Crônicas

Solstício no deltoide

Sonia Coppini
15/07/2021



Solstício no deltoide

Sônia Coppini

Vinte e um de junho. Primeiro dia de inverno. O jornal da tevê mostra estupendas paisagens. Um nascer do sol esplendoroso no mar. A réstia de luz dourada nas águas. Um tímido raio numa ponteira de gelo, campos cobertos de geada. Os plátanos e suas folhas vermelhas iluminados pelo astro rei no horizonte. Um dia único. O solstício, como fala o especialista. Período de pouco tempo, com o Sol nascendo e se pondo afastado para o Norte. A trajetória no céu inclinada, os dias mais curtos, as noites mais longas. Uma explicação complicada, mostrada sob todos os ângulos possíveis: infográficos, vídeos, fotos invejáveis. Mas nada que remeta ao ângulo visto pela janela: apenas chuva, vento, frio e escuro. Nenhuma beleza almejada. E o suplício ainda está por vir. A voz é da esposa, quase uma ordem: jaqueta impermeável, botas, guarda-chuva. E o toque final:
– Não me volta com uma gripe!
Dizem que este é o melhor Posto de Saúde. Já é a terceira tentativa na semana. Mas as filas dando voltas nas quadras. E as dúvidas ouvidas ao redor, as de sempre: documento com CPF, comprovante de residência, e o cartão do SUS precisa? Tudo acomodado nos bolsos, até o tipo de sangue. Mas a fila não anda, e o horário de pegar no serviço já está no limite. Alguém grita: última dose, hoje. Fazer o quê? Vontade de trucidar o bicho com a mão. Maldito!
Na volta para casa, as paisagens espetaculares na tevê, agora com o pôr do sol. Não quer ver nada. Nem ocaso no mar, nem plátanos, nem explicação alguma. Mas a pergunta vem:
– E daí? Conseguiu?
(Silêncio)
– Não me diz que não!
(A cara é de esgoelar alguém.)
– O fulano conseguiu. Taqui, no zap da família. Tem até foto. A ficha completa. E foi até da Pfizer. Local de vacinação: Deltoide! Por que não pensou nisto antes? Será que eu vou ter que perguntar o endereço também? Te mexe!
– Uma clínica? Deve ser privada.
– Põe no Google, se não quer pagar mico. Eu é que não vou escrever no zap!
O dia foi mesmo o mais curto do ano. Mas a noite será longa, a mais longa do século:
– Deltoide: músculo proeminente que recobre o ombro.
Vontade de esgoelar o bicho, a mulher, o fulano! Maldito Deltoide!




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Comentários:

Sonia já tinha escutado tua crônica e agora lendo me diverti muito. Sim o tragicomico tem esse poder. O bom é que temos as vacinas, o ruim é a forma como somos tratados nas filas de espera e a condiçao hoje de ficar cada vez menos na rua, e de lutarmos pelos nossos direitos. Parabéns. Adoro te ler.

MAGALY ANDRIOTTI FERNANDES, PORTO ALEGRE RS 31/07/2021 - 13:49

Sônia: capturaste brilhantemente o dilema do homem cotidiano, a pressão pela vacina, a falta dela nos Postos, e, de quebra, a natureza seguindo seu curso tranquila, parecendo dizer : calma, tudo tem seu tempo de acontecer. Gostei muito.

Tusnelda Marins, Porto Alegre/ RS 29/07/2021 - 20:01

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