Textos

Arquivo Narrativas IV

Jacira Fagundes
13/11/2020


Magaly Fernandes

Episódio 7


— Beatriz, encontramos tuas mensagens com o Umut Maldine da Silva, precisamos que nos conte tudo sobre ele.
— Eu o conheci pelo Tinder, tem dois meses que falamos. Sei que ele trabalha do shopping, quer comprar uma casa e trazer a mãe para morar com ele. Que seu pai era pescador, faleceu já alguns anos. E só isso.
— Ele estava querendo ir para ia. Sim ...ela achou melhor falar. Ele ontem me enviou msg, estava apavorado, com um homem que morreu no quarto ao lado. Eu disse para ele ficar e resolver a situação dele. Ele é inocente.
—Como tu sabes?
— Porque ele me falou.
Beatriz não falou nada que também ali havia uma pessoa morta, um assassinato talvez, ainda não tinham falado nada sobre o caso. Ficou quieta, não queria se envolver.
—Umut deve que trocar de cela, pela manhã quando o policial foi pagar o café encontrou-o arrebentado. Chorou durante a noite, não conseguia segurar, e os caras o socavam, e mais ele chorava. Olhos, braços, pernas tudo roxo.

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Magaly Fernandes


Episódio 8

—José estava morando na pensão há menos de um ano, relatou a dona. Não peço comprovantes de endereço. A pensão é um lugar onde muitas pessoas vão e vem. Ficou de herança do meu falecido marido. Ele era um homem simpático. O pessoal ali todo gostava dele, seguidamente pagava uma rodada de bebida para todos. Tinha dias que trazia peixe para o jantar, não só o dele, mas para os hospedes.
— A senhora não desconfiava de tanta amabilidade?
— Agora que tudo aconteceu, que fico pensando, ele dormia até tarde, sempre tinha uma mulher diferente com ele. Que trabalho ia aguentar um funcionário a sim?
—Quem mais o visitava?
—Ele nunca recebeu visita não seu policial, só mesmo as raparigas vinham a noite.
O policial percebeu que dali não teria mais nada de informação e a dispensou.
José, nasceu e viveu em Altamira. Nos últimos anos passava algum período em São Luís do Maranhão. Vendia crack desde os seus nove anos. Foi preso por quatro vezes, sempre por tráfico de drogas. Saia de Altamira quando estava pedido, ou pelos inimigos ou pela polícia. No momento de seu homicídio estava foragido do sistema prisional. Não se tinha notícia de esposa, mãe, qualquer outro membro de sua família.
O policial pensou consigo mesmo, na realidade Umut vez um favor para a sociedade de São Luís. Ser uma das cinquenta cidades mais violentas do mundo é uma vergonha, são piadas para os colegas de outros Estados. José foi o quadragésimo quinto morto do mês. Não existe concurso para policiais há mais de cinco anos.
— Tu podes atender a mãe de Umut e o advogado?
— Boa tarde, querem ver Umut? Impossível.
— Como não, eu sou advogado dele? Vou ter que te autuar por desacato?
— Calma doutor, se ele estivesse aqui, o senhor poderia vê-lo sim, pela manhã foi transferido para Pedrinhas.
— Transferido??? Não é possível ele é primário, tem endereço fixo.
— Ele cometeu um homicídio, e as provas são consistentes. Estamos superlotados.
O advogado acalmou-se e dirigiu-se ao Fórum, teria que pedir logo o habeas corpus para seu cliente. Conhecia bem aquele presídio e sabia dos horrores que se passavam, sendo ele muito jovem. Como o delegado não o esperou. Por isso a violência avançava na cidade, ninguém tinha pena de ninguém. Os policiais não sabiam diferenciar um bandido de um cidadão trabalhador honesto. A mãe chorava, desesperada.
— Meu filho levado para Pedrinha....
Enquanto o advogado despachar com o Juiz, a mãe foi ver o filho e levar suas roupas e algum alimento.
— Umut, o que fizeram contigo?
Ele tinha o olho roxo, o braço enfaixado e quando encontrou a mãe não parou de chorar. Mãe eu queria não chorar e não consigo. Eles me batem, dizem que aqui é lugar de homem. Sou homem, mas não matei o cara.
— Eu sei meu filho, não chora. O advogado vai te tirar daqui.
— Mãe a cela tem tanta gente que não dá para sentar. Tu lembras daquele cara que cortou a cabeça duns presos, ele está lá comigo.Tu tens que pedir para o advogado, me tirar daqui. Por favor mãe, me tira daqui.
A mãe foi retirada pelo guarda, ele se agarrava a ela.

