O politicamente correto na literatura voltada à criança

Jacira Fagundes

Antes de situar o politicamente correto ou (in)correto, o que vem a ter a mesma conotação, porque se está falando da mesma coisa, quero desenvolver o conceito de correção em algum segmento do conhecimento.

Excetuando as ciências exatas onde a correção não é questionável, correção, nos segmentos das demais – ciências sociais, moral, ética, filosofia, sociologia, psicologia, ciências econômicas e outras tantas, o correto é um conceito relativo.

Daí que estabelecer o que é correto ou não para uma sociedade, ou grupo de indivíduos, e principalmente para o segmento das artes em geral é de uma imprecisão insustentável. É nas artes em geral que se estabelece o uso da plena liberdade, e até o abuso. Convive-se constantemente com polêmicas quanto à arte contemporânea,

Para citar um exemplo, ameaçada muitas vezes de não se constituir arte, porque mal entendida ou suscetível de preconceito.

É impossível identificar o que é correto ou incorreto nas artes visuais – a pintura, a escultura, o desenho, a ilustração de obra literária. Ou na arte literária, no que diz respeito ao texto – a abordagem do tema, o enfoque, o discurso. Como então determinar uma política de correção? Como estabelecer os limites para a produção textual, do que se pode abordar, o que não se deve abordar. E para a ilustração, o que pode expressar e o que se deve ocultar. E como estou citando o texto ilustrado já estou trazendo o livro de literatura infantil e juvenil que costuma oferecer as duas leituras na mesma obra. E simultâneas: leitura da imagem ou ilustração e leitura do texto ou palavra.

O aspecto que mais diz respeito  aos  escritores de obras infantis e infantojuvenis, é a obra em si, que deve conter um texto que interesse ao leitor em formação, que o cative, que lhe permita experimentar emoções de alegria, medo, ansiedade, prazer e até de tristeza e raiva. Emoções estas que os pequenos vivem em sua realidade e apreciam retomá-las na ficção como uma brincadeira, um faz de conta, um imaginário, a coisa  lúdica, porém livre e esclarecedora.

Mas é o adulto o autor da obra infantojuvenil. E o que escrever e como escrever para crianças, permanecendo adulto? A meu ver, é preciso buscar na memória a sua criança. Não propriamente cenas passadas e vividas, mas principalmente estabelecer contato com sua criança que ficou lá para trás, mas sempre presente. Deixá-la brincar, soltar a imaginação, rir, aventurar-se, transgredir, encarar limites, vivenciar a curiosidade. São traços inerentes a todas as crianças, mesmo as de hoje, as que lidam com computadores, tablets, celulares e  games.

 Também estabelecer contato e dialogar com a criança de hoje, que difere da criança de ontem justo pela mídia. É uma criança que assiste e interage em programas televisivos e virtuais, que cumpre agenda, que ataca muitas frentes simultaneamente (judô, natação, inglês, shopping, turno inverso, a propaganda e a informação indiscriminada).

E, por fim, e o que acho mais instigante e difícil para este adulto que escreve, que entra num terreno de fantasia para criar uma história infantil para o “ser criança” –  o “ser adulto” que precisa posicionar-se mantendo-se longe do texto.

O politicamente correto, neste caso, e isto é garantia de um texto de qualidade, é que este autor adulto pense o “ser criança”. Que seu pensar adulto não interfira, que a  voz que costuma aconselhar, educar, assistir, punir, ensinar, estabelecer limites, proteger, moralizar ou socializar, todas estas ações que cabem ao adulto na realidade, que se as evite na ficção pois que o livro infantil é terreno infantil.

Claro que a ideia que o escritor tem da criança para a qual direciona sua obra, será sempre compatível com os valores estabelecidos e sua concepção de mundo, que se deseja naturalmente sadio em todos os aspectos.

Incorreto seria estabelecer a priori o que pertence ou não pertence ao universo infantil e negar a existência de matérias que igualmente ocupam a mente infantil  mas que é considerada tabu ou assunto polêmico por alguns, como morte, violência, preconceito, desejo e sexo por exemplo, por julgarem inadequadas ao universo da criança.

 Isto ocorre, por vezes, com o autor da obra infantil e não raras vezes, com o próprio Ministério de Educação quando da seleção e indicação de livros para uso das escolas.

Literatura é arte, e como toda arte não prescinde da liberdade, muito pelo contrário, a arte é libertária. A maior ação da arte é justamente questionar o mundo.

A obra infantil ou literatura infantil não se afasta do mesmo conceito. Sua função é aventar com possibilidades de invenção do mundo, e para tal, precisa criar espaço para pensar, discordar, duvidar, sugerir, reorganizar e transgredir. Espaço para o contraditório e a ambiguidade, para o diálogo com a obra e a experiência pessoal, para a identificação e a estranheza, para o conhecido e o diferente.

Quanto mais leituras o texto literário infantil suscitar, maior será a sua contribuição para a informação e formação da infância na sociedade. Priorizando a  justiça e a fraternidade,  mais do que a correção do ponto de vista  político social.

 

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