Textos

Arquivo Narrativa III

Jacira Fagundes
02/11/2020


Clotilde Grassi
Capítulo 5

Clotilde - Cap. 5

Meditação e Escrita

A falta de afeto é um veneno na carne. Nunca para de produzir efeitos. Em que pese as pessoas queridas, generosas, amáveis de tantas horas e dias, uma pontinha de amargura aparece tão logo a pessoa detecta um fiozinho, que seja, de uma rejeição ou ser relegado por coisa pouca.

Este viés, escondido em nosso íntimo, não tem lugar definido e vai revelando uma fragilidade fina, vivaz e de fogo acesso em meio aos escombros. O mal estar consigo leva a muitas indagações. Joseph resolveu falar com colegas espiritualizados. Suas questões sobre o mundo, a vida, os sentimentos, as emoções não receberam as respostas esperadas. Quem não viveu, não sabe. Resolveu ir ter com seus superiores, doutores, teólogos, sociólogos, filósofos. Tão pouco encontra as respostas para seu desasossego.

No silêncio interno, dentro de cada um, concluiu que estão todas as respostas. Haja introspecção para tanta revelação. E quando nada responde, nenhuma voz, intuição, visão dos anjos, nada, nada... A angústia crescendo, os outros não sabem apaziguar e a busca prossegue.

Acreditou que o abandono de si, a doação do seu sagrado ser aos mais necessitados romperiam as camadas de rochas internas carregadas de dor e de alento, como libertação. Um salto de qualidade, o amor brotando gratuito aconteceu e surge a luz: não viemos para nós mesmos.
Joseph passou a escrever sobre temas que ninguém queria enfrentar. Seus livros ganharam o mundo, as escolas, os cursos. Tanta gente queria entender melhor relações humanas nas mais variadas e curiosas formas e não encontrava material bem escrito, bem pensado, embasado na antropologia humana. Em Joseph tudo era pensado com profundidade. A observação do que é humano não lhe assustou, levou-o à compreensão. E à escrita.
A mente humana criativa vai deixar um legado inestimável com seus escritos gravados em papel para acesso de tantos. Os livros foram até aqui o veículo da formação dos grandes tratados e teses. Não é crível que os livros serão substituídos pela telinha. Isso já vem sendo dito há muito tempo. Se ainda não ocorreu, importa ter em mãos estes papéis grafados para serem lidos em lugares remotos, nos travesseiros de noites insones, no meio do mato, no espaço voando.
Atento aos escritores, famosos ou não, quanta reescrita, catando a palavra certa, a mais adequada, a mais significativa, a mais expressiva. Muitas releituras, correções, buscando dizer mais perfeito. O livro é o sonho da busca por mais. Quem lê é mais, pois já foi mais. Maior é quem escreveu, criou, expressou.
Esquecido da asma sufocante, da contabilidade de quantos negaram afeto lá nas fraldas, alheio aos elogios, segue deixando sua marca de vitória expressa. Sabe muito, sofreu muito, ensinou demais. Deixa para a posteridade seu legado de paz, de bom entendimento das causas humanas, tão incompreendidas, quanto sombrias. Há esperança, há luz nas palavras que beijam as páginas e os corações dos que lêem.

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Magaly Fernandes – cap. 5

Beatriz ficou muito assustada com Umut. Imagina ele vir para Torres, mal se conheciam. Quando ele contou do assassinato pela primeira vez, estava ainda sob choque da noite anterior. Agora, saber que ele era um possível assassino lhe deixou apavorada. De onde era mesmo Umut? Como ele podia saber do corpo estendido no chão? Voltou para o wastsapp.
— Umut, onde tu moras mesmo? Olha, não tem como vires para Torres, onde tu ficarias? Nós mal nos conhecemos. Tens que resolver teus problemas por aí.
Não quis contar (para ele) que (aqui?) também tinha encontrado um corpo. Chorou, não conseguia parar.
Minutos se passaram e nada de resposta. Pensou melhor; apagou sua conversa com Umut. E se ele não fosse aquele homem maravilhoso que se apresentou. Adorou seus cabelos ruivos, seu sorriso meigo. Era muito calmo para falar. De fato, não conseguia imaginá-lo matando uma pessoa. A polícia suspeitar dele, aí tem coisa! Não não, sai desse casamento complicado e agora, tenho que escolher bem com quem me relacionar.
— São Luis do Maranhão
Beatriz pensou não vou responder nada.
— José era o nome dele. Era traficante.
Não posso acreditar que estou me correspondendo com esse tipo de gente. Foi lá nos contatos e bloqueou Umut. Já era tarde.
O telefone tocou, tocou novamente. Não vou atender. Não conheço esse número.
Resolveu desligar o telefone e foi caminhar na praia. Sentou bem nos Moles e ficou observando as ondas, poucos surfistas, na areia um que outro caminhando. Retornou bem lenta, o sol já se punha. Passaram-se os dias e distraída atendeu o telefone.
— Sra. Beatriz? Aqui é da polícia de São Luís do Maranhão.
Ela gelou na hora.

