Textos

Arquivo Narrativa V

Jacira Fagundes
13/11/2020


Magaly Fernandes

Episódio 9



Dona Dilara, não saiu da frente do presídio. Sentou-se em um banco para fila do dia de visitas e não arredou pé. Assim como o filho o choro veio descompassado. Outras mulheres que estavam por ali vieram conversar.
— Meu filho, meu caçula, um trabalhador, dão dizendo que matou um cabra. Não foi ele, eu seu que não foi. Bateram nele, tá todo estropiado.
A outra a abraçou e ficou quieta. Chegou mais uma e disse: —oxente, vamos leva-la até a defensoria pública.
— Gente não tem mode de que eu sai daqui. Tô esperando o advogado que vai trazer o habeas.
— Tia isso demora. Vamo ali em casa tu deita, descansa. Tu tens celular? Ele te liga.
— Vo fica para mode rezar e me acalma.
— Minha casa é bem pertinho, tu deita, toma um chá, eu rezo contigo. Vamo tia vamos. E foi puxando Dilara, que não deve como recusar.
O dia passou e nada do advogado ligar.
Acordou noutro dia com sirenes. Nem a roupa tinha trocado, dormiu como chegou, não houve jeito. A dona da casa ofereceu para tomar banho, e nada.
— Vamos Dilara vamos, aconteceu alguma coisa, e muita sirene.
Na rua uma fumaceira.
O telefone toca.
— Dona Dilara consegui o alvará de soltura, já estou a caminho.
— Corre doutor, corre, aqui tem tendo um incêndio, coisa feia.
O número de ambulâncias que saiam do presídio era incrível. As mães, filhas, esposas, as famílias e amigos vinham chegando. O noticiário já falava do incêndio. No telhado presos gritavam, se via um deles com uma cabeça na mão. Dilara desmaiou.
Acordou na casa da amiga.
— Umut, Umut...meu filho...Umut...
— Tia...Umut de que?
— Madine da Silva
— Tia...tu tens que ser forte...tia Umut está na lista dos falecidos.



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Magaly Fernandes
Episódio 10

Dilara falava cada vez menos, saia da cama para a rede e lá se deixava se ficar olhando fixo o mar. Depois da morte de Umut, retornou a morar na casa onde viveram na infância do filho. Ouvi-o chegando com o pai.
—Mãe, mãe, olha piapara que o pai pescou. O pirão...oh maninha..cadê o pirão?? As lágrimas secaram, não as tinha mais. Ela sempre sonhara com ele ali, indo para o mar como o pai. Pensava nos netos...voinha..voinha... As amigas diziam que era doida. Quanto pescador morreu no mar. O pai dela mesmo, não viveu cinquenta anos e casou-se com Iemanjá. Assim era a vida de pescador.
— Voinha..olha o carteiro deixou uma carta pra ti... do Forum ...lá da capital.
— Lê logo menino..do Forum..o que poderia ser?
— Da defensoria pública diz aqui...daquele advogado vó.
—Lê ...lê...

Estimada Sra Dilara

Espero que esteja bem entre os seus. E quero que saiba o quanto ainda hoje não me perdoo, pela burocracia do Estado, pela negligencia dos agentes públicos, responsáveis pela morte de Umut. Não escrevi antes e nada lhe dize pois preferi esperar a sentença judicial. Pensei que o sofrimento que enfrentas é grande. Ontem o Juiz deu ganho de causa para o pedido de indenização contra o Estado. Umut, era primário, tinha trabalho e endereço fixo. Ele se apresentou para dar o depoimento, deveria ter respondido o processo em liberdade. A transferência para uma penitenciaria, lugar de cumprimento de presos condenados foi totalmente ilegal e cruel.
Dilara agoniada ...—do que me adianta dinheiro. Eu quero Umut. Ele está morto. ...segue fio..segue..
Seu filho Umut, como o sabíamos era totalmente inocente. Segue anexo o Alvará de Soltura e o laudo de necropsia. A pretensa vítima, José, morreu devido ao rompimento de um aneurisma. Ele sentiu-se mal e, caiu. Batendo com o corpo no móvel onde estava o taco... este caiu junto ao corpo. Ele gritou de dor, pois declaram os médicos tratar se de dor intensa e forte.
No dia 23 Outubro, as 14:00h preciso que estejas no Forum com todos os teus documentos e número da tua conta bancária. A contar desse dia irás receber dois salários mínimos por mês durante trinta anos.
Deixo-a com meus sentimentos e as sábias palavras do meu prezado George Orwell
“Degrada-se a linguagem política para que as mentiras saem, a verdade e o assassinato sejam respeitáveis e para dar uma aparência de solidez ao que é puro vento.”

