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Artes Plásticas

O Artista "primitivo" rio-grandense em uma apreciação da estatuária Missioneira Nossa Senhora da Conceição
Lucas Fontana

Introdução:

Considerado “Patrimônio da Humanidade”, título recebido na cidade de Florença em 1983 e legitimado pela Unesco, as ruínas da torre e da Igreja de São Miguel, localizada no atual município São Miguel das Missões no Rio Grande do Sul, foram durante as últimas décadas do século XVI um dos cenários da importante atuação da ordem jesuítica em território brasileiro. A influência exercida pela Companhia de Jesus aos nativos nos deixou marcas importantes para a cultura na região sul da América Latina.
A atuação persistente e paciente dos padres missioneiros organizando as comunidades indígenas em reduções com o objetivo de propagar a fé cristã não é exclusiva da região sul do Brasil. Este fenômeno ocorreu em quase toda a América Latina durante o período de colonização ibérica. Podiam-se encontrar missões até mesmo no Novo México ou Califórnia podendo essas pertencer à ordem jesuítica, franciscana, beneditina ou mesmo dominicana.

Resumo dos acontecimentos históricos:

No início do século XVII sob a proteção da coroa espanhola, os jesuítas se instalaram na região que abrange o Rio Grande do Sul, Argentina e Paraguai, com o intuito de desenvolver a catequização através da sedentarização e evangelização da população indígena. Sendo assim, foram fundadas diversas reduções na região central do RS totalizando cerca de 16. Essas comunidades incorporavam um número expressivo de indígenas, em torno de 40 mil nativos. O povo que melhor se adaptou a proposta jesuítica foi sem dúvida o guarani em decorrência de seu estilo de vida semi-sedentário e também por seu receio quanto as perseguições dos bandeirantes que buscavam escravizá-los. Assim as reduções seriam para os índios uma espécie de refúgio onde eles seriam facilmente domados pela ideologia cristã.


Iniciada em 1682, a segunda fase das missões jesuíticas, conhecida como Sete Povos, foi a mais próspera da intenção cristã. Durante esse período ocorreu a retomada das reduções de São Miguel Arcanjo e São Nicolau, bem como a criação de São Francisco de Borja, São Lourenço Mártir, São João Batista, Santo Ângelo e São Luiz Gonzaga. Acredita-se que, nesta época, somando-se as comunidades jesuíticas além dos limites da região do Rio Grande do Sul, cerca de cem padres controlavam cem mil indígenas.


Em decorrência da organização, perseverança, paciência e disciplina jesuítica, assim como da constituição, modo de vida e senso de dever do povo guarani, as Missões gerenciadas por essa ordem já se estruturavam economicamente através da criação de gado sendo o couro um produto de alto valor comercial. Essa organização gerava uma possível autonomia das reduções perante a metrópole divergindo com os interesses políticos e comerciais de Portugal e Espanha. Então, logo após o Tratado de Madri, que dirigia a posse dos Sete Povos aos portugueses em troca da Colônia do Sacramento aos espanhóis, estoura a Guerra Guaranítica (1753-1756) da qual destacou-se o líder indígena Sepé Tiaraju, embora tenham lutado com bravura, o cacique foi morto e os guaranis derrotados pela aliança Portugal-Espanha. Em 1761 é assinado o Tratado de El Pardo que devolvia a região das Missões aos espanhóis, mesmo assim os jesuítas foram definitivamente expulsos deste território em 1768 ocasionando a dispersão dos remanescentes guaranis.

As Reduções:

As reduções missioneiras eram estruturadas tendo sempre ao centro uma grande praça usada como espaço comunitário e ritualístico, ao redor ficavam dispostas as residências dos padres, as casas dos índios, algumas instituições administrativas, além da escola, sala de música, sala de armas e a oficina. Nessa última, os índios com maior talento desenvolviam a técnica para a talha seguindo o aprendizado ensinado por um padre, imitando o “mestre” ou até mesmo suas gravuras renascentistas. Provavelmente um índio guarani produziu neste cenário, a belíssima Imaculada Conceição (Nossa Senhora da Conceição), escultura em madeira de cedro, policromada, medindo 108cm de altura e pesando cerca de 28 kg. A peça pertencera à Salvador Pinheiro Machado e foi doada ao Museu Júlio de Castilhos (Porto Alegre, RS) em 1903, neste período Pinheiro Machado era intendente de São Luiz Gonzaga onde possivelmente esta peça foi produzida.

