grau, hoje não se diz mais assim parece que é ensino médio. Não sei por que mudam o nome. A educação continua igual. — Miguelito cuidava da pronúncia. Sua fala andava desleixada.
Guilherme, de braços abertos, cabeça inclinada, atento.
—Precisei parar de estudar pra trabalhar. Consegui emprego na loja São José com o seu Renato, mas foi ficando velhinho, se aposentou e ofereceu a loja pra mim, eu já tinha pegado jeito. Mas não foi fácil comprar o ponto e a mercadoria. A gente teve que vender um terreno. Ainda bem que meu pai tinha comprado ele por uma bagatela.

— Mas, mesmo por isso, a família deve querer continuar, assim como nossa.
— Só se por parte de meus sobrinhos. Minha filha, a Ritinha, trabalha comigo por pena de me deixar sozinho. Ela diz que não, mas eu acho que ela queria outra coisa
— Mesmo assim, pode estar iniciando um negócio de família, como vovô fez na sua pequena loja na Grécia. Depois que ele faleceu, meu pai assumiu a lojinha Parthenon. Hoje temos quatro Lojas como esta. Um na Grécia, em Atenas, do meu irmão e este aqui. Os de Milão, e de Nova Iorque estão com meus primos. Mas a Ritinha é filha única?
— Tenho também um filho, o mais velho.
— E este? Não se interessa pelo negócio do pai?
— Com ele não posso contar com nada. Só me dá problema.
Guilherme ergueu as sobrancelhas. —Por que? — olhando nos olhos de seu interlocutor.
— Escolheu ser músico, não tem emprego fixo. Vive na rua, só vem para casa quando não tem onde ficar. Depois que a mãe deles deixou a gente, posso dizer que ficamos minha filha e eu. Com ela posso contar. E tem o Felipe meu empregado da loja, olha, tive sorte com este rapaz. Sabe, pai sempre quer o melhor pra seus filhos. Tenho me preocupado muito com o Vinícius, não vou durá pra sempre pra poder ajudar. Já estou com cinquenta e dois. Mas não vamos falar mais nisso, —diz Miguelito, olhando pro relógio.
Guilherme olha para o homem humilde a sua frente, franzino aparentando, no mínimo sessenta. Tem apenas dois anos mais que ele.
— Já está na hora, mas antes quero te dizer que já na primeira vez que te vi me lembraste meu avô, agora conversando contigo, vejo que não é só fisicamente.
— Como pode, seu, quer dizer, Guilherme. Teu avô deve ser alto e forte pra ter um filho do seu tamanho. Não miudinho como eu.
— Minha altura vem da família de minha mãe.

A filha percebeu a agitação do pai ao chegar do cafezinho. Secava o suor da testa, os olhos bem abertos, sobrancelhas levantadas, a boca entreaberta mas expressando um leve sorriso.
Diante do espelho no corredor que dá para o depósito, Miguelito se olha. Como o grego me viu? Arruma o colarinho, ajeita melhor a camisa na calça, passa a mão no rosto e se olha de perfil, apruma-se, vira para filha que está arrumando a arara de tecido. As vendas foram boas naquele dia.
—Oh, Ritinha, tu não vais acredita, ele me convido pra tomá café na mesa dele. A gente conversô. Ele se chama Guilherme Ka-tsa-ros — diz, separando as sílabas.
— Quem é ele? Ele quem?
— O grego, Ritinha, não vais acreditá. O grego é o grego do Parthenon, ele é o dono. Quase caí pra trás quando me disse? Eu sentado na mesa do grego!

— Tá brincando comigo! Ele te convidou mesmo pra sentar na mesa dele? — pergunta Ritinha mostrando interesse no assunto. O pai admira tanto o Parthenon, não consegue passar em frente sem parar.
— E o pai sentou? Desculpe, mas, vestido assim?
Miguelito confirmava acenando a cabeça. Sorriso largo.
— Então, quer dizer que o dono do Parthenon convidou mesmo o pai pra tomar um cafezinho na mesa dele. Aquele que o pai dizia que era tão rico que nem devia aparecer no meio de gente? E ele vai lá todo o dia, como o pai. Podia tomar o cafezinho na sua sala!
— Como o pai se sentiu, vestido assim, perto dum homem tão elegante.