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Maurícia Mees


CAPÍTULO VII

Ao chegarem em casa, Guilherme e Isadora reúnem-se na biblioteca. Gui liga para o amigo Alejandro proprietário do Hotel Palace onde Antônio está hospedado. Isadora pede um chá de feno grego e um bem chá para acalmar Guilherme. Senta diante do marido, tentando acompanhar a conversa.
Guilherme desliga. Com um longo suspiro, joga-se no sofá e relata o que ouviu, com os olhos fixos no assoalho.
— Não está no quarto e suas coisas estão lá. O Alejandro vai falar com o porteiro e vai dar um retorno.
De pé, diante do marido, mãos na cintura Isadora dá seu parecer. — É isto que dá. Ah, eu confio no Antônio. Confiaste demais nele seu Guilherme. Quem sabe o que anda fazendo?
O marido continua cabisbaixo. Isadora lhe dá as costas. —Malaka,* — diz, baixinho ao se dirigir à poltrona junto da janela. (babaca)
— Ela, ela *— diz Guilherme irritado. Eu preocupado, e você vem com esta história de novo.(expressão de irritação)
O telefone toca, é Tales, do escritório.— Ti néa?* (alguma novidade)
— Não, nada ainda. Não está no hotel. Estou esperando uma ligação pra ver se sabem algo mais. Assim que souber, te ligo, Tales. Acho que aconteceu algo com ele.
O telefone volta a tocar.
— Alejandro? Fala, por favor.
—O porteiro me disse que, por volta das dezesseis horas, recebeu dois rapazes com trajes esportivos e camiseta do time do Antônio. Disseram que tinham vindo buscá-lo para uma festa surpresa organizada pelo treinador. Deixou-os subir.
— Meu filho desceu com eles?
Isadora, se aproxima tentando acompanhar a conversa.
— Sim, desceram abraçados em algazarra. Um deles falava português e o outro espanhol.
Guilherme desliga, com a mão na cabeça, anda de lá para cá na biblioteca.
– O Alejandro falou de algazarra, eu ouvi. Não te disse, teu filhinho responsável está na algazarra sem se importar com os pais. —
–Malakies*, quanta bobagem, mulher. — Por que não vais dormir? Toma teu banho e descansa. Fico aqui aguardando no1tícias. Ainda é cedo para ligar para a polícia ou embaixada. Se até amanhã às nove não soubermos nada, vou à Caracas. Não posso ficar de braços cruzados. Qualquer novidade, te informo, –acrescenta o marido quando a mulher sobe as escadas.
—As to thialo! *— resmunga Guilherme. Surpreso, percebe que tem usado palavrões. Nem resmungar eu resmungava, nem isto eu fazia. Agora até mandei a mãe do meu filho à merda. Mesmo num momento destes, provar que estou errado parece mais importante pra ela que a preocupação com o filho. Donde vem esta mulher que não conheço? Será que também mudei tanto assim? Éramos outras pessoas.
Guilherme não come, toma apenas o chá, talvez fique mais calmo pra poder atravessar a longa noite de espera. Liga várias vezes para o filho. Antes de discar, eleva os olhos para o alto, mãos postas em oração. A voz do meu filho, parakalo. Parakalo,* a voz de Antônio. (Por favor).
Durante a noite de vigília, Guilherme fez pesquisas, horário dos voos à Venezuela, polícia Venezuelana e endereço, nome dos superiores e do embaixador brasileiro em Caracas. Contata o investigador, caso precisar. Prepara a mala.