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Episódio 6

Umut foi colocado numa cela com mais de vinte homens. Ficou apavorado. E agora meu Deus, não o deixaram telefonar para ninguém. Como a mãe saberia que estava preso? O trabalho perderia com certeza. O chefe só de saber que estava preso, não importava que fosse inocente.
Logo alguém veio buscá-lo. Jogou-se sentado numa sala sozinho. Entrou outro policial fortão.
— Umut, desde quando conhecias o José?
— Eu mal o conhecia seu. O conheci ali na pensão. Jogávamos canastra e tomávamos uma ceva toda terça. Um dia na janta ele me chamou para um jogo e ai continuamos assim.
— Desembucha logo Umut? Encontramos tuas digitais no taco que acertaste a vítima.
— Taco, minhas digitais. Como é possível. Eu nem sai do meu quarto. Eu vi o Jose na noite anterior, já falei para o outro policial, ele ia receber....calou-se....uma mulher gostosa, e claro que não ia jogar comigo. Taco.... Sim lembro que ele tinha um taco....já o segurei....um dia contei para ele que na minha cidade eu era campeão no jogo de taco.
—Chega de conversa mole. Porque bateste nele cara?? Fala logo. O pessoal da pensão disse que tu não falavas com ninguém, vivia de cara amarrada, um cara bem mal humorado. Alguns até medo de ti tinham.
—Eu....eu.... carquejou ...não falava com ninguém.....ninguém nunca me deu um bom dia seu....Eu sou de poucas palavras. Trabalho o dia todo, chego cansado. E cara amarrada....ninguém paga as minhas contas....vim para essa cidade achando que seria fácil mudar de vida.....e olha ai...to trabalhando no shopping há mais de sete meses.....e nada melhor se apresenta.
— Então resolveste traficar????
— Tá louco seu.......eu.....eu ...traficar....só de falar tenho medo. Eu nem sabia que José lidava com isso. Fiquei sabendo pelo jornal. Pensou, que bem que um dia o José lhe disse: — deixa essa vida de merda e vem trabalhar comigo cara. Vais ficar de capacho limpando o chão dessa granfinagem.??? Mas calou-se isso só iria complicar sua vida. Preciso avisar para minha mãe que estou preso. Meu chefe também. Quando tempo vou ficar por aqui???
— Vais ficar até descobrirmos a razão para teres matado o cara.
— Não fui eu, por favor policial, não fui eu. E iniciou a chorar. Ouvia o pai dizendo...homem não chora Umut. Não teve como, estava apavorado. Não tinha advogado. O que ia ser dele agora.
— Podes dar um único telefonema.
— Oi mãe, não fica nervosa como que vou te dizer e me ajuda. Estou preso, sim eles estão dizendo que fui eu que matei o cara do quarto ao lado, não fui eu, mãe. Tu precisas arrumar um advogado. Nem conseguiu ouvir o que a mãe dizia o policial desligou o fone.
— Feito cara, pensa que isso aqui é o que para ficar de papo.
Umut na cela, pensou na mãe, não conseguiu ouvir o que ela tinha para ele dizer. Como ela descobria onde estava, qual a Delegacia. E pensou em Beatriz, não deveria ter dito nada para ela. O que iria pensar, que ele era um assassino. Ela andava tão tensa ultimamente. Só pensou em si. E se o Delegado lesse o seu papo, ia pensar que ele estava querendo fugir. Estava por demais encrencado. Estava gostando de Beatriz. Adorava ouvir aquela voz sedutora antes de dormir. Tinha sonhado com os dois caminhando pelas praias de sua cidade. Apresentando –a para sua mãe. E agora isso.
— Vai mais para lá meu. Quero sentar aqui. A cela mal tinha espaço para ficarem sentados. Um banheiro só, não tinha vaso, só um buraco no chão, não tinha porta, tinha que fazer tudo ali na frente dos outros. A dor de barriga que tinha era de nervoso. Chegava a tremer de medo de nunca mais sair dali.
—Não ouviu??/ está surdo....E o cara o foi empurrando.
— Desculpe , estou aqui pensando na vida.
—hummm pesando na vida....que vida....isso aqui é vida.