— É, acho que vou tê que aceitá teus conselhos. Preciso comprá roupa nova.
— Então, vamos no shopping este sábado, —sugere a filha. —Faz tempo que quero levar o pai prum banho de loja.
Miguelito toma seu posto no caixa, atende uma cliente, procura por Ritinha, precisava falar. Contenta-se em falar sozinho. A filha está muito ocupada. Batendo com a caneta no balcão, olhar perdido na direção da rua — O dono do Parthenon, quem ia dizer,–repuxava a boca e sacudia a cabeça. — Quem ia dizê que um dia ele ia falá comigo.
Na lotação, o assunto continua — Sabe aquele bloquinho que te falei?— Olha pro lado, a filha dorme. Coitada, trabalho muito hoje.
Olha de novo, vou cutucá ela, vô fazê de conta que foi sem querê. A filha abre os olhos.
— Sabe, aquele bloquinho que eu falei, acho que não era pra eu vê, mas acho que ele faz o jogo do bicho.
— Ah, capaz, pai. Dono do Parthenon jogando no bicho? Conta outra, pai.
— Tô dizendo, filha. Cada um tem suas mania. Não vê eu? Só jogo nos dias par. Outra coisa, filha, ele disse que, desde que me viu, ele via em mim a imagem do avô.
— Avô dele? Tá bom, pai. Este trânsito tá uma coisa. Tenho muito que fazer em casa.
— Hoje me lembrei do vovô e vovó, Ritinha. Quando eles vinham na nossa casa, a mãe botava nós na fila pra dar a mão pra cumprimentá. Eu ficava olhando pra ver qual era a mão certa pra dá. Eu tinha um jeitinho, juntava as mão virada a pra cima e olhava a marca no pulso. Era aquela a mão certa. Eu tinha vergonha que alguém podia vê então eu disfarçava, não queria fazê fiasco. Pra não esquecê, às vez eu ficava com o braço direito na frente, mas mesmo assim um dia, na hora dei a mão errada. Que vergonha. O vovô mal pegava a mão e já largava, mas a vovó apertava bem fechado, ela tinha a mão quente, eu até gostava, mas saía correndo contente que aquilo já tinha acabado. Quando tava sentado com o grego eu também tava com medo de fazer tudo errado.

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Capítulo 4 Maurícia

Ritinha abre a porta.
— Afinal em casa. Ufa, que abafamento.
— Casa fechada o dia inteiro, né filha. Se a gente pudesse abrir as janela.
— Só escolher, morrer abafado, ou de picada de mosquito. Não dá pra colocar uma tela? Pelo menos na janela da cozinha. Com a ar que vem lá debaixo dá pra arejar um pouco.
— Vou pensá, filha. Vou pensá. alcaçuz
— Pensa ligeiro, senão o verão acaba e ainda sem tela. Falando nisto, precisamos nos organizar pro Carnaval. Alcaçuz de novo?
— A gente já tá acostumado com a casa, já conhece bem a praia. Dona Joaquina já deve tá esperando.
— A praia do centro não dá mais pra frequentar, com todo aquele esgoto a céu aberto. A gente podia conseguir uma casa fora do centro.
— Me dá uns dia pra pensá.
Na cozinha, o cheiro de carne assada e molho de tomate.
— Pai, arroz, massa ou batatinha? Pergunta Ritinha.
— O que tu quisé. Talvez arroz e batata, — responde ele do quarto.
Diante do espelho, Miguelito esquece de seus compromissos na cozinha. Vou ter que me arrumá melhó pra não passá vergonha perto do Seu Guiherme se a gente conversá de novo. Gente boa ele, senão nem olhava pra mim. Vou tentá falá melhor. Não, preciso começar agora. Vou tentar falar melhor — diz, caprichando nos erres e esses.
— Falando sozinho, seu Miguelito?
— Estou, filha. Praticando pra melhorar o jeito que eu falo. A gente vai se acostumando a falar errado.
— Isto, pai, vai treinando que daqui a pouco tá falando melhor.
O telefone toca. Miguelito fica à espera do “pai, é pra ti, “mas não é.
Ah, deve ser o namorado, mas não parece conversa de namorado. Penteia seus cabelos fartos e encaracolados ainda molhados do banho. Olha-se de perfil — o homem prateado.
— Qué um Tang, pai?