Às nove da manhã seguinte, Guilherme liga para o treinador.
— Ainda não chegou, mas o voo é às onze. Ainda tá cedo, Guilherme. Peço pra ele te ligar quando chegar.
— Vou para Caracas, não posso mais esperar.
Ao acordar, Isadora encontra um bilhete na mesa-de-cabeceira:
Nosso filho ainda não apareceu. Estou indo ao aeroporto, se não tiver notícias até às onze, pego o primeiro voo pra Caracas. Fico em contato.
Viaja acompanhado do detetive, conhecido por sua eficiência. Não vai medir esforços para levar o filho pra casa. A cada hora a agonia aumenta. Onze horas é muito tempo, tempo demais. Ao chegar, não vai à esteira pegar a mala, pegará depois. O taxi o leva direto à polícia.
Tamborilando a caneta na mesa, o delegado profere sua sentença, sem olhar para Guilherme, em pé a sua frente:
– Espero estar enganado, mas isto lembra o caso de um outro jogador, o Di Stéfano, estrela do Real Madrid, o melhor do mundo. Ele foi levado por falsos policiais que, na verdade, eram guerrilheiros. Isto faz muito tempo, foi na década de 60, mas...
— Delegado, me desculpe, mas por onde começaremos no caso do meu filho? Cada minuto perdido pode significar sua vida.
Na imaginação de Guilherme, os policiais em plantão se reuniriam para um planejamento e logo veria viaturas partindo em várias direções com a sirene e o giroflex ligados.
O delegado chama o escrivão para registrar os dados e o relato de Guilherme. Sentado na ponta da cadeira, o interrogado responde as perguntas, Assim que terminar, a polícia vai entrar em ação, pensa, mas por que tantas perguntas? Por acaso sou eu o suspeito?
—Vou marcar uma reunião para amanhã para podermos tomar providências. — disse o delegado, a cadeira inclinada para trás, o corpo gordo esparramado no assento, mexia no celular.
Decepcionado e cada vez mais aflito, Guilherme vai à embaixada onde é atendido pelo próprio embaixador. Relata o ocorrido com o filho e a atitude do delegado. A polícia tinha sido sua esperança.
— Acalme-se vou fazer o que posso desde já. Deixe seus contatos. Lhe darei retorno.
Diante da embaixada, Guilherme pára aturdido, estático. O que faço agora? Aonde vou? Com quem posso falar? Vou para o hotel. Conversar com Alejandro, pode ter alguma ideia, no mínimo tenho seu apoio.
Do quarto, liga para o detetive e pede um relato das investigações. Prostrado, senta na poltrona, sem indícios ainda. O olhar, que sempre fora alegre, interativo, ali estava vazio. O Joseph, preciso conversar com o Joseph, preciso manter o equilíbrio, não posso fazer besteira e, se o embaixador repreender o delegado? Posso sofrer retaliação. A única coisa que me resta é ficar calmo e acompanhar as investigações.
Escreve para Joseph, precisa desabafar, ele sempre tem palavras sábias. No momento, está fora do país fazendo uma série de palestras em vários países. Conversam através do messenger. Joseph promete procurá-lo, assim que voltar.
À noite recebe um bilhete pessoal do delegado.

Seu filho está sendo procurado por todo país.
Alertamos também agências internacionais sobre o caso.
Um abrazo
Oficial de policía
Jose García