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Maurícia - CAPÍTULO V


— As máscara, álcool gel, marmita. Tudo pronto. Ah, mais as máscara pra trocar. Quando tá úmida tem que trocar.
— Vamos pai. A gente precisa pensar que talvez a gente não vai conseguir pegar o primeiro ônibus que passa, com a lotação limitada.
—Com a suspensão das aula, não vai ter tanto passageiro, diz Miguelito. No coletivo, poucos usam máscara, além de Miguelito e Ritinha. Parecem olhar com desconfiança para aqueles que a usam. Ritinha percebe olhares de desdém. Que exagerados, parecem dizer. Alguns conversam, só precisa usar máscara aquele que está com sintoma, outro é de opinião de que todos devem usar, se impede que as gotículas se espalhem, também é mais seguro para se proteger. —Lá em casa todo mundo já aprendeu a se cuidar. Meu neto veio me mostrar como se lava as mão diz a avó, orgulhosa. Mas a preocupação de Miguelito é outra. O aluguel, os fornecedores. Com os idosos considerados grupo de risco, a clientela diminuiu muito.

Desde o dia em que Guilherme convidou Miguelito para sentar com ele, a mesa do canto vagou para os outros clientes. Do centro, Miguel não tinha mais a vista privilegiada do seu armarinho, da rua e dos frequentadores da confeitaria, mas tinha a companhia de Guilherme, uma conversa agradável e gostava de escutear..
— Como está teu filho na Alemanha? — pergunta Guilherme.
— Parece que está bem. A Ritinha consegue notícia através das redes social Ele se comunica com os amigo, mas o pai e a irmã não existem pra ele.
— Mas está bem, espero.
— Nas foto que ele coloca, parece sempre feliz mas, todo mundo parece feliz no feice, e não sei onde mais. Eu me preocupo também com a pandemia. Será que está se cuidando?
— Também estou preocupado. Meu filho está na Venezuela. Vão jogar contra o Caracas Fútbol Club. Minha mulher não dorme de preocupação, tenta convencer o filho a ficar em isolamento. Fala com o dirigente do clube, mas ainda vão decidir se param ou não. Dizem que dependem da Confederação. Nos estados Unidos já paralisaram na semana passada, mas lá já existem muitos casos. Creio que depois deste jogo, os demais serão cancelados. Mas, como está a clientela?
—O pessoal está com medo de sair. Só se fala mais deste vírus, como lavar as mão, usar máscara, os sintoma.Todo mundo anda assustado. Depois, não se acha máscara e álcool gel pra comprar. Minha vizinha fez pra nós. Ela é costureira e eles estão ensinando como fazer, até na televisão. E tinha álcool 90º em casa. A gente usa aquele mesmo. As cliente do grupo de risco não saem mais. Do jeito que está o movimento, vai ser difícil até de pagar os fornecedor e o aluguel.
— Acho que muitos vão ficar nesta situação. O pior está por vir, estão falando em fechar o comércio.
Miguelito, com a xícara junto à boca, morde o lábio, — será que vamos chegar a isto?
— Se isto acontecer, vamos ter que cumprir o isolamento. Melhor a vida que a riqueza. Mas a gente vai se falando. Se ficar difícil, fala comigo. A gente vê uma saída.E por falar nisto, andei pensando, não é aconselhável vocês virem pro trabalho em transporte público.—Diz Guilherme. Te dou um cartão. Do bolso interno do paletó retira um e começa a escrever.— Qual a placa do teu carro?
— LKM 2535.
— Então aqui está: Autorizo a entrada franca do veículo de placa LKM2535.Entrega a autorização para Miguelito. — Não aceito recusa, amigo. Nesta época o que não falta é vaga. A entrada fica em frente ao Everest Porto Alegria.
— Eu aceito sim, muito obrigado. Mas você falou em riqueza. Não faço ideia do que é isto. Pra mim, riqueza é ter suficiente para pagar as despesa da loja, pros gastos do dia a dia e nossas féria no Ano Novo e Carnaval. E é minha loja que me dá isto. Pelo menos até agora. É o retorno do trabalho que faço com muita dedicação e alegria.
De volta ao Parthenon, Guilherme barra o funcionário que entra sem seguir o protocolo de higienização. De braços firmemente cruzados, olhos arregalados. — Você está sendo irresponsável. O rapaz olha de frente para o patrão, mãos na cabeça.
— Estás surpreso? Nem percebeste. Qual é o protocolo na chegada?
O funcionário fecha o punho e bate na testa, vira-se.
— Um momento. Se há uma coisa que não aceito é irresponsabilidade. Queres trazer o vírus pra loja? Teus colegas, os clientes. — disse, com as mãos na cintura. — Agora vá e faça o que tiver que ser feito.
Os funcionários olharam-se surpresos. Os mais novos nunca tinham visto qualquer rispidez por parte do patrão. Junto do elevador, senhor Guilherme virou-se, — Não tolera irresponsabilidade. Inclinou levemente a cabeça numa saudação aos funcionários que o observavam.
Na tarde do dia seguinte, todos os setores da loja receberam cartazes com a seguinte frase:
“Responsabilizar-se é um ato de humildade.” Luiz Todeschi