Fico no aguardo.
Pedro Silveira Rodrigues
OAB 00123
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Capítulo 9

Bingo!
Sônia Coppini
Por alguns dias segui o manco até seu bairro. Morava nos confins da zona norte. Somando às novidades trazidas por dona Elvira, depois de nosso jantar de confidências, não foi difícil descobrir que um mais um é igual a vários. Este novo jaguara é um baú de falcatruas.
Num mesmo dia, vi o enganador comprar duas sacolas de comida, com tudo repetido, e passar em duas casas, uma próxima ao ponto de ônibus onde desceu, e outra a quarteirões. E adivinha para quem ele levou as sacolas? Exatamente. Para as duas mulheres da missa, a seminua e a com cabelo de periquita. Se despediu aos beijos das duas, e ainda ofereceu balinhas às crianças, quando saiu.
Ao se aproximar de sua casa, tinha dois barbados à espera. Gritou alguma coisa para eles, e vi que se afastaram. Mas um permaneceu na porta de um bar, um pouco mais acima, do outro lado da rua; andava com passos arrastados, pouco levantava a cabeça, parecia carregar o mundo nas espáduas.
O manco abriu o portão, e um cusco cheio de contento veio dar as boas-vindas. Gania de felicidade. Mas pra quê! O patife tocou o bicho e pegou uma pedra pra afastar o animal. Isto me ferveu o sangue. Vontade de pular aquela cerca e botar os dentes nele. Mas ainda não era hora. Respirei tantas vezes quanto pude. Minha boca salivava de raiva. Foi então que me dirigi ao bar. E pedi duas garrafas de água. Geladas como o inferno. Tomei a primeira de um gole só. Isto me acalmou.
Em certo momento, percebi que o homem de passo lento continuava encostado na parede e parecia definhar. Chamei-o com um assobio. Ofereci um café. Ele me olhou desconfiado. Levantei a garrafa d’água, reforçando o convite. Entrou devagar, cabeça baixa. Pedi café e pastéis ao dono do boteco. Fiz o infeliz sentar e empurrei a bandeja pra frente dele. Qualquer alma sabe quando a outra está com fome:
− Tem que encher este bucho.
O homem assentiu, levou a boca aos pastéis e devorou todos, como se não comesse há dias. Ao final, sorveu o café, gole a gole. Percebi a sua feição mudar, a palidez se dissipando, o sangue voltando a rosar a cara.
− Problemas, companheiro?
− É. Não.
− Às vezes o bicho parece grande, mas não passa de um berne.
− Me endividei.
− E o urubu tá perto, sei.
O sujeito enrubesceu. Ouvi sua respiração mudar. Seu corpo se agitou quando olhou para a casa do manco. Levantou, entre alguns monossílabos. Nenhuma palavra chegou a se completar. Rumou para a saída, entre um quase obrigado, um acanhado deus-lhe-pague. Subiu a rua rápido.
Quando eu pensei em tomar meu rumo de volta, vi uma dona chegar no manco. Veio atender de bermudas, agora. Era tudo que eu precisava para o dia se completar. Parte do pé, o tornozelo e a panturrilha revelavam o motivo da manqueira. Era uma enorme atadura envolvendo esta parte do patife. A mulher apontou as faixas e falou a altos brados: Ninguém resiste a minha massagem! Nem taco de beisebol. O manco riu, e fez um sinal obsceno.
Bingo! Este dia valeu ouro.



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