Final de tarde, o sol ainda espia por entre as folhas das árvores frutíferas diante da casa.
Pai e filha, sentados sob a laranjeira, tomam chimarrão.
Seu Manuel— diz Ritinha. O Vinicius mandou uma mensagem.
— Como ele está? Finalmente lembrou que tem família. Um dia isto tinha que acontecer.
— O que ele disse, como está? Espero que bem. — diz o pai com brilho nos olhos.— Ufa, uma coisa a menos pra me preocupar. Quem sabe ele me ajuda com umas ideia na loja.
— Pra ele voltar, precisa de dinheiro pra passagem.
O sorriso vai murchando, o brilho desaparecendo.
— Se o pai quer tanto que ele volte, vamos ter que mandar dinheiro pra ele poder voltar.
Com a cuia na mão, Miguelito fica olhando para o alto. A filha conhece aquele olhar. Não está apreciando a natureza. Por mais que goste de andar sob as árvores diante da casa e observar uma a uma, parece não ver nada naquele momento.
— O que foi, pai? Não está feliz com a volta do filho? Quem sabe ele pode ajudar com os negócios. Já que não aceita minhas ideias.
— Filha, não tenho este dinheiro pra trazer meu filho de volta.
— Não tem? Podemos usar o dinheiro das férias.
— Tentei evitar, Ritinha, mas este dinheiro já foi.
—Hum? A filha inclina a cabeça, franze a testa, olhando pro pai.
— Tá bom, vou te contar. Com a loja abrindo e fechando, não tem entrado dinheiro, mal dá pros imposto a água e a luz. Faz dois mês que não pago o aluguel, os fornecedor adiaram os pagamento por um tempo, mas eles também precisam receber o que é devido. A maioria também está tendo dificuldade. Se eu não pagar até dia quinze, entram na justiça.
Ritinha comprime os lábios, senta na ponta da cadeira, corpo inclinado para frente. — E o pai escondeu isto de mim!
— A gente já tinha discussão sobre vender pela internet. Tu ia ficar dizendo que é por isto que estamos nesta situação.
— Até hoje não entendi por que o pai não foi procurar o Grego. Ele se ofereceu tanto pra ajudar.
— Eu já falei tantas vez, ele ofereceu, depois não apareceu mais. Claro que está me evitando. Depois, quando liguei, disseram que não estava. Se arrependeu de ter oferecido ajuda, eu disse.
— Ritinha suspira, quer evitar uma nova discussão. Tira a cuia da mão do pai e serve um chimarrão.
— Não sei o que fazer, filha.
— E se a gente procurasse alguém pra ajudar ver o que a gente pode fazer?
— Pois é, o Guilherme tinha me oferecido, mas..., e a gente também não tem como pagar.
— Promete que, se a gente sair dessa, nós vamos adotar um software de gestão? Com ele a gente vai conseguir controlar melhor as entradas e saídas. Tudo bem, talvez isto não teria acontecido se não fosse a pandemia, mas promete que vamos modernizar um pouco, se a gente conseguir ficar com a loja.
— Tá bom, filha. Não quero mais brigar e também não quero ficar com o nome sujo. Já pensei em propor aos credor das mercadoria a devolução delas. Alguns fornecedor não tem nada em haver. Alguma coisa a gente tem em estoque que já está paga.
— Mas, se a gente não conseguir mais pagar o aluguel? Já tem os atrasados. Se os fornecedores aceitarem a devolução, ainda sobra alguma coisa então. A gente entrega a loja, traz a mercadoria pra casa. E vamos ver o que se pode fazer. Nós vamos dar um jeito. E sobre a passagem do Vinícius, deixa comigo, vou dar um jeito.
—Onde vais arranjar este dinheiro?
— Tia Clara, talvez, ela se preocupa muito com o sobrinho.
— Não sei, não, filha.
A noite invade o pátio, e pai e filha se recolhem.



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CAPÍTULO VIII

De um salto, Isadora se esconde atrás de Amélia que lhe trouxera um ouso.1 A taça se estilhaça no chão, o tapete absorve o líquido azul com cheiro de anis. (bebida grega de anis)1
—Aciona o alerta, Amélia. Rápido. — Diz a patroa usando a empregada como escudo caminhando na direção do alarme.
Já com a mão no aparelho, ouvem a voz daquele homem que invadira a casa.
— Não faça isto.
Isadora espia por detrás da empregada. Aquela voz, deve ser um golpe, estão sempre inventando novas formas de enganar as pessoas. Não fossem aquelas roupas amarrotadas barba e cabelos longos, até poderia ser Guilherme.
— O que você quer? É um assalto? — Pergunta.
— Estou de volta.
— Guilherme!? O que houve com você? — exclama, deixando seu escudo humano. — Não vejo mala, onde estão teus pertences?
— Quem precisa de mala. Meus pertences estão cobrindo meu corpo. Vou pro meu quarto. — diz Guilherme. A mesma voz, mas a fala, hesitante.
— Amélia, chama o Osório. O senhor Guilherme precisa de um bom banho e fazer a barba e cabelo. Depois vá ver como está o quarto do senhor Guilherme.
— Óxi.2 Não vou fazer barba e cabelo. Vou tomar um banho e trocar de roupa, isto basta. (não)2
Sobe a escada passos lentos, pesados, com o auxílio do corrimão, sentindo o peso daquela casa sobre si. Do pé da escada, a esposa acompanha aquele estranho. —que horror! Sacudindo a cabeça e apertando os lábios.( em grego)