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CAPÍTULO VI Maurícia

Um decreto municipal determina o fechamento das lojas. Apenas aquelas que oferecem produtos essenciais têm autorização de funcionar, mas recebem protocolo de isolamento social, como limitação de clientes em farmácias, o uso obrigatório de máscaras pelos atendentes e álcool gel à disposição dos clientes.
O Parthenon está com as portas fechadas, não oferece produtos essenciais em seu estabelecimento. Guilherme e sua equipe administrativa continuam o trabalho. Nada pode parar, nenhuma encomenda é cancelada. Enquanto alguns comerciantes já admitem a probabilidade de demitir funcionários, no Parthenon, com a esperança de logo tudo normalizar, não se cogita de tal possibilidade.
Miguelito também não deixa de ir à loja, mas não permite que a filha vá. Com a confeitaria fechada, Guilherme o convida para um frappé no Piano Bar do Parthenon.
— Lembra que previ o fechamento das lojas? Em outros países, esta medida já tinha tomada. — diz Guilherme ao sentarem-se à mesa com vista para a cidade e o Guaíba. As ruas vazias, prédios comerciais com janelas fechadas, as águas do Guaíba no seu curso normal — quem diria que estaríamos passando por isto. A primeira pandemia registrada aconteceu em Atenas, antes de Cristo. O país perdeu um quarto da população, inclusive, o grande líder militar Péricles. Já a gripe de 1918, a gripe espanhola, levou um quarto da população mundial e durou 2 anos. Naquela época a movimentação das tropas durante a Primeira Guerra Mundial espalhou a doença pelo mundo. Creio que, dificilmente um vírus de fácil propagação deixará de atingir o mundo todo, como é o caso do Covid-19. Com a facilidade que nos deslocamos, o mundo todo vai ser penalizado. Acho que esta pandemia veio como um aviso para o comportamento da humanidade. Há muito vem acontecendo coisas abomináveis.
— É, quem ia dizer. A gente sempre pensa que só acontece com os outro. A Ritinha fala que é muita gente viajando pelo mundo, daqui pra lá e de lá pra cá. E dá nisto. O que me deixa agoniado é não saber até quando isto vai e se a gente vai estar vivo quando tudo isto passar. Eu espero que passe logo, não posso ficar muitos dia fechado.
— No momento julgo ser o motivo de ansiedade da maioria dos comerciantes, e de todas as pessoas.
— A Ritinha diz que não vai passar de um mês. Vamos ver.
— Mas nem tudo são raios numa tempestade. Hoje recebemos uma notícia que nos alegrou muito. Os jogos de beisebol vão ser suspensos, a partir de agora. A Isadora não dormia mais de preocupação com o Antônio no meio desta pandemia. Quer o filho em casa — diz Guilherme, sorriso largo.
— Que boas notícias. Já eu não tenho quase notícia do meu. Os amigo não têm visto muito ele no feice. Ritinha ficou sabendo dele pela última vez semana passada. Espero que a pandemia não tem nada a ver com isto. Eu sempre me pergunto o que eu fiz de errado pro filho não querer saber da família. Quando a mãe ainda estava viva, ela cuidava mais dele. Eu achei que estava fazendo o papel de um bom pai, a Ritinha saiu uma boa moça. Depois, se ele estivesse com a gente, quem sabe podia ajudar com a loja. Ter novas ideia.
