Crônicas

Tempo, tempo, tempo

Dora Almeida
30/07/2021



Dora Almeida


Tempo, tempo, tempo


Alguns dias, no verão, o calor é tão sufocante que a cidade muda de nome, passa a chamar-se Forno Alegre, não há onde a gente se enfiar, diz a vizinha do andar de cima, reclama de tudo, até do sabiá que canta de madrugada, não vai reclamar do tempo, imagina, e ainda mais agora, só fala na morte de uma pessoa em São Paulo, de doença misteriosa que veio da China e está se espalhando rápido pelo mundo, bem capaz ,mas, pelo sim pelo não, uma viagem ao Nordeste viria a calhar, amenizaria o calor e, se houver mesmo a tal doença, pelo menos passeamos um pouco antes dela chegar; convido amiga que topa na hora, fechamos pacote, malas, delícia de semana, hotel à beira-mar, areia macia, água morna, passeio de barco, paisagens deslumbrantes com direito a falésias coloridas e tudo mais, comida gostosa, conversa fácil, fácil com povo nordestino, gente de fala cantada e doçura no olhar, feiras de artesanato, comprinhas, presentes, até a vizinha do andar de cima vai ganhar uma toalha bordada, não esqueço dela, da conversa sobre a tal doença, no hotel já começaram a falar; no aeroporto, de volta, pessoas sem rosto, poucas, bem verdade, mas estavam lá, só os olhos de fora, arregalados, medrosos; no avião conversas cruzadas, um pouco sem nexo, passageiros pensativos, de cenho franzido em quase silêncio até que o piloto, com voz de piloto, sabe, anuncia o final da viagem, agradece, fala do tempo, por fim dizendo – tripulação, preparar para o pouso – chegamos, família esperando, abraços e beijos, quem diria, seriam os últimos, ou quase, proibidos que foram na semana seguinte quando se viu que a tal doença mostrara ser um vírus feroz e maligno que nos colocou em casa, isolados, e desde aquela morte em São Paulo, em março de 2020, chegamos agora, julho de 2021, a mais de quinhentas e cinquenta mil vidas perdidas só no Brasil, dentre elas, amigos queridos, conhecidos, parentes, poderiam estar conosco se vacinas tivessem sido providenciadas a tempo, tudo isso uma tristeza só, vacinas que agora temos, ainda que de modo precário mas nos trazem alguma esperança como diz a vizinha do andar de cima, não reclama mais de nada, que depois do horror duma pandemia o que vier vem bem, a gente aguenta, e coloca o som bem alto, nem reclamo, até gosto, e fico ouvindo Caetano, ainda assim acredito ser possível reunirmo-nos, tempo, tempo, tempo, tempo.




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Comentários:

Dora, que saudades, não pude te ouvir quinta passada, teu humor permanece, isso é bom. Sim eu também entendo qu a música nos dá asas. Enfrentar esses ultimos dois anos tem exigido muita criatividade, e novas formas de convivio. Parabéns.

MAGALY ANDRIOTTI FERNANDES, PORTO ALEGRE RS 31/07/2021 - 13:54

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