Quando Guilherme desce para a janta, Amélia avisa que dona Isadora vai fazer a refeição no quarto. Ele olha em volta. Esta casa um dia foi um lar pra mim- conversas, risadas e música. Agora pareço um estranho aqui, sentado sozinho nesta mesa que recebeu tantos amigos. Rostos alegres, conversa, barulho. Em Caracas, ao menos fazia as refeições com Alejandro. Sentia-me acolhido. Em minha própria casa nem a mulher parece querer minha companhia. O silêncio, sepulcral, o espaço amplo o oprime. Os passos dos empregados pela casa parecem ecos do que foram um dia. Como vou suportar uma vida aqui onde não verei mais meu filho entrando pela porta, sorridente abrindo os braços procurando o aconchego do pai. Sentir o calor do filho naquele abraço era suficiente para lembrar a beleza da vida.
Não toca na taça de vinho a sua frente, antes costumava tomar para celebrar a vida. Celebrar o que agora? Que sobrevivi a meu filho? Deveria existir uma bebida para quando não se tem mais o que celebrar. Uma vida sem ver, sem abraçar meu filho, sem nada? Ergue-se lentamente, nem o peso do meu próprio corpo consigo mais carregar. Tu eras minha força. O que aconteceu contigo, filho? Se ao menos eu soubesse. Te traria para casa, te daria um... não. Enterrar meu filho! Não. Num lugar tão frio como esta casa? Vai à estante que exibe os troféus de Antônio. Toca em cada um deles. Aqueles objetos remetiam ao filho vivo, cheio de energia. Segura contra o peito o último deles. Por mais difícil que seja, filho, nem que eu tenha que te colocar numa cova fria pra saber onde estás. Mas nem isto consigo fazer por ti.

No café da manhã, Guilherme manda chamar a esposa, quer falar com ela. Depois de uma longa espera, ela desce, alinhada como sempre. Guilherme percebe que, para ela nada parece ter mudado com o desparecimento do filho. Mas quem está certo, pensa, ela, que leva a vida adiante, sem o peso da perda, ou eu, entregue à minha dor.
Isadora quer seu desjejum na ponta da mesa. — Sente mais perto, Isadora, por favor, te chamei pra conversar. Se fosse pra ser assim, poderia ter falado pelo telefone, mas nem isto conseguia fazer mais.
— Estou bem aqui. Te ouço muito bem daqui. É aqui que tenho feito minhas refeições enquanto estavas longe. Quanto tempo me deixaste sozinha.? Não te importavas onde eu sentava, o que eu fazia. Aprendi a ficar sozinha. Não precisavas ficar por lá. Tinhas a polícia e o detetive fazendo o trabalho
— Eu não queria iniciar nossa conversa desta forma, mas preciso te lembrar quantas vezes liguei e não me atendeste. Por fim, desisti de falar contigo. Eu não poderia voltar sem saber de nosso filho, poderia?
— Por acaso sabes onde ele está?— retruca a esposa olhando para o relógio.
—Não vim para discutir. Vejo que meu conceito junto a ti não mudou. Podes esquecer o relógio e me escutar?
— Vamos lá, então. Qual é o assunto? — pergunta, olhando para o alto.