— Você sabe que só tenho um filho então não posso comparar, mas ninguém é igual. Quem sabe esta ida pra Alemanha não vai fazer ele amadurecer.
— Deus te ouça, Gui, Deus te ouça.
— Mas, meu amigo, tenho lido que muitos comerciantes estão vendo novas formas de enfrentar a situação, outras maneiras de sobreviver até isto acabar. Eu acredito que é o momento das pessoas juntar forças para que surjam boas ideias. Desempregados já estão abrindo seus próprios negócios trabalhando em casa, fazendo comida e vendendo na rua, pros vizinhos. Acho que daqui para frente vai haver muito mais vendas online. As pessoas com espírito empreendedor, vão mudar a forma de trabalhar, ou até mudar de ramo. Estão dando um jeito enquanto este flagelo não terminar. São os Deuses mostrando seu poder sobre os humanos, como nas pragas do Egito. Mas vamos sobreviver.
— Eu só sei fazer uma coisa. Até hoje só trabalhei no armarinho, desde meu primeiro emprego.
— Tenho certeza que tens capacidade de fazer diferente. A venda pela internet poderia ser uma saída. Sei que a Armarinhos São José significa muito pra ti. Poderias continuar com ele, mas em um lugar menor, aluguel menor, até em casa se tiver espaço para a mercadoria. Não terias o aluguel, e como pequeno empresário, os impostos seriam também menores. Nós nos adiantamos e fizemos uma reunião com um expert no assunto. Pensamos até em adotar este sistema de vendas, independente da pandemia. Além da loja física, uma loja virtual.
— Não sei, não.
— Seria uma saída, amigo. Posso te mandar o rapaz. Ele faria uma reunião e explicaria direitinho, sem compromisso.
— Não sei. Não acredito nestas coisa.
— Fala com tua filha.
—Estes tais de expert custam caro.
— Se você não se ofender, seria um presente meu.
— Ah, não. Presente?
— Então, se você quiser, vou ver se ele não faz uma demonstração pra vocês, sem cobrar. Afinal, vai estar vendendo o trabalho dele. No mínimo vai chamar atenção pra a São José. O noivo da tua filha não se interessaria? Os jovens aprendem com facilidade estas coisas. Eles não vão se casar em breve? Trabalhariam juntos.
— Obrigado, Guilherme. Vou falar com a Ritinha, mas, não sei não. Sou desconfiado com estas modernidade.
— Em todo o caso, já tens meu cartão, se mudar de ideia...
— Vou conversar com a Ritinha. Ela acha o aluguel muito caro. Mas eu sempre falo pra ela que eu não ia conseguir mudar daqui.
—Reflete sobre o assunto. Prometo te dar todo o apoio até vocês se estabelecerem. Quando as coisas voltarem à normalidade, podes continuar com as vendas online e a loja. Eu não perderia meu vizinho.
Guilherme leva Miguelito até a porta de saída. — Pensa, mesmo com a loja, podes vender pela internet. Com este isolamento social, acho que as pessoas vão se acostumar a comprar online
— Vou pensar. — disse Miguelito. A passos lentos caminha até o chafariz e senta na mureta, pensativo. Os olhos começam a brilhar, mas os lábios não confirmam o sorriso Não pagar aluguel! Mas ficar sem a loja?


