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Mercado Editorial

A importância de Montag
Paulo Tedesco

Passei o mês de junho e parte deste julho refletindo sobre voltar a escrever sobre o mercado editorial. E isto se deu porque as notícias do encolhimento do mundo do livro em números reais e palpáveis foram assustadores e pareciam longe de um soluço, ficando mais para algo em queda permanente e irremediável.

Sou dos otimistas, sempre fui, mas desde o início deste ano de 2018 quando se descobriu a perda de 600 mil leitores na Alemanha, um dos maiores mercados do mundo, a sensação de que o Brasil iria, certamente, para um buraco ainda maior, só parecia crescer e com isso se enterrava meu otimismo.

Antes, porém, da terra arrasada, é bom tomar em conta algumas novidades que vêm afetando o mundo leitor tirando leitores dos livros e ocupando seu tempo ocioso: a emergência em larga escala das redes sociais, das redes streaming como Netflix, e a ampliação rápida e cada vez mais voraz da interconexão das coisas, o que consome sem recursos o tempo extra do leitor, aquele mesmo tempo a pouco dedicado à leitura silenciosa e meditativa.

Mas talvez seja um erro encarar por esse viés, e imagino que nessa altura editores mais experientes riem do que escrevo. Outros momentos da história devem ter sido também críticos e que foram superados, momentos de descrédito no livro e de desesperança com o futuro dos leitores, em que a realidade do Farhenheit 451 de Ray Bardbury nos era inescapável – este que recentemente voltou sob a forma de novo filme para o cinema (talvez merecesse um seriado bem longo) – e foi esquecida por momentos mais felizes.

E o riso seria porque eles conhecem os altos e baixos da humanidade como poucos e raros. Sabem, como sábios do livro, do objeto livro, que cedo ou tarde o homem moderno entra em novo espiral intelectual, e com isso a leitura de algo complexo como um livro volta a se tornar indispensável e inadiável, gerando, assim, novo ciclo de leitores e de apaixonados pelo livro.

Mas não dá para escapar da realidade, do indisfarçável hoje. Sim, nosso país, pobre e gigante é a ponta miserável de um sistema mundial absolutamente perverso com quem cede sua economia a potências estrangeiras e em prol dos produtos estrangeiros. E sim, somos cada vez mais importadores e consumidores de cultura de baixa qualidade, algo que se reflete, claramente, nos níveis de visitação à pornografia na internet e na busca de notícias de violência e ascensão do fascismo (leia-se racismo, machismo, homofobia, anticomunismo, etc.).

O mundo talvez ainda vá tomar algum tempo para recuperar o nível de leitura ideal para recuperarmos uma sociedade mais humana e educada, mais consciente de seu papel. E se esse tempo se demorar a aparecer, como tudo indica, é bom voltarmos a pensar no Guy Montag, personagem do Farhenheit 451: aqueles que sabem do valor das grandes obras que mergulhem profundamente na preservação do legado literário, ainda que signifique um sacrifício pessoal e intransferível.

16/07/2018

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Comentários:

Muito bom o artigo. Abordou uma questão que me preocupa também e cerca de um mês atrás conversei sobre isso com um amigo, quando o indiquei um livro de 430 páginas e ele achou absurdamente imenso, afirmando que não teria tempo.

É verdade que as pessoas estão cada vez mais sem tempo de ler, mas o fato é que, quem ama mesmo a leitura sempre arranjará um jeito de dedicar o tempo a isso. O negócio também, atrelado a tudo isso ai que você falou, é muita preguiça desse povo.
Walter Pinheiro Jr., Natal/RN 31/07/2018 - 12:38
Manter a rotina de leitura nestes dias é, de fato, um sacrifício e, de alguma forma, um ato de resistência. Também me vejo como otimista e preciso acreditar na ideia dos ciclos.
CAROLINE RODRIGUES, São Leopoldo 23/07/2018 - 21:37

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  Paulo Tedesco

É escritor de ficção, cronista e ensaísta, atua como professor e desenvolvedor de cursos em produção editorial e consultoria em projetos editoriais, também como orientador em projetos de inovação em diferentes setores. Trabalhou nos EUA, onde viveu por cinco anos, nas áreas de comunicação impressa, indústria gráfica e propaganda. É autor dos livros Quem tem medo do Tio Sam? (Fumprocultura de Caxias do Sul, 2004); Contos da mais-valia & outras taxas (Dublinense, 2010) e Livros: um guia para autores (Buqui, 2015). Desenvolveu e ministra o curso de Processos Editorais na PUCRS e coordena o www.consultoreditorial.com.br atendendo autores e editores. Pode ser acompanhado pelo seu site, pelo Facebook ou pelo Twitter.

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