— Acho que nosso filho não está mais entre nós. Pra mim esta casa não faz mais sentido. Nem a solidariedade da mãe de meu filho tenho. Vou me mudar.
— Solidariedade? Quanto tempo não foste solidário comigo me deixando sozinha? Sabes o que sinto te vendo assim?
— Nojo? Por isto não queres sentar à mesa comigo. Não importa se estou asseado.
— De que forma vou aparecer contigo nos lugares que frequentávamos? O que achas? Vira a cadeira para não ficar de frente com Gilherme.
— O que houve com a gente? Perdi a mulher com quem casei. Perdi meu filho. Será que não me conheço mais? Será que não sou aquela pessoa que eu imagino ser? É este o motivo de teu comportamento? Foi por isto que perdi meu filho? Os Deuses estão mostrando seu poder. Começou com a pandemia, que não vai terminar antes que os humanos não mudem. A ganância, inclusive levando à destruição das matas, os meios produtivos só focando no lucro, sem se importarem com o futuro, o consumidor comprando produtos com embalagens descartáveis, fazendo as lixeiras transbordarem. Se não mudarmos a forma em que vivemos neste planeta, vamos pagar um preço muito alto. Eu devo ter cometido um pecado muito grande perante os Deuses, embora não saiba onde errei. Tenho pensado, mais e mais, sobre quem sou, na realidade. Vieram gafanhotos, a pandemia mundial e perdemos nosso primogênito e único filho.
— Sei, sei, Se foi por isto que me chamaste, já vou, não suporto tuas lamúrias, não se pode mais fazer nada, Guilherme, — diz Isadora, mexendo no celular.
— Na verdade, quero te falar desta casa. Não consigo mais morar nela. Sem a presença de Antônio, não tem mais por que ficar aqui. Vou te dar a liberdade. Percebo que me tornei persona non grata para ti.
Isadora vira a cadeira para o marido, olhos arregalados, os lábios mostrando um leve sorriso. Senta ereta, presta atenção.
— Vou morar sozinho. Pensei em ir para o apartamento na Avenida Independência. Você fica com a casa, ou volta pra Atenas, já que não gostas do Brasil. No divórcio vamos ver como vai ficar.
Isadora joga o corpo para trás, sobrancelha erguida, a testa tensa.
— O que? Divórcio? Nunca! — grita. —Separação, ótimo, mas divórcio? Nunca te darei o divórcio. Escreva isto.
— Mulher, não vou discutir com você, se é o dinheiro que te preocupa, tudo bem. De que vale tanta propriedade agora? Qual o sentido disto tudo? Vou falar com nosso advogado, deixo com ele. Eu já sabia que seria um divórcio litigioso. Vou para o apartamento o mais rápido possível. Contigo tudo vira litígio.
— Quanto a te mudar, tudo bem, aliás, acho que estás querendo isto há muito. Podes levar teus amiguinhos, o Pedrinho, o Paulinho e, como era aquele da lojinha? Miguelito. Estás parecendo com eles. Tem o Carlinho, o Paulinho. Fica com teus inhos.
— Mulher, escuta: eu te deixo ser, deixa-me ser, então,3 — diz o marido antes dela deixar a sala. (Clarice Lispector)
— Sei, Clarice Lispector. Por que não usas tuas próprias palavras?

MIGUELITO

Vinícius volta da Alemanha e passa a morar com o pai e a irmã. Logo fica a par da situação econômica do armarinho com a possibilidade, inclusive, de perder a casa.
— Meu pai, sei que tenho dado muita preocupação. — diz Vinícius. — Não pensa o pai que eu não entendo o que o pai quer de mim. Eu entendo teu pensamento em relação a mim, mas eu sou cabeçudo, nem sempre é fácil convencer os filhos das verdades dos pais.
— Graças a Deus estás vivo e por perto, — diz Miguelito. — Eu me preocupava com teu sustento e este vírus. Espero que esta experiência tenha te ensinado alguma coisa. Teu pai e tua irmã mal tem com que se sustentar, então não podemos te ajudar com dinheiro. Enquanto a gente tiver esta casa, ela também é tua. Segunda temos uma reunião com os credor. Vamos ver se aceitam minha proposta. Eu gostaria que me acompanhasse. A Ritinha sempre participa. Acho que agora é hora da gente pegar junto. Talvez me ajudas a pensar em alguma coisa, o que a gente pode fazer. A Ritinha tem me falado de vender na internet, mas não sei não.
— Ela tá certa, pai. Com a pandemia tem aumentado muito a venda pela internet. Só precisamos ver como se faz. Tem muita coisa no Google pra pesquisar. Posso começar a fazer isto ainda hoje.
— Faz isto e vai anotando.
Segunda -feira
Sentados em círculo no interior da loja, Ritinha está ansiosa, Miguelito, segura com uma das mãos a perna que teima em tremer e Vinícius parece mais curioso que preocupado.
— Então, Miguelito, estávamos conversando entre nós sobre possíveis soluções. Qual tua ideia?