Isadora termina a inspeção dos novos produtos, na seção de moda feminina e vai ter com Guilherme em seu escritório.
— O Antônio entrou em contato contigo? Liguei três vezes, mas não atendeu.
Guilherme larga a caneta, olhos fixos na esposa, empurra o relatório para o lado.
—Também tentei ligar.
— Quem sabe ligas pro treinador. — Sugere Tales, o diretor.
— Pensei nisto, tens o número dele, Isadora?
— De costas para o marido, ela olha pela janela, para a cidade a sua frente. Está absorta.
— Isadora, não tenho o telefone do treinador.
— Você não é o organizado? Devias ter anotado.— responde sem virar-se.
— Isadora tem razão. E aquele caderno de anotações? — pergunta Tales, já remexendo a gaveta de Guilherme. — Aqui está, mas tenho certeza que é só um desencontro. De qualquer forma, vamos ligar pra ele. — Tales digita o número e entrega o telefone para Guilherme.
— Alô, Marco Aurélio? Aqui é Gui, pai do Antônio. Temos ligado para ele, mas não atende e nem liga.
— Almoçamos, e ele foi ao hotel do teu amigo. Vamos nos ver amanhã às nove no aeroporto.
— Obrigado, vou ligar para o hotel do Alejandro. Mas ele estava bem?
— Tudo bem com ele, não se preocupe. Vai ver adormeceu. Estava muito cansado.
— Espero que sim. Qualquer coisa, entrarei em contato.
— Mandei vir um frappé.– diz Tales.
Isadora afasta-se da janela, —Kalá.— diz, aguardando ser servida. (*boa)
— Efcharistó, bem lembrado, — diz Guilherme. ( *Obrigado)
A moça do café entra com a bandeja. Coloca-a sobre o aparador bar. Toma o shaker, e sacode.
— O que vai hoje? Pergunta Tales.
— Um skêto— responde Isadora.
— Skêto.
— Sempre cuidando da forma, vocês dois. Dois skêtos, então, Guilherme?
— Dois puros e um médio, por favor — diz Tales olhando para a moça do café
A moça derrama a bebida nas taças, acrescenta gelo e distribui os frappés com o copinho de água. Guilherme toma seu de pé.
Vou chamar o motorista. É melhor vocês irem para casa
Guilherme anda de um lado a outro no escritório. Pame, pame— diz apressando a esposa.
— Tá léme, — diz Guilherme ao abrir a porta para Isadora. (Até logo.)
— Tá léme, — Qualquer coisa, vou até lá. Mas tenho certeza que é só um desencontro, — repetiu Tales quando o casal já estava junto do elevador.



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Capítulo 5
Parthenon
Sônia Coppini
Não foi fácil pregar o olho de noite, aquele muquetrefe deu um vareio em mim e no Rex.
Ficamos na cola dele todo o trajeto da praça, nos esgueirando atrás das árvores, a cada vez que ele parava para falar no celular. O Rex me puxava querendo brincar na grama, ir na direção da fonte, parecia perder o faro do escuso. Tive que dar uns corretivos no cão, até ele retomar o seu trabalho, ficar de guarda e alerta e só se mover quando eu desse o sinal. O manco se arrastou até o primeiro ponto de lotação, e lá estacionou como um poste. Não demorou a passar uma condução. Ele entrou.
Corri como louco e ataquei o primeiro táxi que cruzou minha vista. O motorista travou, mas fez negativo, quando viu o Rex comigo. Chamei ele de animal! Ele arrancou. Porém, já tinha parado outro atrás, por conta do primeiro. Expliquei que era situação de vida e morte. Peguei o Rex no colo e mandei seguir o lotação:
– Morte de quem? – indagou o motorista.
– De outro inocente!
– Não quer que eu chame a polícia?
– Este caso é meu.
O motorista assentiu e tocou o pé no fundo. Falou que a corrida teria um valor extra.
– Até dois – concordei. – Desde que não perca a rédea.
O manco desceu no final da linha. Desci do táxi com o Rex, paguei uma nota gorda para o motorista. Quando ele fez menção em falar qualquer coisa, Rex mostrou seus caninos e deixou bem claro quem mandava na situação. O carro arrancou chispando, o manco olhou para trás, eu assobiei e virei de lado, o cão abanou o rabo e fingi entregar um petisco a ele.
O prédio que o manco entrou era uma coisa colossal. Parecia um mausoléu. Várias colunas até o céu, segurando um triângulo igual a pai-filho-espírito-santo. Só faltava o olho. Era tudo branco, como a entrada do além. Uma placa com o dizer: Parthenon. Me acheguei na entrada. E vi que não ia ser fácil! Sabe lá que tipo de coisa acontecia dentro.
Dei três passos à frente, e uma porta de vidro se abriu do nada! Foi um salto pra trás. Rex latiu de susto. Daí se aproximou um guardião de pistola, rádio de antena na boca, farda marrom, e a ordem fatídica:
– Cão não entra!
Me ataquei. Fui de sola na porta!
Um barulho estridente tomou conta do lugar e da rua. Uma coisa de louco. Era gente gritando, o guardião correndo, era o diabo a quatro. Puxei a guia do Rex e me escafedi pela rua abaixo. Eta que o capeta do jaguara estava de novo na linha!
Voltamos a pé para casa como dois fugitivos. Esfalfados de tanto caminhar. Rex desmaiou. Eu me joguei no sofá e só acordei com os sabiás fazendo sua cantoria na madrugada. Os olhos estalados. A vontade de voltar no lugar e botar tudo a pratos limpos.
Ah!, que aquele safado me espere. O dia recém raiou!
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Capítulo 6 − Cabelo e barba
Sônia Coppini

