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Literatura

Na boca do dragão vermelho
Celso Sisto



A arte milenar é agora o dragão vermelho e imortal, princípio de vida, força, poder e brilho. E por tudo isso, vai funcionar aqui como metáfora da criação artística anônima, antiga, largamente divulgada e persistente.

A literatura popular ou tradicional nunca sai de moda! Prova disto é a freqüente re-edição de coletâneas de contos populares, mitos, lendas e fábulas. O fascínio pelas obras que atravessam os tempos é sempre renovável. Claro, há uma gangorra nisto tudo: uma obra deixa de ser foco de interesse por uns tempos, volta às manchetes num outro momento, vira a coqueluche do leitor adulto, interessa às novas correntes de pesquisa universitária, deixa de interessar, é redescoberta como literatura para crianças e jovens... Enfim, há uma dinâmica, sempre rumorosa, mesmo que em baixo volume, por trás da cultura popular, como o cupim, trabalhando na madeira! Basta apurar os ouvidos! Ou, quem sabe, os olhos, para ver o dragão, atravessando os ares e cuspindo fogo!

Pois numa dessas felicidades veio à público o livro 50 fábulas da China fabulosa, organizado e traduzido por Sérgio Capparelli e Márcia Schmaltz. As fábulas deste livro são bem variadas, e vão desde as moralizantes até as mais irônicas. Mas, contrariando o que é corriqueiro em livros de fábulas, há neste a moral aberta, se repartindo em muitas e o triunfo da inteligência: as situações são para pensar e não para impor uma lição ao leitor! Alguns desfechos comprovam o final aberto e não dogmático, expressos em frases do tipo “o general não soube o que dizer”( em O velho e o arqueiro) ou “o homem não soube responder” (em O homem que vendia lanças e escudos) ou “o sábio da curva do rio não soube o que responder” (em O velho louco que removeu as montanhas). Se há alguma tentativa doutrinária, ela é fluida, e não está calcada no tom autoritário, tão comum neste tipo de texto! Vejamos, por exemplo, o desfecho da fábula A corça e o tigre: “os que são despóticos e avarentos como os tigres bem que poderiam aprender esta lição”. E tudo fica então, suavizado e relativizado!

As fábulas do livro são de diferentes autores e de diferentes períodos da História chinesa. Para nós, ocidentais, o mais antigo fabulista é Esopo (La Fontaine também é dos mais conhecidos). Mas há aqui, neste livro, fábulas que precedem às do fabulista grego, originárias de longínquas dinastias e registradas por diferentes escritores, em diferentes estilos. Uma das mais saborosas é “O amor pelos dragões” , de Shen Buhai, jurista do reino de Zheng, supostamente do período que vai de 385 a 337 a.C.

“Zigao, o Senhor de Ye, gostava tanto de dragões que havia mandado esculpir e pintar vários deles na sua casa e nas louças e só vestia roupas que tinham dragões bordados.

O dragão do céu, sabendo disso, desceu à Terra, entrou com a cabeça pela porta da casa e enfiou a cauda na janela. Ao perceber o que estava acontecendo, o Senhor de Ye fugiu, morrendo de medo.

Isso mostra que o Senhor de Ye não gostava verdadeiramente de dragões. Ele gostava daquilo que parecia ser um dragão, mas não dos dragões de verdade”.

O livro cobre o período que vai do século IV a.C. até o século XVIII. Neste tempo, tão extenso, destaca-se a possibilidade de apreender os valores culturais e as diferentes tradições chinesas: os mandarins; os dragões (que significam “imperador”, na história antiga); os poderes (monge, rei, ministros, príncipes, oficiais, etc.); o homem comum, ligado à natureza e ao meio rural; o feio e o bonito; o pobre e o rico; o jovem e o velho sábio; a matéria e o espírito. Enfim, o sistema filosófico de Confúcio, base da cultura chinesa, sedimentado na benevolência, no amor filial, na lealdade e na justiça, cabe bem em qualquer época. Daí, o predomínio, no livro, do caráter filosófico (e poético, algumas vezes), mais que o pedagógico, como em “Amolando uma barra de ferro”, de Chen Renxi (1581-1636):

“Quando era pequeno, o grande poeta Li Bai não gostava de estudar. Um dia encontrou uma senhora idosa na calçada, amolando uma barra de ferro. Ele ficou curioso e perguntou o que ela pretendia fazer.

- Pretendo amolar essa barra de ferro até que ela vire uma agulha bem fina, para que eu possa costurar um vestido – respondeu ela”.

Após isso, Li Bai compreendeu o que ela estava querendo dizer e, mais tarde, tornou- se um grande poeta.

Os autores traduzem direto do chinês (antigo e moderno), consultam as traduções do inglês e do francês, mas tentam manter o texto integral - recontado ou adaptado, como eles mesmo dizem, apenas em um ou outro caso.

Fábula acaba sendo aqui um nome genérico para essa literatura de textos curtos, enxutos, sintéticos, contados sem floreios e com função no mínimo reflexiva, que fazem animais terem comportamentos humanos e vice-versa, na tentativa de explicar as relações dos homens com o mundo. Portanto, cabe neste rótulo, o que poderíamos chamar também de parábolas ou, por vezes, de contos (como, por exemplo, O lobo de Zhongshan) .

A edição é caprichada. Os textos estão em chinês e em português, e as cores das páginas, muito apropriadamente, se alternam entre o preto, o branco e o vermelho.

Também merecem destaque as ilustrações feitas em papel recortado. São silhuetas que funcionam como flashes, como instantâneos, condensando em imagem o que é mais importante em cada história. Essa também é uma arte popular na China milenar, denominada jianzhi. Os papéis usados são papéis de seda, monocromáticos, e as incisões são altamente delicadas.

Sérgio Capparelli é mineiro, jornalista, foi professor da UFRGS e tem mais de 30 livros publicados. Em sua produção, destacam-se os livros infanto-juvenis, especialmente os de poesia. Já ganhou 4 vezes o prêmio Jabuti, na categoria de livros infanto-juvenis, bem como vários prêmios da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ).

Márcia Schmaltz é professora e tradutora-intérprete do chinês, e já ganhou o Prêmio Açorianos de Literatura na categoria tradução.

Trazer para o Brasil a sabedoria ancestral e milenar da China – em histórias que ainda não conhecíamos por aqui, é também revitalizar a tradição brasileira. Se temas, construções narrativas e a restrita divulgação fazem destes pequenos textos, exemplos específicos do fabulário chinês, a proximidade entre o antes e o agora, a universalização dos vícios e virtudes humanos e a independentização do tempo e lugar sempre hão de nos aproximar.

19/03/2009

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Comentários:

seu bosta
eduarda, novo hamburgo 01/11/2012 - 09:16
gostei de suas histórias são legais e criativas
Anderson Adrian, sao leopoldo Rio grande do Sul 01/11/2012 - 09:14

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  Celso Sisto

Celso Sisto é escritor, ilustrador, contador de histórias do grupo Morandubetá (RJ), ator, arte-educador, especialista em literatura infantil e juvenil, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Mestre em Literatura Brasileira, pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Doutor em Teoria da Literatura, pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e crítico literário de várias colunas dedicadas à literatura infantil e juvenil, na mídia impressa e on line.

csisto@hotmail.com
www.celsosisto.com/
twitter.com/celsosisto


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