Meias Trocadas

Jacira Fagundes

A escritora Scyla Bertoja presta contribuição no site com o excelente conto de sua autoria.

MEIAS TROCADAS 
(Scyla Bertoja)


Não quero ser a primeira. Finjo dormir. Nos últimos cinco anos já aprendi alguns truques. Aquelas vozes rasgadas, agudas, incultas, invadem o quarto, circundam as camas. Moldura sonora dos nossos pesadelos noturnos. A gritaria precede o abrir de cortinas e persianas derramando claridade em nossos olhos ainda colados. Em seguida, braços fortes e mãos geladas, quase sempre úmidas, nos agarram e nos levam, meio arrastadas, para o banheiro. Às vezes, para adiantar serviço, duas ao mesmo tempo. Fraldas molhadas, ou até pior. Cheiramos mal e o sentimento é de vergonha, constrangimento. Por isso, e não por preguiça, como querem alguns, seguimos reclamando pelo corredor, o que não chega a comover as pessoas que nos amparam. Depois, à medida que somos lavadas, enxugadas e vestidas com roupas limpas e secas, vamos reconquistando a sensação de sermos, outra vez, humanas. Penso que aquelas que já perderam a consciência são mais felizes, pois não demonstram alguma repulsa em relação a seus corpos tortos e ao mau cheiro ao acordar, indiferentes à humilhação e ao ridículo. Raramente opõem resistência aos modos bruscos de alguma atendente mais grosseira. Mas há sempre uma ou duas que não querem sair. Silenciam tão logo são colocadas embaixo do chuveiro, esboçando até, por vezes, um arremedo de sorriso idiotizado, senil. Braço rígido, mão em garra, aquele andar de cãozinho atropelado, o medo e a insegurança das cegas, são coisas normais na casa. Ninguém mais usa óculos. De nada serviriam. Acho que a visão de algumas delas se compara à “Aurora no Castelo Norham”, tela pintada por Turner, de concepção quase abstrata, que tem como tema uma mansão sobre o rio Tweed. Havia uma reprodução dela no consultório do médico que me operou pela primeira vez. Lindíssima. Mas não permitia individualizar absolutamente nada. 

O desfile matinal não é exatamente um espetáculo plástico de grande elegância. Restos humanos, aleijões, indigência mental, elas vão sendo acomodadas à mesa do café com respeito e até carinho, pelas funcionárias, com direito a cafuné, tapinha nas costas, um que outro beijo no rosto ou nas mãozinhas enrugadas e cheias de manchas. As cabeças vão do grisalho ao branco amarelado. 

Apesar do ambiente em que vivo, meu conhecimento sobre doenças é parco. Fico atenta ao modo como emagrecem rapidamente, mesmo alimentando-se com freqüência e em abundância. Ficam enrijecidas e se movimentam com dificuldade. Ao falar, confundem os sons e produzem discursos ininteligíveis. No entanto, parecem saber o que estão tentando dizer. Em seguida esquecem tudo. Algumas delas demonstram uma espécie de dualidade. Dão respostas claras e lúcidas, emitem sua vontade, mas, ao relatar algum episódio de suas vidas, agregam histórias que não aconteceram na realidade – fabulação. É somente para preencher, no cérebro, os espaços que não podem ficar vazios. 

Minhas companheiras, com raras exceções, foram, como eu, trabalhadoras, durante o período mais produtivo de suas vidas. Há também profissionais liberais entre nós. A doença e a idade a todos nivelam. A senilidade não respeita diplomas e títulos honoríficos.

Chega a minha vez. A humilhação de depender dos outros para exercer os mais simples atos da vida já seria suficiente para desesperar, mas não fica por aí. Sirvo também de galhofa para as jovens que me garantem esse mínimo de dignidade que é andar limpa, razoavelmente vestida e alimentada. Riem do meu corpo mal feito e dão apelidos chulos aos meus órgãos genitais. Poderiam lavar-me sem mencioná-los em seu linguajar rasteiro. Mas se comprazem ao me ver irritada. A quem me devo queixar? Serei bem tratada após receberem as reprimendas de seus patrões? Ou serei alvo de uma perseguição corporativa? Tenho tentado parecer indiferente - sem grande sucesso - ou argumentar diretamente com meus anjos da guarda. Elas são profissionalmente qualificadas, mas nem todas trazem de suas famílias a educação e a sensibilidade necessárias ao entendimento da nossa situação. Um dia ouvi um comentário assim: Minha bisavó também teve esses problemas e ficou em nossa casa até morrer, e nunca incomodou ninguém. Fiquei pensando e cheguei à conclusão de que há coisas que não podem ser compradas. 

Morando neste lugar, às vezes lembro do canil onde costumava deixar Tolstoi quando viajava por alguns dias. O veterinário estava lá diariamente. As instalações eram muito limpas, e até a música ambiental e a climatização eram adequadas ao gosto e à necessidade dos cães, para evitar o estresse. Meu poodle branco adorava ficar lá, apesar da saudade que sentia de mim. 

Na sala de música, enquanto espero para colocar os fones e deliciar-me com a Quinta Sinfonia de Beethoven, uma colega, indignada, conta que, às vezes, observando os próprios pés, não reconhece as meias. Tem certeza de que não são suas. Uma de minhas vantagens, talvez, respondo, amarga e sarcástica. Não tenho esse problema. Não possuo pernas. 

 

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