Adenor levantou com a sensação de que a vida lhe dava uma nova chance. O calor recém anunciado da primavera, o canto do bem-te-vi, o cheiro dos ciprestes e o azedume do vinagre, que impregnara sua roupa e pele, o transportaram direto para o chuveiro. Água cálida e muito sabão. Depois, uma ducha fria. Uma camisa esporte branca, tênis branco e uma calça jeans lhe pareceram bem. Deixar um osso quase do tamanho de um fêmur bovino para o Rex, ainda dormindo, e a trouxa, com a roupa usada no dia anterior, foram os cuidados tomados, antes de sair.
Começou por levar o terno na lavanderia, com as recomendações ouvidas, em algum momento, da mãe:
− Lavar em água, e depois, tingir a quente. Algodão é para toda vida. Como a honradez.
A atendente assentiu, olhou de lado para ele, fez menção de dizer alguma coisa, mas simplesmente agradeceu a preferência, enquanto lhe alcançava o troco.
A segunda parada foi na barbearia:
− O que vai, hoje?
− Serviço completo.
− Como vão as coisas?
− Como cabelo e barba, ora crescendo, ora minguando. Pode passar a máquina.
− E o que me conta do acontecido?
− Melhor nem falar. Sabe que quanto mais se mexe, mais fede.
− Dizem que foi por causa de dívidas.
− E quem já não passou por aperto na vida?
− É mesmo.
− De mais a mais, o que é pior: quem não pagou ou quem foi cobrar?
− Vai saber.
− Pois então. Sempre há tempo pra ruminar.
Da barbearia, foi direto para o Parthenon, fosse o que fosse o mausoléu, no qual perdeu de vista o manco. Camuflado como um lagarto, calças, tênis, cabelo e barba recém raspados, chegou à frente do prédio, de um material impecavelmente branco, como ele se via. Impossível o guardião reconhecer a figura de terno e cabelos escuros da noite anterior. A porta se abriu do nada, de novo. E, conforme sua convicção, o segurança nem reparou nele. Sabe lá que tipo de guardião contratam. Passou pela entrada como um cidadão qualquer.
As vitrines que vislumbrou em nada lhe pareceram com o mundo do além. Eram infinitas lojas, com escadas de acesso até um quinto céu. Com a falta de Rex, para lhe dar o tino, resolveu ir direto ao último andar. Magníficas exposições de roupas e produtos, capazes de deixar o público salivando. Nos quiosques do terraço, dezenas de clientes degustando vinhos finos, frutos do mar, acepipes. Mulheres desfilando com roupas da alta-costura. Cavalheiros com músculos e carteiras para bancar qualquer arroubo. Adenor teve certeza de que achara o lugar. Lembrou de dona Elvira, e da sua cara de êxtase, se conhecesse o local. Só grã-finos. Agora era dissipar as dúvidas e acertar o alvo. A loja de esportes o chamou como uma isca. Para lá se dirigiu.
O atendente se aproximou de Adenor ainda na porta. A circulação do ar condicionado mesclou a fragrância da loja com a colônia pós-barba. Sentiu os cheiros entrando, um por cada narina, e se misturando aos pensamentos. Quanto mais mexe, mais perfumoso e enodado fica.
− Procura por algo em especial?
− Sim, claro. Um sujeito.
− Como? − O atendente o tirou de seu devaneio.
− Um sujeito viajou há pouco para fora e me indicou esta loja.
− E o que o senhor gostaria?
−Tacos. Tacos de... golfe.
− Veio ao lugar certo. Temos todos os tipos, das melhores marcas.
− Ah, que alívio!
Seguiu o atendente com os ouvidos, mas o olhar perscrutando a loja inteira. Tacos drive, madeira, híbridos, ferro, putter, dependendo do seu interesse. Muitos clientes conhecem o esporte no exterior e vêm a nossa loja para... Quando o atendente exibiu o último modelo importado, com todas as virtudes declaradas pelo fabricante, Adenor enxergou do outro lado da loja uma espécie de altar, um gigantesco painel luminoso e alguns troféus expostos, como ex-votos. O coração acelerou. Sua atenção se voltou para lá.
− Beisebol − falou em voz alta.
O atendente olhou na direção mencionada e iluminou por completo a descoberta de Adenor: Aquele é um recanto especial, por conta do proprietário do shopping. O filho é campeão.
Adenor não ouviu mais a explanação, acelerou o passo para aquela seção e deixou o vendedor falando para as prateleiras sobre os feitos e conquistas do famoso atleta. Seu instinto suplicava por despistar o atendente e se camuflar, solitário, em algum canto da loja, todos os sentidos voltados para o pseudo altar e para quem dele se aproximasse. O palpite foi certeiro. Depois de minutos escondido atrás de equipamentos de polo e equitação, viu a figura do manco surgir de uma entrada lateral, puxando um carrinho repleto de luvas e tacos, e passou a organizar o material de beisebol no expositor. Adenor sorriu como um lagarto teiú. Missão cumprida.
Agora bastava saber onde seria a toca do tatu. Desceu para o térreo e descobriu um jardim interno com vista para as escadas e portas de elevadores. Sentado num banco poderia acompanhar as dezenas de pessoas que subiam e desciam, e dificilmente seu olhar de puma não localizaria o manco. Ademais, teria o dia inteiro pela frente, e aproveitaria para se deleitar com o cheiro úmido das plantas, o chafariz e o som da água, como um lamento, a estátua central, quem sabe uma deusa pagã, lembrando a Virgem. O santinho, trouxera no bolso. Única coisa que ficou da noite anterior. E a certeza de que um bom caçador sabe esperar.