—O pai está pensando em devolver a mercadoria pra vocês. — Ritinha informa, olhando em volta para ver a reação dos credores.
— Temos capital de giro em estoque, o que nos falta é dinheiro disponível no caixa.
— Não tenho outra ideia. —Diz Miguelito.
— Uma solução seria a concordata, sugere outro credor.
— Concordata? Não estou lembrado o que é. Podem me explicar?
— Se me permitirem, posso tentar explicar. — diz Ritinha.— Tenho pesquisado muito sobre possíveis soluções. Na concordata se faz um acordo com os credores. O devedor precisa pagar a dívida, mas com novas condições. Com uma concordata, o pai fica com crédito na praça. O pai não disse que vendia até a casa pra sair com o nome limpo?
— Acho que entendi. Faço qualquer coisa pra não sair com o nome sujo. Posso vender o ponto.
— Só o ponto não paga os credores.
Miguelito suspira. — Minha casa.— Olha para os filhos e baixa os olhos.
— Pro ponto, já tenho gente interessada. Mas a casa? Tem uma na minha rua que faz mais de cinco ano que a placa ta lá.
— Se vocês concordarem posso conversar com meu advogado, ou o contador pra ver como pode ser feito,— sugere o mais falante. — Quem concorda? Quem sabe a gente vota?
Depois de alguma discussão, marcaram uma próxima reunião.
Na reunião seguinte, Miguel assina o documento entregando a casa.


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Sônia Coppini
Capítulo 7

Capítulo 7

Um mimo para dona Elvira
Após chegar em casa e alimentar Rex, Adenor bebeu quase um litro d’água, respirou fundo e prestou atenção na sensação que fluía pelo corpo, uma espécie de falta. Algo para considerar o dia completo. Cada hora passada naquele jardim, imóvel e atento a escadas e elevadores, lhe rendeu uma dor insuportável nas costas, mas também o tempo de descobrir cada detalhe da beleza e força da deusa pagã, em meio à água. Por certos momentos sentiu-se vivendo em algum mundo desconhecido com aquela mulher. Ela empunhava lança, portava escudo, usava um elmo com dois pequenos cavalos, e havia uma possante serpente sob seu domínio. Para contraste, a brancura imaculada, as vestes provavelmente vaporosas, esculpidas na dureza da pedra, transmitindo uma flama, um convite para participar de seu misterioso encanto.
Antes do manco descer, descobrira, perto da saída do mausoléu, uma loja de suvenires. Suas mãos foram diretas às miniaturas da deusa:
− O senhor fez uma bela compra: Athena! − exclamara o vendedor. – Recheada do mais puro azeite de oliva.
− Mesmo? Embrulha mais uma, então.