— Pode sê, deixa que eu faço.
Na cozinha, entre seus afazeres, o pai volta a falar no grego.


— Sabe, o seu Guilherme me falou duma doença que apareceu numa cidade da China, parece que é Huham, qualquer coisa assim. Agora já se espalhou pela Ásia e alguns outros lugares e tá se espalhando pro mundo.
— Ah, filha me lembra de falar melhor, me ajuda. Se a gente falar certinho, ia parecer esnobe em alguns lugares. Aí a gente acaba falando sempre como gente simples.
— Tá indo bem, pai. Uma vez ouvi que a pessoa que sabe adaptar o jeito de falar de acordo com as pessoas ou lugar, esta pessoa sabe usar a língua. Sabe, formal e informal.
— Mas, sobre a doença, a primeira vez que ouvi foi quando o Jorge e eu saímos pra festejar a virada na praia. Tinha gente falando disso. O homem até disse, ah, também aquela gente da China come tudo que é bicho. Parece que veio de morcego. A notícia saiu naquele mesmo dia, véspera do Ano Novo. No nosso Ano-Novo, não deles. O deles é depois. Parece lá por fevereiro, final deste mês, não sei.
— Se já chegou em tantos lugares, vai chegar aqui também. Tens visto teu irmão?
— Faz tempo que anda sumido, mas acho que ele veio pegar alguma coisa no quarto dele.
— Quem era no telefone?
— Tia Clara.
— Alguma novidade? Fazia tempo que não ligava.
— Ah, só queria saber notícias.
— Tô te achando cansada, filha. Trabalha muito, a loja, a casa. Vou ter que te ajudar mais. O Vinícius não ajuda muito, mas faz alguma coisa, quando está em casa, pelo menos cuida da loça.
— Como é, pai.
— Louça,
— O Vinícius ajuda? Lava a louça mas traz toda roupa suja pra casa, E quem lava? Eusinha aqui. Vamos jantar, a comida tá esfriando.
Ritinha olha pro pai, coitado já anda tão preocupado com o Vinícius, agora mais esta. Ele precisa saber, não queria ver ele sofrer ainda mais por causa do filho.
— Por que está tão pensativa, filha?
— Coisa minha.
—Te conheço, Ritinha, se abre com teu pai.
Ritinha aperta os lábios — Ai pai, tia Clara me perguntou se era verdade que o Vinícius tá indo pra Alemanha. Eu não queria te dar esta notícia.
— Como assim, Alemanha? Como?
Miguel larga os talheres e encara a filha. Olhos arregalados
— Diz que alguém falou pra ele que tem mais chance de trabalho lá. Fazem contratos por temporada. Difícil faltar emprego.
— Ah, então foi por isto que vendeu o carro? Me disse que não conseguia mais pagá as
prestação.
Ritinha não quis corrigir o pai naquele momento, ele apoia os cotovelos na mesa e segura o rosto, olhar fixo no prato, balança a cabeça.
— Tenho tentado conversá com ele, mas nada, não fala nada. Se eu pergunto ele fica brabo. Se ele tivesse metade da tua responsabilidade, um terço, que fosse.
— É, pai, cada filho é diferente
— Eu tento falá, ele mal me responde quando eu pergunto alguma coisa, às vez até fica brabo. Eu queria poder falá, dá conselho. Eu só quero o bem dele. Ele não vê isto. Quando ele me ouve, isto quando ele me ouve, fica lá de braço cruzado com um risinho debochado. Acho que nem me ouve. Só fala, tá pai, tá pai.
— Pai, eu não queria tirar tua esperança, mas já falei com ele. Ele disse que o pai quer o que o pai pensa que é bom, mas que a opção é dele e que ele quer levar a vida que ele escolheu. Ele quer ser livre. Eu penso como o pai. O que vai ser dele quando ele ficar mais velho. Nem sempre vai ter condições de enfrentar os desafios que ele tem hoje. E eu vou dizer uma coisa, ele gosta do que faz e se dedica, mas...
— Já disse tantas vez pra ele pegá um trabalho com cartera assinada. Não vai atrapalhá os show que ele faiz. Difícil ele tê show de dia.
— Eu concordo, pai, mas ele disse que com emprego fixo, não vai mais poder trabalhar, mas agora este negócio de ir pra Alemanha, tô muito preocupada. Bom, pai, bora falar direito.