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Capítulo 5
Terezinha Lanzini
Depois de tudo, conhecer o mar

Alex entrou em seu escritório atulhado de livros, computadores, papéis soltos; andou por entre as mesas, olhou pela janela – a rua, as calçadas vazias, as árvores, as lâmpadas ainda acesas. Para amanhecer hoje, teve a primeira insônia completa de sua vida. Virou-se e revirou-se na cama. Levantou. Trancou os vidros para reter o silêncio entre as paredes. Não conseguiu. Acendeu a luz do quarto e saiu. Examinou atentamente a sala. Reparou na bandeja esquecida sobre a mesa. Relembrou.
No enovelar lento do tempo na madrugada, adormeceu. Acordou com o sinal do despertador. Demorou-se no banheiro. Ao espelho, observou as marcas nos cantos dos olhos, a barba crescida, o cabelo grisalho nas têmporas.
Encostou-se à porta, esfregou o rosto com ambas as mãos. Fazia assim quando queria clarear as ideias. Ainda sonolento, saiu para a rua. Como todo dia, foi buscar o carro no estacionamento, sombreado de cinamomos caiados de branco, ramos podados à espera do inverno. Depois que desligou o telefone ontem à noite, se arrependeu de ter ligado. Adenor já devia estar esperando. E, antes que despertasse qualquer suspeita, um segredo se contorceu dentro dele. Queria seguir em frente, mas não podia. Estava de mãos amarradas. Não sabia nem mesmo quem era de verdade.
Chegando ao local combinado, Alex foi logo perguntando:
- Adenor, tu estavas presente na cena do crime?
- Que cena? – disse Adenor.
- A do crime. O assassino, tu viste?
Minha pergunta não foi respondida.
- Acontece que no dia dei um flagra, disse Adenor.
-Tu te sentes bem diante desta situação? Por que essa mala, Adenor?
- Conheci Beatriz, uma moça que mora no litoral. Ontem, ela andava em uma rua nesta cidade à procura de um advogado que alguém sugeriu. Precisava consultá-lo, pois havia testemunhado um crime. Percebi que estamos juntos na mesma perrengue.
Estou deixando tudo de lado e vou conhecer o mar.
¬- Qual Beatriz tu conheceste, Adenor?




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