Imaculada Conceição:

A imagem consiste em uma representação da Virgem Maria com seu rosto levemente inclinado para cima; as mãos postas tocam-se sutilmente nas pontas de seus dedos e aparentam-se desproporcionais com relação ao tamanho do rosto, pois são maiores do que os cânones admitiriam ser. Contudo esta minúcia não permite destoar de forma alguma a beleza e delicadeza do gesto e o espectador mais atento fruirá de uma clara intenção do artista que, aumentando as dimensões das mãos, evidencia a importância da devoção ao Deus cristão. O ondulado do cabelo escorre minimalista acima dos ombros em sua estrutura suave e reducionista contrastando com a rigidez do manto que se projeta firme. Essa rigidez do tecido, sua forma triangular e cor escura transmitem uma idéia de monumentalidade e sua austeridade revela a sensação de estarmos diante de uma imagem quase intocável.

Imaculada Conceição. Escultura em madeira de cedro policromada, 108cm de altura. Museu Júlio de Castilhos, Porto Alegre, RS.


Influência Barroca:

 Percebemos algumas soluções resolvidas com base nos cânones europeus como, por exemplo, nas dobras do manto, as curvas do vestido e dos cabelos, mas principalmente a presença barroca dos três anjos ao pé da Ave Maria como contesta Trevisan: ...o estilo – a camisa-de-força imposta à imaginária indígena – resplandece no modelo iconográfico, que reproduz um protótipo espanhol, inclusive com as três cabecinhas de anjos aos pés da Virgem. (TREVISAN Armindo, 2007, p. 28). Essa representação é uma clara referência à obra de Raffaello Sanzio adaptada à cultura regional como acontecera, por exemplo, no trabalho do Mestre Aleijadinho que ao invés de utilizar asas faz surgir as penas, uma clara adaptação as idiossincrasias locais. É certo que essa Virgem guaranítica não possui a expressividade das Marias de Francisco Lisboa, principalmente se comparadas às imagens pertencestes à sua segunda fase, porém essa Virgem Imaculada apresenta em sua face de sutil expressividade um misto de seriedade e serenidade jamais visto.


A Revelação do Artista:

Os limites internos do manto e suas bordas verticais lineares contrastam também com as curvas suaves do simples vestido de cor marfim, com detalhes de pequenos círculos coloridos. Singelos sulcos na madeira formam o caimento dessas dobras que se atenuam na medida em que se aproximam do joelho direito da Nossa Senhora devido a uma pequena flexão da perna. Este movimento revela o pé direito calçado com uma pequena bota escura que aparece apoiando-se acima de uma nuvem e dentre duas cabeças de anjos. A magnitude dessa obra, seu peso e rigidez, as linhas grossas, firmes e retas. Toda a força que a forma exerce é sustentada por essa flexão do joelho direito. É nesse pequeno movimento que se concentra o centro da obra, a revelação da capacidade do artista, sua noção dos efeitos gravitacionais, do peso e do próprio apoio que tende o corpo à se sustentar. Questões que influenciam diretamente na contundência da representação humana resultando uma forma firme e viva. Essa problemática parece ter uma resolução simples, mas se analisarmos diversas peças do incontestável mestre Aleijadinho perceberemos muitas vezes uma certa dificuldade em resolver esse tipo de questão, sendo assim, veremos em alguns de seus trabalhos pernas ou braços flutuantes e corpos pendendo para um lado ou outro.


Sincretismo:

O sincretismo presente em grande parte das obras escultóricas missioneiras é outro aspecto importante a ser ressaltado e está presente também na Imaculada Conceição. Em sua estratégia de catequizar os pagãos, os jesuítas procuraram não impor suas idéias aos nativos e sim educá-los, permitindo assim aos catequizados uma certa liberdade em sua produção estética respeitando seus aspectos culturais o que resultou uma fusão entre as culturas e não uma imposição de dogmas. Podemos perceber na estética da arte missioneira um estilo mestiço em que as características da arte européia e seus cânones são respeitados, mas o artista primitivo, mesmo que subjetivamente, leva em conta elementos da sua cultura. Isso é perceptível tanto em uma pintura chinesa de uma Ave Maria na qual seus olhos são representados considerando as características fisionômicas locais, no caso dos “olhos puxados” como pode também ser visto nessa Nossa Senhora da Conceição de feições indígenas, como descreve Armindo Trevisan: quanto ao aspecto étnico das imagens missioneiras, podemos sustentar o seguinte: ele existe em algumas peças. Como não identificá-lo na Imaculada Conceição do Museu Júlio de Castilhos? A posição das Mão copia a de outras estátuas do mesmo gênero. Onde está, então, o rosto índio da Virgem? Justamente no seu rosto, que é o de uma guarani, sem nada da artificial delicadeza do tipo europeu. A Virgem é, realmente, uma bugre, e seus cabelos escorridos, solução estilística de além-mar, teve aqui a coincidência de ajustar-se ao tipo guarani (TREVISAN Armindo, 2007, p. 28).