Ritinha recolhe a louça, lava a louça, e Miguelito continua lá, cabeça baixa, mexendo a cabeça em negação, mudo.


Na casa de Guilherme, o filho está com as malas prontas. Mais uma viagem, outra competição.
— Filho, diz Isadora, — não deixe de ficar em contato. Tem certeza que estás levando tudo?
— Oh, mãe, sim. Por acaso, algum dia, já deixei de ligar pra vocês? E não, mãe, não está faltando nada. Quantas vezes já fiz minhas malas sozinho? — diz Antônio abraçando a mãe que o leva até o carro. Antes de partirem para o aeroporto, a mãe ainda acaricia os cabelos encaracolados do filho dizendo quanto o ama.
— Não esqueça do álcool gel e da máscara, filho.
No aeroporto, Guilherme se despede do filho quando este se reúne à equipe.


Sentados à mesa enquanto o jantar está sendo servido, Guilherme e Isadora tomam um Hardys e conversam sobre a preocupação com o filho.
— Se, pelo menos, não precisasse viajar tanto. Pior que eles jogam sem máscara, com tantos casos por lá.
— Também me preocupo, Isadora, mas se ele tivesse escolhido trabalhar na loja da família, ele tomaria o lugar do Tales. Só não viajo porque ele representa muito bem a loja, já fazia isto na Grécia quando era preciso. Você sabe que eu detesto aviões, o Antônio faria as viagens, se ele trabalhasse nos negócios da família.
— É, pelo menos ele gosta do que faz. Onde será que vai ser o próximo campeonato?
— Ainda não sabe, acho que vai depender do resultado da partida contra o Cleveland Indians. Espero que ele não precise jogar na Ásia com aquele vírus se alastrando. Pelo menos pra China os voos foram cancelados e Wuhan não recebe mais turistas. A cidade está em isolamento. O problema que já tem muitos casos nos estados unidos. Espero que ainda não tenha se alastrado em Cleveland. De qualquer forma, não tem como não ter contato com pessoas de todas as partes, tanto no avião quanto nos aeroportos.
Isadora aperta os lábios e concorda, pensativa.
— Com as vitórias obtidas, não vai parar tão cedo, Isadora. Está feliz com sua escolha. Falando nisso, hoje conversei com um frequentador da confeitaria. Ele é dono do armarinho ao lado do Parthenon. Uma lojinha pequena, num prédio antigo, mas fala com satisfação sobre sua lojinha. Ele também está feliz com sua escolha.
—Sempre se encontrando com esta gentinha, não tens amigos pra conversar?
— Isadora, já sei o que pensas a respeito. Eu canso das conversas dos ditos amigos, eu chamaria de colegas do clube. A maioria é esnobe. Desde que vi o Miguelito pela primeira vez, me lembrou vovô. Quando conversamos, percebi nele a mesma alegria que ele tinha com sua lojinha. Acho que por isso papai resolveu continuar com ela quando abrimos o Parthenon, como sabes, sabe, uma homenagem.
Isadora, mão na taça, olhando pro teto. Guilherme já conhecia este olhar da esposa quando não gostava da conversa.
— Não acabamos de falar sobre escolhas? O Antônio, meu irmão, papai, Miguelito, eu, inclusive, escolha de amigos, e nós, quando escolhemos nos casar, todos fazem suas escolhas. É um direito de cada um.
Isadora olha para o marido — Isto lá é nome, Miguelito.
— Já sei, Isadora, se tivesse um sócio do clube chamado Miguelito, não dirias isto, mas este Miguelito é um humilde dono de um armarinho.
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Jaguatiricas Capítulo 3
Sônia Coppini
Foi voltar do passeio e já tenho que topar com o bochincho em frente ao portão. Vai começar tudo de novo. Vou me esquivando dos urubus, e pego a entrada lateral do prédio. É gente que gosta de achacar um defunto. Subo o lance de escadas sem nem olhar para os lados, o Rex cheirando o chão. Para em frente à porta e senta. Lar doce lar. Uma primazia poder chegar em casa e me livrar da confusão.
