Papel Crepom

Jacira Fagundes

Estava naquela escadinha ao lado do altar principal, entre guardanapos bordados, tricôs de mantas, luvas, vasos com flores de seda feitas por mãos habilidosas. Mantinha as mãozinhas em forma de prece, junto ao peitinho de seus cinco aninhos. A camisolinha de cetim branco cobria até os pezinhos. Os cabelos louros encaracolados davam um aspecto angelical àquela menininha. E, não bastasse isto, presas às costas, duas grandes asas recortadas e cobertas de tiras encrespadas de papel crepom, que ao menor movimento faziam um ruído delicado.
Aquelas asas, que fim teriam levado?
Tinham sido feitas pela mãe da menininha, que orgulhosa da beleza da filha, a enfeitava de anjo em todas as festas da igreja.Principalmente em dia de primeira comunhão. Era a mais requisitada para as fotos.
Festas passadas, as asas eram colocadas numa caixa de papelão grande e guardadas para outra data oportuna.
- Mãe, posso ver as minhas asas?
- Não menina, não incomoda.
Uma tarde – a mãe ausente –, subiu numa cadeira e apanhou a caixa no armário. Vestiu a camisolinha branca, amarrou como pode as asas e ainda colocou na cabeça a estrela prateada que sombreava seu olhar azul. Saiu animada e caminhou entre as flores do jardim, cuidando para as roseiras não maltratarem suas preciosas asas. Satisfeita retornou ao quarto e guardou seus pertences valiosos, seu tesouro. Imaginava que sempre teria suas asas. De tanto uso porém, foram se desgastando.
Mas sempre que ficava triste, agora já velha, vestia na imaginação aquelas asas, as suas primeiras, que então a levavam para lugares lindos, incríveis, energizados donde voltava confiante. Era feliz de novo.




Vera Spiess Moreira é professora aposentada, dedica-se às artes plásticas e à literatura. Frequenta a Oficina de Literatura do Clube de Mães Vila Assunção. Participou das antologias “Textos de Oficina” em 2005 e 2006, sob a coordenação de Jacira Fagundes. Foi co-autora, em 2007, da obra intitulada “A mão que move as peças”. Teve um de seus contos da obra – Adolescência – selecionado e apresentado em jogral por alunos da Escola CAIC na III LITERARTE – III Jornada de Literatura e Arte, da cidade serrana de Gramado. 

 

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