Crônicas

A ideia da morte pode ser pior que a morte

Tusnelda Marins
06/08/2021






A ideia de morte pode ser pior que a morte


Eu estava jantando num restaurante quando, de repente, comecei a ouvir uma conversa sinistra entre duas mulheres na mesa ao lado da minha. Falavam sobre a morte e o desejo de morrer. Eu fiquei impactada. Não passo nem na frente de cemitério, o que dirá desejar ver a morte cara a cara? Procurei me distrair com o celular, mas chegavam até mim pedaços de conversa: o Pedro.... sim, ontem mesmo. Aproveitou estar soz...
Num impulso, chamei o garçom e pedi a conta. Rapidamente, deixei o local. Liguei o carro e saí na disparada, para bem longe do meu medo. Sim, porque todo mundo tem um medo né, mas o meu era medo pavoroso.
Já perto de casa, na avenida, vi uma igreja iluminada, em plena pandemia. Estranhei, mas pensei que seria bom para mim rezar e recuperar a calma. Estacionei na rua lateral, entrei, de longe avistei o altar, havia um clima pesado, a igreja estava vazia. Apenas um padre solitário, com uma bíblia na mão, olhava fixamente para o átrio. Sentei num banco e comecei a observar o padre. Vi que falava sozinho, e que o rosto de um branco total se contorcia, no ritmo das palavras que expulsava rapidamente de sua boca. Seus dois olhos vermelhos me encontraram e ele começou a caminhar na minha direção, sempre falando. Eu surtei. Saí correndo, peguei o carro e voei para o condomínio. Nem registrei o porteiro me deixando entrar. Desci, e, no elevador, senti aquela impressão esquisita de que havia alguém nas minhas costas.
Entrei no apartamento, fui acendendo todas as luzes. No quarto, me atirei na cama, puxei o edredom macio como abraço de mãe, quando vi nitidamente recortado na janela aberta um vulto esbranquiçado, com os olhos do padre.
O grito foi ouvido em todo o meu andar, as pessoas começaram a bater na minha porta, mas eu não conseguia sair da cama, nem atinava abrir os olhos. De mim, só tinha sobrado o medo ancestral de pular daqui para lá.


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Comentários:

Tusnelda Maris, estava com saudades dos teus escritos. Sim estamos com a ceifeira na nossa cola. E isso é muito pesado e tenso. Para enfrentarmos esse desafio, se faz necessario, muita criatividade e paixão. Desde que nascemos sabemos que iremos morrer, diferente dos demais seres vivos do planeta. Agora a morte,pode ser de algo que não queremos mais. E nessa pandemia, eu pelo menos, deixei para trás um bocado de atitudes, gostos, hábitos que não me faziam bem. Eu gosto que tu com as palavras nos prende, nos tira o folego e no fim algo totalmente inesperado e aberto.

MAGALY ANDRIOTTI FERNANDES, Porto Alegre 10/08/2021 - 00:12

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