Tomo uns goles de água, dou uns nacos de carne para o cachorro, sento no sofá. Tiro os tênis. Devo dizer que este é o pior momento de um passeio. O cheiro exala pela sala. Além dos grãos de areia que caminham como formigas entre os dedos. Coisa braba não ter uma grama para esfregar os pés. A solução é abrir as persianas e botar o calçado na janela.
Quando equilibro os tênis na amureta, olho ao longe e vejo o carro preto chegar. Então era isto que excitava os enxeridos? Agora, sim, vão se deleitar. E desce um, desce dois, desce meia dúzia de dentro do carro. E, logo atrás, um camionetão. Tudo fardado. Com mala, malinha, e até boneco do tamanho de uma alma. Ah, que a coisa ficou boa! Fazem cordão de isolamento, e passam pelos abelhudos, como desfile de rei. Ninguém se aproxima. Vejo o tampinha do térreo querendo se salientar. Leva uma dura do chefe, volta para trás. A dona Elvira, evidente, com seus gasguitos. Ouço ela daqui. É afastada pela mulher que carrega o boneco. E há gente que não acaba mais de chegar. Mas vejo... pois bem! Um manco. Deu vontade de rir. Tentando se aprochegar. Será que o Jaguara ressurgiu das cinzas?
Nunca esqueço aquela noite. Era tenebroso vento nas árvores. Bicudo não parava de rosnar. Estávamos na varanda da casa, eu fazendo meu palheiro. Mas o bicho não sossegava. Girava ao redor do meu banco, girava. Era companheiro pra tudo. Eu olhando para o capão, não via nada. Mas o cão insistia. Ah, botei as botas e fui no faro do bicho, para conferir. O tempo anunciava chuva, relâmpago para tudo que é lado. Trovão. E aquele refugo de erva que chegava a doer no corpo, quando atiçado pelas rajadas de ar. Não deu duzentos metros, Bicudo deitou feito estátua, a saliva escorrendo sobre o pelo. Parei, sentindo o capeta por perto. E foi então que ouvi:
– Tá danada, agora, sua miserável! Dá um passo e te mando pros quinto.
No meio da macega, enxerguei apenas os olhos reluzentes da jaguatirica. Era bicho lindo, o pelo rajado; verdadeiro arrojo de felino. E ela dava volta em torno do próprio corpo. Emitia um miado bravo. Botava as garras pra fora. E, de novo, a voz:
– Desta vez tu não escapa! O rebento já é meu.
Foi daí que enxerguei a cria. Um gatinho encolhido em meio ao corpo da bicha. Ela cercava o filhote como amurada. Olhava fixa, pronta para atacar.
Dei dois passos de nada, reconheci o dono da voz. O trambiqueiro bebedor da venda. E o velhaco com a espingarda aprumada.
Parti pra cima dele, como se fosse pai da criatura. Cheguei por trás, dei um tranco na soleira e na coronha da arma, com as duas mãos pra cima. O gatilho disparou, sem dar tempo para o biltre respirar. Não deu outra. A chumbada foi direto para o pé do desgraçado! Bicudo saiu na disparada, se arremessou sobre a mãe e o filhote. Assobiei. O cachorro obedeceu, parou de golpe. As bichanas fugiram como tufão.
Ainda pude ver, no escuro, as chagas do assassino. Esbravejei um palavrão. O traste levantou de um salto, saiu pulando numa perna só, como saci. Nem olhou pra trás. Ah, que tem gente que não merece ser filho de ninguém.
No outro dia, na venda, se fazendo, o morfético, a perna espichada no banco:
– A bicha era enorme! Me atraquei de mão; ela, de garra.
Mas cheguei bem na hora de tacar:
– Cai fora daqui, seu Jaguara!
E foi pra já. Nunca mais se ouviu falar do meliante no lugar.
E, agora, olho para fora e vejo o manco lá, fustigando os fardados. E ouço a deplorável dona Elvira gritar: bastão de beisebol! Ah, mas se descubro que tem mesmo bastão, caio de pau no desgraçado. Ninguém merece, de novo, ter algum vizinho Jaguara!
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Capítulo 4 Condolências Sônia Coppini
O convite para missa de sétimo dia foi enfiado por baixo da porta. Rex furungou assim que largaram o papel. Pegou com os dentes e trouxe para mim. Era um bilhete. Assinado pelo síndico. Não podemos nos furtar à dor que a família de nosso condômino está sentindo. O mínimo que cada um pode fazer é estar presente para a última homenagem. Seguia data, horário e local. Li o bilhete e amassei. Joguei a bolinha para o cão, ele correu atrás dela e me trouxe de volta. Resolvi guardar no bolso. Tinha tempo para decidir. A missa seria às seis.
