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Resenha

Clea
Luiz Paulo Faccioli

Aquela tagarelice rouca e a compulsão por demonstrar histeria lembravam-me uma doente mental transtornada! Aquela necessidade violenta de incriminar a vida, de explicar seus estados de espírito, lembravam-me um mendigo exibindo feridas para gerar piedade. Mentalmente era sempre um incômodo.

Na metade exata de Clea, e nas palavras pouco lisonjeiras de Pursewarden, surge cristalina uma parte substancial da resposta à minha própria indagação, feita lá no início deste projeto, quando ainda pensava no que escrever sobre Justine (primeiro livro da tetralogia O Quarteto de Alexandria, de Lawrence Durrell, do qual venho registrando aqui minhas impressões de leitura): por que afinal o livro não me havia me tocado como eu esperava? Encontrei, naquela ocasião, duas justificativas bastante satisfatórias — a expectativa frustrada e os problemas de tradução — às quais agora se une a robustez dessa terceira. Sempre esteve tão evidente, mas talvez fosse para mim constrangedor admitir que Justine era uma das personagens mais chatas que eu já havia conhecido. Pursewarden acerta em cheio no diagnóstico. Ocorre que Darley, o personagem-narrador, tem uma visão idealizada e obviamente distinta de Justine, por quem está seduzido. Isso estaria longe de ser um problema se o discurso não refletisse à perfeição o deslumbramento do narrador com sua amada. Ou, melhor dito, se não estivesse tão atrelado ao pensamento dela. Então, o que poderia ser um achado literário acaba corrompido. Simples assim, como sempre são as grandes descobertas.

Em Balthazar, é apresentada uma versão diferente do que talvez seja a mesma história. O narrador ainda é Darley, mas o personagem que dá título ao livro traz elementos novos e diferentes interpretações para fatos já relatados em Justine. Talvez por mudar bastante a ótica, e por introduzir duas belas histórias secundárias em relação ao eixo principal, o segundo volume me envolveu bem mais do que o primeiro.

Com Mountolive, a grande virada. A trama basilar dos dois romances anteriores passa a ser secundária em relação a essa nova, que vai aprofundar aquelas duas histórias já trabalhadas em Balthazar, além de enveredar pelo caminho totalmente inusitado dos bastidores da diplomacia ao contar a trajetória do personagem que dá título ao livro. Narrado em terceira pessoa, foi dos três o que mais me agradou, a despeito dos vários — e de incontornável abordagem — deslizes da tradução/revisão.

Eis que em Clea ressurge Darley para narrar seu retorno a Alexandria, após os anos de auto-exílio numa ilha mediterrânea em companhia da filha de Melissa e Nessim. Depois de entregar a criança ao pai, Darley procura retomar seus vínculos com a cidade, desfigurada pelas seqüelas da Segunda Guerra, que segue em plena vigência. Aí ele acaba se envolvendo com a pintora Clea. Histórias novas, e algumas reinterpretadas, vêm outra vez salvar o romance do pecado da falta de originalidade, tendo em vista a existência de seus antecessores. Passei por quase todas elas com o desdém de um connaisseur enfastiado. Uma ou outra conseguiu prender minha atenção; em especial, um caso fantástico — e ridículo — de magia, relacionado a homúnculos produzidos em laboratório... A transcrição de trechos do diário de Pursewarden, de onde extraí sua opinião sobre Justine e que possui o emblemático título de “Minhas conversas com o Irmão Asno”, dá uma boa idéia do caráter do narrador que vai nos guiar por mais de duzentas páginas. É impossível controlar um bocejo. E outro. E mais um. O problema é que não costumo comentar livros que não tenha lido até o final, por mais penosa que possa se tornar a tarefa. Tampouco havia como desistir do projeto faltando a última de suas quatro partes, embora fosse essa minha vontade.

Então, a páginas tantas, o grande susto. E sem ter sido Durrell o responsável pelo meu súbito despertar:

— Nesta rua tem um bosque que se chama solidão, dentro dele mora um anjo que roubou meu coração.

Assim, sem mais nem menos.

Não podia acreditar no que estava lendo: o trecho de uma brasileiríssima cantiga de roda na boca de Justine! Era absurda a hipótese de que a chata de galochas a conhecesse e portanto a recitasse no Egito, nos anos 40 do século passado!

Como não possuo a versão original da obra, socorri-me uma vez mais do amigo Sergio Faraco pedindo a ele que procurasse o trecho em questão na edição portuguesa de O Quarteto... Passadas umas poucas horas, veio a resposta:

Bruscamente ela soltou uma risadinha sardônica e dirigiu-se à borda do balcão para lançar fora a ponta do cigarro. Depois voltou-se e, com o ar sério que se toma ao propor um novo jogo a uma criança, bateu docemente palmas, recitando:

— Pursewarden e Liza, Darley e Melissa, Mountolive e Leila, Nessim e Justine, Narouz e Clea... Aqui está uma vela para lhes iluminar o caminho da alcova e um machado para lhes decepar as cabeças. A espécie de arabesco que desenhávamos devia poder servir para alguém; ou não passa de um fogo de artifício sem sentido? Somos seres humanos ou apenas uma coleção de fantoches poeirentos suspensos num recanto do espírito de um escritor? Creio que já fizeste a ti próprio semelhante pergunta.

— Por que falaste de Naruz?

— Depois de sua morte descobri cartas (...)


