Viagem à Terra do Nunca - Peter Pan

Jacira Fagundes

55ª Feira do Livro de Porto Alegre
I Seminário da Confraria Reinações: Porque ler os clássicos da literatura infanto-juvenil
Viagem à Terra do Nunca – Peter Pan
Considerações sobre o tema por Jacira Fagundes

Da obra: Peter Pan (1911)
Autoria de James M. Barrie (1860 – 1943)
Tradução de Ana Maria Machado
Editora Salamandra


Nas primeiras páginas o autor nos descreve com minúcias a Terra do Nunca e fala da variedade possível de terras do nunca que pode existir dependendo das mentes e das fantasias que habitam as cabecinhas de todas as crianças. São as mães que limpam as cabeças das crianças destas fantasias que podem ser amedrontadoras, especialmente para elas. Já as crianças as conhecem muito bem e desde cedo. Nós, adultos que somos, estivemos um dia nestas terras que possuem certo ar de família, onde vivem em harmonia a magia e a realidade, cuja entrada nos está barrada para sempre.

Peter Pan está no limite entre o ser e o não-ser de verdade. Entre as tantas coisas que a Sra. Darling encontrava nas faxinas que fazia na cabecinha dos filhos, estava a palavra Peter, e ela própria, em dado momento começa a perceber que também na sua infância conhecera Peter Pan, aquele que vivia entre as fadas. Ela hoje deixara de acreditar e até estava convencida de sua não-existência.

Peter Pan começa a deixar sinais de sua presença como se a fantasia se materializasse –as folhas espalhadas pelo chão no quarto das crianças constituem a primeira prova do que virá a seguir.

A primeira pessoa a ver Peter materializado, fora do sonho, é a Sra. Darling – um menino lindo, vestido de folhas e do limo que escorre das árvores, tendo ainda todos os dentes de leite que põe a ranger para ela. Peter foge assustado mas deixa a sombra. Podemos pensar aqui sobre o significado que o autor pretendeu dar ao termo sombra. No imaginário pode ser algo bem simples de se entender ; corpo e sombra são de natureza diferente e se descolam por nada. Mas poderá ter outra conotação; sombra é o escuro, a escuridão que pressupõe o mistério e o perigo; ou ainda a marca da presença que fica para sempre depois do acontecido, para o bem ou para o mal. Então a sombra aqui está ligada a algo assustador e a Sra. Darling, porque é adulta, pressente e se atemoriza.

Ao voltar naquele dia fatídico para buscar a sombra, Peter se revela a Wendy – um menino convencido, que não sabe que idade tem, que não aprecia mães, que não quer crescer. Interessante a explicação que ele dá sobre as fadas: quando o 1º bebê riu pela primeira vez, a risada dele se quebrou em mil pedacinhos e cada um dos pedaços virou uma fada. As crianças hoje sabem tanta coisa que cedo deixam de acreditar em fadas. E cada vez que uma criança afirma não acreditar em fadas, uma fada morre em algum lugar (e Barrie escreveu o livro em 1911).

Todos voam juntos para a Terra do Nunca guiados por Peter Pan. É uma viagem com muitos perigos e é preciso aplacar o medo e confiar em Peter, que nem sempre se mostra confiável, ele brinca todo tempo, e quer mostrar sua bravura e peraltice mais do que ensinar a voar com segurança.

A Terra do Nunca, que parecia assustadora durante o voo na escuridão, acorda com a chegada de Peter Pan. Peter é extremamente gentil com Wendy, isto é demonstrado durante o tempo em que a cabaninha para a menina é construída sob as ordens de Peter. Ele é um menino doce, porém muitas vezes interrompe os trabalhos dos meninos perdidos insistindo em atitudes que, para os demais é apenas faz-de-conta e para Peter é realidade. Peter não distingue o que é verdade do que é faz-de-conta e isto muitas vezes atrapalha. Outra característica que o autor insiste em revelar no personagem. Peter é uma criança teimosamente infantil. E aí reside a diferença entre ele e os meninos perdidos, a brincadeira para ele nunca cessa e quando acontece ter de acabar, Peter se frustra, como qualquer criança birrenta. Por ex: as idéias alheias passam a ser suas idéias e suas decisões, o que vem a ser a própria onipotência, e os meninos acatam porque é de Peter o poder. 

Na Pedra do Desterro, que narra desde os momentos que antecipam a chegada dos piratas, trazendo Lírio Selvagem , a princesa índia amordaçada, o leitor acompanha com extremo fascínio o desenrolar das cenas. Peter tem um sorriso no rosto, a denunciar seu fascínio pela aventura. Wendy teme porque, mãe em que se transformou na Terra do Nunca, ela conhece este sorriso com sabor de rebeldia e atração ao perigo e sabe que poderá ser fatal. 
A luta com Gancho é uma luta desleal. Peter o ajuda a posicionar-se em igualdade de condições e recebe uma dentada que o paralisa. Aqui é retratada pelo autor de forma sublime a inocência versus injustiça. Peter deixa-se ferir duas vezes pelo gancho.“Ninguém, jamais, consegue dar a volta por cima da primeira injustiça. Ninguém. A não ser Peter.”, são palavras do narrador. Para a criança, toda injustiça é sempre a primeira que surpreende, paralisa e causa muita dor. 

O capítulo A história de Wendy, onde é contada a história verdadeira da família de Wendy, é o começo do fim em matéria de fantasia. Peter se magoa, mas não quer demonstrar; constata outra vez seu desprezo às mães, deixa Wendy afastar-se e fica só.

Quando se vê salvo por Sininho, que ingere por ele o remédio envenenado preparado por Gancho, surge mais uma vez a questão das fadas. Sininho só não morre pela ação de Peter: ele ergue os braços e grita para todas as crianças ausentes da cena, porém presentes na imaginação: - Vocês acreditam? Quem acreditar bata palmas. Não deixem Sininho morrer. Nem todas as crianças acreditam, mas ainda existe um exército delas que dá vida às fadas. Há sempre uma esperança, portanto.

“Desta vez é Gancho ou eu”, é uma frase que é uma promessa, um comprometimento que Peter se propõe. A luta final é extraordinária, nós não conseguimos evitar o assombramento com a inteligência do personagem, com a coragem e principalmente com o heroísmo. O mesmo menino que ainda há pouco dormia desamparado é neste momento o herói que rouba toda a cena.

O poder muda de mãos após a morte de Gancho; mas a força do poder traz em seu bojo e envaidecimento e o desprezo pelos comandados o que leva o leitor a pensar que Peter não só odiava Gancho, como também o admirava ao ponto de imitá-lo inclusive no gesto da mão simulando um gancho com os dedos.

O sofrimento é grande no final, quando Peter constata que Wendy e Miguel cresceram. Há dor e decepção. Mas há Jane, filha de Wendy e depois Margareth, filha de Jane e todas as meninas que nesta fase da vida acreditarão nas fadas e seguirão Peter em seus voos de sonho. O final deixa no leitor uma enorme nostalgia, porque nós, leitores adultos, também crescemos ao longo da narrativa e temos que fechar o livro e voltarmos para nossos afazeres.

Peter Pan é atemporal, como obra e como personagem. Ele é a criança apaixonante que carrega entre seus dentinhos de leite a seiva da doçura misturada à rebeldia, coragem e destemor. A criança que gostaríamos de ter sido na infância para não ter de carregar na nossa adultez tantos sentimentos contraditórios e questões não resolvidas. E eu, (acredito que também meu companheiro de mesa) encontro esta criança e este jovem ao dar vida a personagens nas histórias que narro em livros e me permitir viver um tanto de suas aventuras como salvação.

 

 

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