No começo da tarde, abri o armário. Fui à cata do terno que nunca mais usei. Terno é para essas ocasiões. Se não é para casamento, é para nascimento ou morte. Afinal, eu tinha algum laço com o defunto, fosse ele bom ou mau pagador. Pelo menos três vezes, chegou até minha casa para ligar à companhia de luz. De alguma forma, sua voz estava presente em meu telefone.
Deixei a roupa arejando na janela da sala, único lugar com sol. Algumas marcas de mofo nela, mas nada que um pano umedecido no vinagre não pudesse resolver. Ensinamentos da finada mãe. As rodelas de umidade deixaram o terno com uma aparência de carnaval, mas até a hora da missa estaria com cara de enterro; pelo menos, era o esperado. Fui em busca de alguma tarja preta para colocar na manga da camisa, mas daí me dei conta de que o defunto não era meu.
Pouco antes das seis, saí pé ante pé de casa, porém os uivos de Rex me fizeram voltar. A solução foi botá-lo na coleira e levá-lo junto. Não havia tempo hábil para adestramento nesta questão fúnebre. No átrio da capela, fiz sinal para que ele deitasse no chão e, pelo sim, pelo não, finquei um toco na grama e amarrei a guia.
– Acompanhado, seu Adenor? – ouvi o capelão na entrada, me estendendo um santinho. – Bem-vindo seja!
– Amém! – respondi, e olhei a imagem impressa no papel. Nossa Senhora, igual àquela da infância, pendurada na cozinha. Devoção de minha santa mãe. Guardei no colete.
Passei por ele e me acomodei bem ao fundo, de modo a poder enxergar todos os presentes. A capela arredondada. O local me deu uma vertigem. Fechei os olhos e sacudi o pescoço. Quando levantei a cabeça, divisei na linha, em direção ao pequeno altar, o síndico, a Dona Elvira, evidente, e o tampinha do térreo. À esquerda, um sujeito com uns óculos de aviador, lente escura, parecia farejar cada um que chegava. Isto nunca me engana. O fuinha só podia ser detetive. Não tirava os olhos da primeira fila. Um escarcéu de gente. Tinha um sujeito de bermuda, outro de chinelo, um fulano de fone de ouvido, que já vi entrando na casa do finado, uma mulher com o dorso nu, outra com os cabelos coloridos como uma periquita, duas crianças. Nos bancos do meio, algumas beatas, com o rosário na mão. E bem à direita, uma senhora solitária, com amplos óculos escuros e um xale negro. Os outros presentes, compenetrados em acompanhar as primeiras palavras do capelão.
Feito o introito, foram as homenagens. Homem bom, trágico falecimento, alma sofredora, condolências. Neste momento, a mulher do xale secou as lágrimas. Depois, o relato do padecimento. Honestidade, provações, desemprego, filhos a criar. Desta vez, foram as duas mulheres da fila do escarcéu que gemeram em uníssono. Só não deu para saber se as duas eram as viúvas, ou se uma chorava para agradar à outra. Fiquei com a pulga atrás da orelha. Notei que o fuinha também balançou a cabeça. Depois, foi o de sempre. Ave, ave. Assim seja.
Quando a missa estava por terminar, aquele silêncio no ar, dona Elvira soluçando discretamente, amparada pelo síndico, eis que deparo com uma figura entrando na capela como raposa em galinheiro, arrastando o pé, fazendo um ruído sincopado, uma marcha fúnebre. Ah! Que meu peito estalou. Era o manco fazendo sua presença. Bem no último minuto das condolências, os abraços aos enlutados, os pêsames, coisa e tal. Me acerquei da porta e ouvi o Rex rosnando. Meu instinto é ali, ali, com o dele. Saí e soltei a guia do cachorro. Me escondi com ele atrás da gruta lateral. A grande oportunidade de saber quem era o tal jaguara.
