Crônicas

A grande viagem

Jacira Fagundes
20/08/2021


Li outro dia um texto de autoria desconhecida intitulado “A certa”. Trata de tema bruxuleante, funesto, um lance certeiro na mosca, aliás, a mosca é cada um de nós. Porque o autor evoca nada mais nada menos do que aquela, a da face cruel, a que não está para brincadeiras, a que sempre acerta a pontaria, a que nos leva para a grande viagem, para o descanso eterno, e a gente nem pediu. Ela mesma, a própria.

O sujeito escreveu o texto fazendo-se de sonso, parece não estar nem aí. Mas eu poderia afirmar que está, porque ela, afinal, é a única certeza nesta vida cheia de incertezas. Vai ver, estamos tão acostumados com o incerto da vida que a coisa certa nos perturba. A cada final de ano, brindamos, enviamos votos de paz, amor, saúde e felicidade. Desejamos um novo ano radioso e próspero para todos, indiscriminadamente. Ingenuidade. Quem não sabe que isto não vai acontecer assim cem por cento? Ficaremos felizes se a dita cuja não fizer ameaças logo ali na entrada do ano e, pelo menos, deixar-nos garantir o gozo das férias planejadas na dureza. Ou se nós mesmos, e ainda pais, irmãos, filhos, netos (já é o bastante), nos fingindo de mortos, conseguirmos manter distância da mira dela.

Eu, por exemplo, procuro ser modesta quanto aos pedidos de virada de ano. Você sabe, aqueles velhos conhecidos – paz, amor, saúde, dinheiro. Se forem muitos, vá que na substituição de uns pedidos por outros, a morte não hesite e faça das suas e se apresente poderosa, sedutora, íntima, insistente? Sabe-se lá. Antes a satisfação de pouco do que de nenhum.

Tem gente aí fazendo os maiores sacrifícios para não encarar a partida. E ficam driblando aqui e ali, passando a bola para outros que talvez nem estivessem na fila. Suponho.

Incertezas. É com isto que estamos habituados. E com torcidas. Torcemos para que nosso time vença o campeonato, que nosso filho passe no vestibular, que seja nossa a única vaga no concurso, que o companheiro nos seja fiel, que este relacionamento, afinal, se instale de vez, que tenhamos sucesso na carreira, e por aí vai. Somos bons nisso. Também costumamos ficar na torcida em momentos bem prosaicos. Tomara que o meu post no face tenha uma infinidade de visualizações, e queira Deus que a carga do celular dure até o fim da viagem, e que este vestidinho ainda sirva agora que parei a dieta, e que eu acerte as seis dezenas da mega, e que nesta viagem à Escandinávia eu encontre, de verdade, minha alma-gêmea. Ufa!

Banalidades que nos fazem sentir a delícia da vida fluindo. Na incerteza, sim. Onde não vislumbramos paradas, limites, interrupções, interferências. Onde focamos o olhar num futuro sempre belo, luminoso, fugaz, mas grandioso. Na incerteza nada é para sempre. A gente não se importa com a perenidade, nos sabemos perecíveis. Um dia o amor acaba, a grana encurta, a saúde fica abalada, e no outro dia, um outro amor nos surpreende, um empréstimo nos tira do sufoco, a ciência nos oferece uma mãozinha.

Até o dia em que aquela que nos ronda cansa deste esconde-esconde e nos convoca para o enfrentamento. Soa o apito, o juiz sinaliza que o jogo acabou. Só nos resta sair de campo e empreender a grande viagem.

Sem retorno? Sem uma nova chance? Tomara que não.


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Comentários:

Muito, muito boa tua crônica. Tornaste o inevitável palatável. A morte não significa mais um assombro, um medo, ela passa a ser parte da vida. E assim, vivemos melhor. Parabéns!

Tusnelda Marins, Porto Alegre/ RS 21/08/2021 - 10:03

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