Crônicas

Eu e a pandemia

Magaly Andriotti Fernandes
06/08/2021




Eu e a Pandemia

MAGALY ANDRIOTTI FERNANDES


O ano de 2020 iniciou de forma totalmente atípica. Vim da praia, onde normalmente usufruo das férias com os netos, cheia de projetos e programações de viagens. Primeira semana de março, sem muita convicção tendo que ficar em casa devido à Pandemia do Covid19. Na praia, não assisto notícias e não leio jornal. Caminhamos, conversamos, jogamos, assistimos filmes, lemos livros e contamos histórias.
Momento surrealista, meu filho me liga e diz:
— Mãe, o que vocês estão fazendo no Shopping?
— Ora, criatura, o que podemos estar fazendo aqui, passeando, comprando e comendo.
— Oh mãe, tu não escutou a notícia, não? Pelo menos estão de máscara? Limparam as mãos com álcool?
— Tu bebeste ou o quê? O carnaval já terminou.
— Mãe, vão para casa , vou jantar contigo e te falo.
E assim passei a viver em isolamento social. Primeiro o choque, a intranquilidade, a retomada de planos. Tudo com muita dificuldade.
Fui salva pelo artesanato, pela literatura, pela música e pela TV. Por incrível que pareça, a TV, que há muito tinha deixado de lado. Passei a assistir séries, turcas, coreanas, japonesas e chinesas. O mundo se mostrou para mim de forma total. A Ásia existia de forma muito abstrata. Passei a sonhar em conhecer as praias, as cidades, as pessoas e a experimentar as comidas desses povos. A música estava ali bem ao meu alcance, e pude então viajar para esses mundos tão distantes. A comida também passou a ser revista, já que não estava caminhando tanto quanto deveria, e aproveitei para aprender a fazer pratos desses países. Retomei o aprendizado do italiano e do inglês, cotidianamente.
Os livros ficavam brigando com a TV, a imagem nos encanta e eu tenho que dizer, fico imersa. Quando os filhos ou netos ligavam, eu achava uma chatice, pois não queria deixar de assistir a nenhum episódio. Até me dar conta que o controle é por mim comandado. Entrei em Clubes de Leitura, o que me ajudou na contação de história e a fazer frente ao mundo televisivo. Descobri autores como o angolano Agualusa, a Hilda Hilst, o João Antonello Carrascoza. Retomei Machado de Assis e Clarice Lispector. Voltei aos clássicos, Vitor Hugo, Dostoievski entre outros. E a escrita, nos primeiros meses, se tornou bordado. Bordei livros para minha neta pequena: A abelha e o vagalume; e A libélula e a joaninha. Do bordado passei ao crochê e fiz o figurino inverno/ verão para as bonecas Barbies da neta do meio, e os vestidos das princesas. Eu, que nunca tive paciência alguma, me vi diante de tutoriais, fazendo, desmanchando , refazendo até o vestido sair do tamanho e do modelo proposto. Atividade totalmente meditativa. Saíram colchas, suplás, bolsas.
Levou um tempo para que eu não mais conseguisse ficar sem ver e abraçar meus familiares, passei mal fisicamente diante da morte de uma amiga, e me fui para casa do filho mais velho. O caçula estava sempre ali comigo, o que me permitiu o enfrentamento e a criatividade. O convívio na família me fortalece. Voltar a brincar com as netas, fazer desfiles, pintar em pedras, plantar, colher, andar de balanço, caminhar pelas ruas da pequena cidade onde moram. Uma cidade mágica, onde, pelas manhãs o céu fica repletos de balões. O balonismo ali é uma atividade de turismo. Mesmo com a pandemia, alguns turistas se arriscavam.
Com meu grupo de escrita criativa, seguimos de forma online uma escrita a cinco mãos. Exercícios e novos aprendizados sobre o conto. Encontros virtuais, onde podíamos colocar as fofocas em dia. E a saudade, de ir a um café, ao teatro, ao cinema, isso que antes parecia tão comum, que nos dávamos ao luxo de muitas vezes abrir mão. As viagens, ir a Poços de Caldas, para feira do livro que deve que ser adiada, de ir a Campo Grande, ver a família. Ir para Europa, viajar sem rumo, projeto engavetado.
A TV, também pude assistir ao que quis, pois o noticiário, quando visto , nos mostrava o horror do número cotidiano de mortes de pessoas. O empobrecimento de tantos outros e o desgoverno de nosso país.
Penso que vivemos um mundo machadiano de seu conto “O Alienista”.
Reinventamo-nos e seguimos, agora com sonhos e projetos em curto prazo. A ceifeira está na nossa soleira, temos que ser cuidadosos. A casa, o lar é um universo infinito. Lançamos uma ponte aqui outra ali e na maciota vamos ganhando mundo.



Cadastre-se no portal Escrita Criativa para receber dicas de escrita, artigos e informações de concursos

 

 

Comentários:

Magaly: impressionante como com tua suavidade cacterística, tua crônica nos mostra, que sempre ha um caminho e que é possível fazer escolhas, deixar para trás as coisas que nem nos fazem falta. Uma leitura fácil, parece que estás conversando tranquilamente com teus leitores, num barzinho de esquina, um chopinho gelado e com todas as mil ideias que povoam o teu cérebro. Parabéns!

Tusnelda Marins, Porto Alegre/ RS 10/08/2021 - 18:45

Envie seu comentário

Nome :
E-mail :
Cidade/UF:
Mensagem:
Verificação:
Repita os caracteres "302310" no campo.