A noite baixou e, pouco a pouco, o pessoal e as carpideiras foram deixando a capela. Atrás da pequena gruta, mantinha Rex calado por conta de uns afagos nas orelhas. Mas isto não duraria muito. É um cão rebelde, desacostumado à coleira. Finalmente vi o manco sair. Como chegou, se foi. Sozinho. Se embretou na praça, arrastando o pé na areia. Lembrei do santinho do colete. A contracapa tinha a foto de um beato. Este, nunca vi. Um tal de Joseph, sobrenome alemão. Me lembrou o velho da praça, só que com as barbas até o peito. Abri na parte central do folheto. Mãe Admirável, me ofereço a vós. Fiz o sinal da cruz, e me lancei no escuro, junto com Rex. Fosse quem fosse o traste, disparamos em seu encalço.

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Terezinha Lanzini

Capítulo 3 da narrativa

Entro no prédio. O elevador chega ao 5° andar e nem percebo. Logo que entro no apartamento, escancaro todas as janelas para sentir o vento frio destes últimos dias de outono. Os pensamentos parecem fachos de luz debruando nuvens que estreitam o céu. Ali permaneço absorvida e até esqueço aquele homem de porte atlético e seu sorriso, lá ao pé da escada.
Volto à realidade. (Vejo) À minha frente, a bancada com livros, cabide com casacos, relógio marcando dez horas. Sobre a mesa, uma camada de poeira. Começo a retirar o pó e depois, repito no aparador. Seguro com delicadeza o porta retrato no qual estão meus avós; passo a flanela com cuidado. Logo a seguir, o outro, no qual estão meus pais. Antes de terminar o trabalho, escuto um (pequeno) ruído. O pino que prendia a parte de trás se soltou e caiu no chão, deixando despencar uma folha de caderno dobrada. Nela estava escondido meu desabafo de menina.
Então, aquela imagem reaparece encoberta por um emaranhado de sombras impostas pelo silêncio. Cabelo solto, encaracolado que insistia em colocar atrás das orelhas. Confesso que, muitas vezes escolhi desviar meu caminho de volta para casa e me demorar em frente ao Stúdio Fotográfico. Na vitrine, fotos de meninas sorridentes nos seus 15 anos, noivas com seus buquês e grinaldas e, crianças no dia de sua primeira comunhão.
Uma noite, após o jantar, perguntei à minha mãe se poderia me dar de aniversário, um Book com minhas fotos. Seria meu presente de quinze anos. Secando as mãos no avental, prometeu que encontraria um jeito de completar as economias que tinha guardado.
Enquanto isso, comecei a me aproximar e permanecer mais tempo em frente àquele vidro. Só não gostava do semblante do dono da loja, seu Ramires. Em uma manhã cinzenta que ameaçava chuva, todos alunos foram dispensados mais cedo e eu estava ali, quando ele apareceu à porta e perguntou: - Gostas de fotos? Entra para conhecer meu trabalho. Entrei até o primeiro degrau e prometi que voltaria.
Sem mamãe saber, aceitei que fizesse meu retrato. Naquele dia, colhi flores que cresciam junto à cerca de minha casa. Usei uma blusa como ele havia sugerido. Sentei em uma cadeira branca com um lindo espaldar, abracei o ramalhete e, tímida, me escondi atrás. Olhei-me no espelho, ajeitei o decote. Foi quando ele se aproximou, bateu a primeira foto. Fiquei linda, emoldurada pelo verde radiante do meu olhar.
Sem demora, puxou a alça da blusa e tocou de leve em meu braço. Depois no seio. Bateu outra. Palavras não foram ditas. Ecoaram esfaceladas em minha dor. Meu imperceptível abandono foi em seus braços.
No espaldar da cadeira ficou meu sutiã cor de rosa.
Meu pai não estava em casa quando retornei e minha mãe ocupada com jantar. Com passos trêmulos consegui chegar ao banheiro. Eu estava imunda e tudo doía em mim.
Ela, sempre envolvida em seu mundo, que se resumia às tarefas de casa, não percebeu a ausência do presente de aniversário que havia prometido. Nem nunca me perguntou o desinteresse pelo meu tão sonhado book.
Pego a folha amarelecida, e num impulso, rasgo em pedacinhos. Jogo aqui de cima, meu segredo por tanto tempo escondido. Percebo que o ar entristece. É o início de um céu sem chuvas. São tantas palavras que gritam e assombram o breu desta manhã. Na verdade um desabafo que até hoje, ninguém conhece. Foi difícil para uma menina, esquecer a dor, a decepção, o cheiro e o medo. Foi difícil, muito difícil confiar em outra pessoa.