Já instalada a deusa na prateleira da sala, Adenor resolveu descobrir mais do seu mistério. A parte superior da miniatura se abria, justo onde os cavalos encimavam o elmo. O aroma do azeite o fez salivar. E, não por coincidência, um cheiro de comida passou a entrar por baixo da porta de casa, pelas janelas. Os vapores da vizinhança. Uma vontade cultivada há anos. Sentiu ser a hora de confrontar a falta. E destinar o segundo embrulho.
Lavou as mãos, o rosto e os braços em água abundante. Seguiu a trilha da promessa de delícias pelo corredor, e bateu à porta de dona Elvira.
− O que houve, seu Adenor?
− Uma falta. A senhora sempre tão gentil com todos. Vim retribuir.
O mimo foi entregue com toda a cerimônia almejada. Que que é isto... Não precisa agradecer. Só uma lembrança. Mas pelo quê?
Neste momento, foi direto:
− O morto. A senhora sabe. Não fosse o seu empenho.
− Não fiz mais do que o coração manda.
A frase causou um frenesi em Adenor. Mas se conteve, e continuou se portando como um calmo e gentil-homem, pediu desculpas pela hora e o incômodo. Mas aceitou de pronto o convite para entrar. Deu alguns passos, como se pisasse em ovos, e aguardou as instruções da anfitriã. Ouviu um elogio pela nova aparência, cabelo, barba. Aguardou a surpresa pela abertura da embalagem.
− Que delicadeza.
− Achei que combinava com a senhora.
− E a fragrância...
− Extra Virgem.
O jantar foi um banquete que Adenor não vira ou degustara desde o tempo da finada mãe. Além dos dotes culinários, dona Elvira manteve a costumeira verve, e relatou toda a campanha que fez com os moradores do prédio. Uma família desassistida. Alimentos recolhidos e entregues às várias viúvas. Uma rede de provisões. A atenção para as crianças.
− Dai-me de beber! – Agenor balançou a cabeça.
− Poderia ser de outra forma? − Dona Elvira levou a mão ao rosto e inclinou a cabeça.
− Uma verdadeira samaritana.
− Não tenho marido! − recitou. − E as probrezinhas das crianças ficariam como?
Adenor imaginou os inocentes com poucas colheradas na boca para passar o dia. Um colchão dividido por muitos. Uma vida que nem Rex ou Bicudo tiveram. E aquele manco, com certeza, por trás de tudo:
− Alguma novidade sobre a perícia?
Ah, sim, perícia era o que não faltava também para Adenor, e entre um elogio e outro pela qualidade do jantar, a troca, a revelação de detalhes da vida pregressa do recém-partido, os casamentos, infidelidades, dívidas, extorsões por um agiota, criancinhas passando fome, e oh! como é bom estar aqui, dividindo tantas confidências sobre um, até ontem, mero conhecido em comum, e o sabor picante dos seus legumes, o molho suculento de sua carne, o aroma perfeito e extra virgem, e a deusa, desculpe, dona Elvira, mas é assim que devo lhe chamar, saberia me falar de um manco?
A noite foi longa para os dois, e a única coisa que Agenor haveria de lembrar no dia seguinte seria o olhar de êxtase de dona Elvira, ao término do mais alucinante beijo em meio ao corredor, com promessas de dividirem tudo, os azeites, os paladares, os segredos do aquém-tumba, os bastões de beisebol, as dúvidas, mas também a certeza de que cada um faz a sua parte.

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Capítulo 8

Rua e mar
Sônia Coppini

Na saída do lotação, Adenor percebeu aquela mulher andando como se procurasse a direção certa da rua. Notou uma elegância e um gingado no quadril que lhe reportou à juventude. Ela olhava o celular, enquanto virava a cabeça para os prédios, procurando talvez o número. Fez o movimento várias vezes e, típica ingenuidade feminina, não se dava conta dos lobos ao redor, malandro pronto pra surrupiar o aparelho. Só podia ser do interior.
− Desculpa, dona, mas posso lhe ajudar?
− Sim, gostaria imensamente. Esta rua é...
− Alberto Bins.
− Ah! Não consigo achar o prédio.
− Cuidado com o celular, senhorita, os lobos aqui são rápidos.
− Como?
− A bolsa, dona. Guarda o telefone e fecha.
E foi acabar de falar para que ela percebesse a rapidez e o vaticínio de Adenor. O passo dele foi certeiro, travou o pé do vadio que vinha na carreira. E, enquanto o outro se estatelava no chão, Adenor enlaçou a cintura da donzela e a afastou para baixo da marquise do prédio.
− Desculpe o jeito. Sua graça?
− Beatriz. Não precisa se desculpar. Não fosse o senhor, perderia tudo.
− Veio da onde?
− Do litoral.
− Sabe que nunca vi o mar?
A moça o olhou como quem olha o outro lado do horizonte. Adenor percebeu o assombro, mas imaginou que pior seria para ela:
− E veio se meter nesta encrenca de cidade por quê?
− Consulta a um advogado.
− Problema grave, Beatriz?
− Testemunhei um crime.
− A senhora também?
Desta vez foi Adenor que a olhou como quem olha para o outro lado do horizonte. E por um momento pensou que as gotas que escorriam da testa e chegavam aos olhos de Beatriz teriam o sabor de algum outro mar desconhecido.







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