Cotejei-a, então, com a que estou trabalhando — e a única a que tive acesso até agora:

Deu uma risada irônica e caminhou até o parapeito da sacada para atirar na escuridão o resto ainda aceso do cigarro. Então virou-se e, parada à minha frente com uma expressão muito séria no rosto, como se estivesse brincando com uma criança, começou a bater palmas bem devagar, entoando a cada intervalo os nomes:

— Pursewarden e Liza, Darley e Melissa, Mountolive e Leila, Nessim e Justine, Naruz e Clea... Nesta rua tem um bosque que se chama solidão, dentro dele mora um anjo que roubou meu coração. Esse padrão deve interessar a alguém; ou seria apenas uma explosão de fogos de artifício, desprovida de qualquer sentido? Seriam ações de seres humanos ou apenas os movimentos de bonecos que podem ser guardados no canto da mente de um escritor? Imagino que já tenha feito essa pergunta a si mesmo.

— Por que mencionou Naruz?

— Depois que ele morreu, descobri cartas suas a Clea...


Credo!, como diria o Faraco, se ele já não o disse.

Não foi a mais agradável das experiências acordar assim para o que estivera lendo por todos esses dias. A partir daí, os defeitos da tradução tornaram-se evidentes em cada parágrafo que eu ia vencendo com a confiança agora completamente abalada: quanto daquilo que me incomodava podia ser atribuído a Durrell, quanto seria devido à tradução? Não havia como saber — e ainda não há —, salvo se eu tivesse condições de cotejar o original com a tradução, frase a frase.

Uma outra suposição cruzou então minha mente: talvez eu não estivesse tão enganado assim quando afirmei em Justine que a tradução era competente em sua essência. O desleixo talvez proviesse agora da pressa do tradutor em concluir logo seu trabalho. Talvez. O certo é que, de uma hora para outra, tudo me pareceu medonho. Assim como a imagem que Durrell me levou a criar de certos bairros de Alexandria, com seus odores, sujeira e pobreza. Aqui, ora são ênclises impossíveis (de novo elas!) — “reabilitarei-me”, “daria-lhe”, “formaria-se” —; ora, diálogos com frases de construção inverossímil — “estava olhando-me dormir?” —; e, em muitas situações, uma singela falta de bom gosto literário.

Mas, em meio a tanta turbulência, surgem passagens dignas de nota a mostrar que nem tudo está irremediavelmente perdido. Por exemplo, as já citadas “Minhas conversas com o Irmão Asno” incluem uma brilhante reflexão sobre o ofício de escrever, reveladora da agudeza do pensamento de seu autor. Foi o capítulo da obra onde meu lápis mais trabalhou para sublinhar frases como: “precisamos aprender a ler nas entrelinhas, nas entrevidas”, que encerra em seu neologismo uma precisa e poética definição de subtexto, ou “sabemos que a história da literatura é a história do riso e da dor. Os imperativos inescapáveis são: Rir até chorar e chorar até rir”, prova definitiva da lucidez de Durrell, a despeito das agressões que seu estilo sofreu em mãos brasileiras. É também nessas “conversas” que Pursewarden dá dicas ao colega Darley sobre a estrutura da tetralogia que o próprio Durrell adota, num inspirado exercício de metalinguagem.

Faltou referir a capa, como das outras vezes: agora, a foto de pequenos e mal conservados barcos, onde a cor ocre de um deles é repetida no fundo, criando um belo efeito. Além da plasticidade, há nessas precárias embarcações uma inequívoca alusão ao final do romance que, mesmo não sendo um dos melhores que a literatura já produziu, deixa no ar um toque de melancolia próprio das grandes obras.

* * *

Embora aliviado, me pego também melancólico. Il lavoro è finito. Foram quase cinco meses de intenso convívio, O Quarteto de Alexandria e eu. Houve namoro e briga, nos amamos, nos odiamos, culpei a outrem pelos nossos desacertos. Tive também o privilégio de contar com a luxuosa ajuda de Sergio Faraco, o padrinho desse casamento que agora chega ao fim. Tudo está bem, então. Mas sei que jamais voltarei àquelas páginas. Talvez um dia, apenas para conferir se a nova edição vai ao menos tentar corrigir os problemas que encontrei e fui obrigado a apontar. Ou quem sabe para uma espiadela fortuita, na casa do Faraco, que certamente manterá os quatro volumes encadernados e guardados como uma relíquia.

E foi em suma o entusiasmo dele que me fez chegar até este ponto final.


Publicado no caderno Palavra do Le Monde Diplomatique Brasil, maio de 2008

16/12/2008

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  Luiz Paulo Faccioli

LUIZ PAULO FACCIOLI nasceu em Caxias do Sul em 1958 e lá viveu até 1977, quando mudou-se para Porto Alegre, cidade onde mora atualmente. É músico, compositor, juiz Allbreed e Instrutor pela The International Cat Association — TICA. Autor de Elepê (contos, WS Editor, 2000), Estudo das Teclas Pretas (novela, Record, 2004), Cida, a Gata Maravilha (infanto-juvenil, Galera Record, 2008) e Trocando em miúdos (contos, Record, 2008), participou das antologias Porto Alegre: curvas e prazeres (contos eróticos, WS Editor, 2002), Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século (Ateliê Editorial & eraOdito editOra, 2004) e 35 segredos para chegar a lugar nenhum (crônicas, Bertrand Brasil, 2007), entre outras. Integrou o grupo Casa Verde, participando das seis coletâneas lançadas pelo selo entre 2005 e 2008: Fatais, Contos de bolso, Contos de bolsa, Era uma Vez em Porto Alegre, Contos de algibeira e Contos comprimidos. É crítico literário, colunista de literatura da Band News Porto Alegre e colunista do portal Artistas Gaúchos.

lpaulof@terra.com.br
www.luizpaulofaccioli.com
twitter.com/lpfaccioli


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