Quero esquecer o torvelinho deste pedaço da minha história e saudar meu ímpeto de viver.


Capítulo 4
Maria Clara
T. Lanzini

Contemplando os potes com violetas enfileirado na janela, Maria Clara pensa em como escrever sua história. Coloca a xícara com chá sobre a mesa, senta-se no sofá e tenta se concentrar. Suspira. Levanta e fecha a veneziana. Está anunciando chuva
Nessa madrugada, entre adormecida e desperta, lembra de tudo, com serenidade e clareza. Vivera toda sua vida às margens da indiferença.
Em uma certa manhã, quando escutava o vento assobiar por entre os galhos das árvores, assistiu o voo tranquilo de uma garça ao longe e, isso soou como um presságio da tão esperada confirmação de uma dúvida que a atormentava desde criança. Estufa o peito, se enche de coragem e vai até a varanda onde seu pai costuma na rede adormecer. Quando seu Horácio abre os olhos, vai logo perguntando se tem um laço de sangue com ele. Se também era sua filha. Ele continua deitado com as mãos sob a cabeça, com um riso debochado estampado em seu rosto e olhando-a sem nenhum vestígio de ternura, exigiu que se retirasse. Aquela reação implacável, atingira em cheio o desejo antigo e solitário; afinal, não era nem mesmo uma filha adotada. Era consequência de uma vivência amorosa qualquer. Um amor proibido como se lê nas revistas e jornais. A filha ilegítima. Contudo, lhe deram oportunidade de estudar. Não no colégio das freiras como suas irmãs. Em uma escola pública, fez o segundo grau com habilitação para o magistério. Quando foi aprovada no vestibular para licenciatura em matemática, ganhou de presente um pequeno apartamento e uma poupança suficiente para manter-se.
Os trabalhos, as provas nestas disciplinas não eram fáceis. Um terço dos alunos desistiram já na metade do curso. No sexto semestre, o professor orientador sugeriu a monografia e indicou o nome de um ex-aluno. Esta indicação mexeu com sua altivez. Era um homem conhecido e familiar. Mesmo assim, foi conversar com ele sobre ser esta uma indicação do orientador.
Começaram a reunir-se em sua casa, aos sábados à tardinha O clima era tenso. Não tinham afinidade. Os primeiros encontros foram cerimoniosos e forçados. O fato de estarem juntos, os irritava. Com o tempo começaram a perceber afinidades. Uma cálida amizade se instalou entre os dois e pequenos gestos que haviam passado despercebidos – um toque no braço, um encontro casual de mãos, um roçar de pele, fizeram com que percebessem o quanto estavam presos num labirinto de amor, antes mesmo de terem terminado o trabalho de dissertação, embora estivesse no fim.
Alex, entre tantos compromissos, tinha pouco tempo para Maria Clara. Ela saia às pressas da escola, para fazer o almoço. Gostava quando ele chegava e logo a enlaçava pela cintura, segurando-a com firmeza contra o balcão. Era ali que ela fingia resistir. Gostava de vê-lo, assim, fora de controle. Logo abria sua blusa e a cena era cheia de sensualidade. E esta sensualidade se espalhava por todos os cômodos, à espera de insensatas confissões.
Depois, tomavam banho juntos, beijavam-se sob a água, os dedos dele a acariciavam, ela sorria: ambos sabiam que o tempo havia chegado ao fim. Desde então, viveram tudo o que podiam equilibrados em um fio de cheiros, toques e devaneios.
O pouco tempo juntos não significava indiferença. E nem viverem esta história significa desagravo. Alex foi o marido de sua irmã Beatriz.
Hoje, ela ligou para Alex, contando que escutou o telefone tocar com insistência na peça contígua ao prédio, onde havia acontecido algo estranho; um grito seguido de um gemido. E depois um baque – seco – semelhante a um soco. Quando olhou pelo vidro da lateral, percebeu o corpo estendido. Então, lembrou: - Alex, não seria do fotógrafo carioca, desaparecido desde ontem?




























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