A colaboração jesuítica na formação dos primeiros artistas latino-americanos:

A contribuição jesuítica é deveras importante para o progresso dos nativos pertencentes às regiões ocupadas. A estruturação feita pelos padres na organização espacial das reduções bem como das atividades diárias de catequização permitiu o surgimento de verdadeiros artistas primitivos que por sua vez produziram um enorme acervo material de bens culturais e também contribuiu para o próprio desenvolvimento das técnicas escultóricas que levaram a confecção desses bens. Esse processo deveria ser hoje considerado como bem imaterial e assim legitimado pelo nosso saudoso Iphan, pois é incontestável a beleza técnica do processo artístico guaranítico. O fazer minucioso, o método primitivo, os materiais rudimentares utilizados e feitos pelo próprio guarani, a matéria-prima natural retirada da natureza, todo esse processo deveria ser registrado oficialmente para que não seja perdido nas brumas da contemporaneidade, pois como Michelangelo buscara em Carrara seu mármore, estes artistas guaranis adentravam na floresta para escolher o melhor cedro e na oficina da redução forjavam suas próprias ferramentas para talhar sua matéria prima. Todo esse processo deve hoje ser considerado e legitimado devido a sua importância a nossa cultura, pois estes foram sem dúvida nossos primeiros artistas e é somente por essa questão precursora que devem ser considerados primitivos.

 

Referências Bibliográficas:

BONNET, Márcia. Representação da Imaculada Concepção na Imaginária Missioneira da Banda Oriental: questões iconográficas. Pindorama Revista. Porto Alegre. Acesso http://www6.ufrgs.br/artecolonial/pindorama/art2.htm em maio de 2009.
SALA, Dalton. Ensaios sobre Arte Colonial Luso-brasileira. São Paulo: Landy, 2002.
TREVISAN, Armindo. O Rosto Indígena da Arte das Missões. Artes Plásticas no Rio Grande do Sul: Uma Panorâmica. Porto Alegre: Lahtu Sensu, 2007. (p. 28).
 


27/05/2010

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Comentários:

Estamos solicitando a Vossa Senhoria orçamento de uma escultura de 1.80 do Ex- governador Augusto Franco, para ser colocada em uma praça
RuySouzaSantos, AracajuSE 07/04/2011 - 10:52
Estamos solicitando a Vossa Senhoria orçamento de uma escultura de 1.80 do Ex- governador Augusto Franco, para ser colocada em uma praça
RuySouzaSantos, Aracaju-SE 07/04/2011 - 10:50
Parabéns pela diversidade presente em tuas manifestações artisticas.

Abraço,Maria de Lourdes Reis
Maria de Lourdes Reis, Porto Alegre/RS 29/05/2010 - 23:48
Lucas!Folgo em saber que te tornas um artista completo, contribuindo em várias áreas de atuação. Belo artigo! Beijos.
Isabel de Castro, Porto Alegre/RS 28/05/2010 - 11:17
Gostaria de manifestar minha opinião, no que diz respeito à importância de podermos apreciar a beleza de construções realizadas durante fatos que fizeram parte de nossa história, através de uma leitura conduzida por quem entende do assunto. Parabéns pela belíssima coluna.
Annelise de Souza Rosa, Porto Alegre/RS 27/05/2010 - 20:17

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  Lucas Fontana

Nascido em Porto Alegre/RS no mês de março de 1984 ingressou na Universidade Federal do Rio Grande do Sul em 2007 cursando bacharelado em Artes Visuais. Vem desenvolvendo trabalhos de pintura, escultura e modelgem digital. Na UFRGS teve oportunidade de aprender com grandes nomes da escultura do RS, artistas como Adolfo Bittencourt, Bruno Teixeira, Felix Bressan e Nico Rocha. Tem feito diversas exposições de seu trabalho das quais a mais recente, Estado de Criação II, será realizada em conjunto com os associados da AEERGS no Instituto Cultural Brasileiro Norte Americano em Porto Alegre.

lucas.artes@gmail.com
lucasfontana.blogspot.com
twitter.com/Lucas_Fontana


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