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Literatura

Cantares para acordar a poesia
Celso Sisto


Cantiga tem significação extensa. Melodia, canção, poesia destinada ao canto; tem embutida em si a palavra antiga, mas pode ser tão atual que a gente nem percebe sua história no tempo (embora se perceba seu rastro!). Cantiga é canção amiga; parece ter a ver com sussurro, coisa que embala e faz bem! Imagine então se a cantiga é de ninar? E se for cantiga de roda? Pois cantiga também é brincadeira, e cantar uma cantiga é por seu corpo inteiro pra brincar!

Vindas lá de muito longe, há as cantigas de amor, dos cavaleiros para exaltarem ou se queixarem das suas amadas. E as cantigas de amigo, em que as amadas falam dos seus amados!E as cantigas de escárnio e maldizer, feitas para difamarem alguém, para gozarem da cara de alguém, para satirizarem uma pessoa com ironia e duplos sentidos!

O fato é que a tradição da fala melódica, lírica - meio falada, meio cantada - como veículo do sentimento e como mediadora do diálogo entre as pessoas ainda é uma constante entre nós. Continuamos ávidos por menestréis, trovadores e saltimbancos, aedos e jograis que embalem nosso sonho! E que alimentem nosso imaginário! E que salvem nossa sensibilidade!

É por isso que o pequeno livro Cantigas de ninar vento chega até nós, ora como uma brisa leve, ora como um vento ligeiro que vai até armando tempestade.

Pra começar, o título é cheio de possibilidades: ninar o vento é aquietá-lo para que ele pare de soprar e dê trégua às nuvens, às árvores, ao mundo? Para que um sono gostoso e poético chegue até nós?! Ou ninar o vento significa a possibilidade de espalhar a quietude, a calma, a fantasia poética de um sono-sonho que vai chegando de mansinho, com o colorido do afeto da voz que embala? Esse vento “ninado” é capaz de espalhar paz no mundo? Derramar-se feito arco-íris depois da chuva? Não sei, mas os versos de Gláucia de Souza são!

São 15 poemas, de temas diversos: o caminho de cada um, o ritmo do tempo e das coisas, a amizade e as brincadeiras, o amor e o querer bem, o esquecimento, a tristeza, o crescimento, o tamanho do mundo. Alguns brincam com expressões populares, como “cantiga pra boi dormir”, que é prima-irmã da frase “história pra boi dormir”, que na cultura popular quer dizer “enrolação”, parente da “lorota” e da “embromação”! Outras trazem brinquedos populares (como barquinhos de papel). Umas são para dizer o quanto se gosta de alguém, outras para secar lágrimas. Mas as andanças e o tempo estão em quase todas! O caminhar, o encontrar e o chegar são os principais personagens da volta ao mundo nas palavras das cantigas!

O livro tem como grande tema, a liberdade. Há uma infinidade de céu que atravessa cada poema e uma imersão no azul que funciona como um serenar. E tem ainda a circularidade, como se o vento tivesse nos feito dar a volta ao mundo, para voltar ao mesmo ponto, mas claro, modificado. E nessa brincadeira de desenhar um trajeto (nosso trajeto) na superfície do mundo, os versos vão arredondando nossos conflitos, nossas dores, nossos medos e alisando as nossas arestas, pra que enfim, a poesia nos alcance.

Tem rima? Tem! Um tom de trovinha popular também fica invadindo cada poema do livro! Segundo verso rimando com quarto. Uns poemas com duas estrofes, outros com três, outros sem divisão nenhuma. Tem humor! Como a idéia de se dobrar, ficar pequeno, sumir de vista, ou quem sabe para caber em si mesmo? Como esse trecho do poema “Cantiga de dobra mundo”:

Fui na estrada mundo afora
e me dobrei ao ir embora!
Vim correndo e brinco agora:
mundo grande não demora...


Os elementos da natureza estão aos montes no livro, reforçando a idéia de que a poesia é parte integrante da natureza, seja ela a física ou a humana, porque unidas, dão origem ao divino. É isso o que faz a poesia, abrir caminho para que o nosso “divino” se expresse. Divina criação, divina criatura, divina arte de conviver com a linguagem de uma maneira que a fantasia e o encanto se entrelacem no cotidiano. E com doçura, como no poema “Cantiga quase sem som”: Tua voz corre lá fora,
bem em dia de virada.
Quase que ela não demora
a fugir da chuvarada...

Tua voz correndo ao longe,
não se ouve quase nada.
Parece prece de monge,
surda, leve, demorada...

Tua voz no meu ouvido
fica rouca, abafada...
mas só nunca que eu duvido
dessa voz em mel lavada...


Gláucia de Souza foi leitora da revista Recreio, brincou com contos de fadas e sonhava ser a Bela Adormecida. Gostava ainda de livros de mistério e admira Manuel Bandeira, Manoel de Barros e Clarice Lispector. Dos poetas para crianças, está marcada por José Paulo Paes e Cecília Meireles. Vive em Porto Alegre; é professora de língua portuguesa e literatura do Colégio de Aplicação da UFRGS, e tem mania de escrever seus poemas em cadernos e cadernetas.

Cristina Biazetto, a ilustradora, tem outras parcerias com Glaucia de Souza. E neste livro vai fundo no universo das imagens encantadas dos contos de fadas, dos castelos, moinhos, tranças, flores, princesas. As ilustrações dos poemas remetem para esse “era uma vez” que é ao mesmo tempo uma ausência de tempo e espaço, e um passado remoto que quer ser sempre presente na infância e futuro na memória. O azul é a cor do privilégio que dá passagem a peixes, balões, cavalos de madeira, árvores minúsculas, serras e montanhas deixadas ao longe e para trás. Cristina coloca nossos olhos nas alturas, porque é de cima que nos convida a ler as imagens, não por cima, que seria o superficial, mas das alturas, para preparar o mergulho, nas profundezas das palavras e das tintas acrílicas que criam camadas, para o trabalho do lápis de cor, contornando detalhes e transparências. É o lápis que parece dar o toque de flutuação, tão necessário ao clima de sonho neste baú de trovas tecidas de leveza como um lenço de voil.

O livro tem formato de encarte de CD, porque, de fato, traz de presente, ao final, todos os poemas musicados, com melodias de Jorge Hermann e arranjos e regência de Marcelos Nadruz, conduzindo toda uma equipe de músicos e cantores.

É um presente pra lá de multiplicado! Livro, álbum, cd e caderno de exercícios para a nossa sensibilidade poética. Você não quer provar?

17/06/2008

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Comentários:

Solicito informar a disponibilidade e preço deste livro-álbum-CD.
Grata,
Marisa
Marisa Oliveira, Salvador- Bahia 25/09/2011 - 18:10

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  Celso Sisto

Celso Sisto é escritor, ilustrador, contador de histórias do grupo Morandubetá (RJ), ator, arte-educador, especialista em literatura infantil e juvenil, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Mestre em Literatura Brasileira, pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Doutor em Teoria da Literatura, pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e crítico literário de várias colunas dedicadas à literatura infantil e juvenil, na mídia impressa e on line.

csisto@hotmail.com
www.celsosisto.com/
twitter.com/celsosisto


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