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A querida casa de verão de Anton Tchekhov na Ucrânia está ameaçada
Caroline Rodrigues (trad.)

Uma semana depois da invasão russa na Ucrânia, recebei uma mensagem em inglês da parte leste do país, enviada por uma conhecida - vamos chamá-la de Olla - da cidade de Sumy. Fundada por Cossacos no século 17 às margens do Rio Psyol, ela, desde então, se espalhou pela vasta e plana paisagem verde e se transformou cidade frondosa de mais de um quarto de milhão de habitantes, ostentando universidades, fábricas, museus, belas igrejas Ortodoxas e catedrais e um enorme mercado coberto.

A mensagem de Olla dizia:

"Nós estamos muito bem em comparação com Kharkiv e Okhtyrka e Kiev e muitas outras cidades. Ainda assim, a região de Sumy está na linha de frente da batalha, e lutas de rua e ataques aéreos acontecem todos os dias. A cidade está rodeada pelas forças russas.
Nós estamos, acima de tudo, extremamente ansiosos com nossos bravos guerreiros e moradores da cidade, mas o que deixa muita gente preocupada é a herança cultural da cidade, especialmente o destino do museu Tchekhov.
Ontem à noite houve um combate na área próxima ao museu".

Eu tinha visitado a Ucrânia em 2010, mas agora parece que foi em outro século, outra vida: visitar os pontos turísticos da Crimeia; fazer tour pelos palácios dos czares; jantar com vista para o Mar Negro; acima de tudo, explorar os rastros deixados por Anton Tchekhov, principalmente (mas não só) do final de sua vida. Depois da Crimeia, eu viajei para o longínquo nordeste, uma jornada de trem durante a noite, para a cidade onde se fala russo, Sumy, onde Tchekhov passou dois verões na sua juventude. Visitei um pequeno museu lá e fui muito bem recebida pela então diretora, Ludmila Nikolayevna, e seus assistentes. Eles me ajudaram com minha pesquisa e nós prometemos manter contato. Alguns anos mais tarde, quando meu livro foi publicado, foi Olla quem me ajudou a conseguir cópias para a biblioteca do museu e nós continuamos nos correspondendo sobre Tchekhov de tempos em tempos.

Tchekhov passou dois verões consecutivos com sua família na vila de Luka, não longe de Sumy, em 1888 e 1889, na propriedade da empobrecida família Lintvaryov, que alugava para eles um pequeno bangalô. Eles nadaram e pescaram e andaram de barco no Psyol; eles convidaram amigos para ficar lá, fizeram shows e leituras, jantaram e flertaram. Tchekhov trabalhou em diversos contos e em uma peça (O Demônio da Madeira).

Em suas cartas, ele escreveu afetuosamente sobre seu tempo na Ucrânia, que era, na época, uma província do Império Russo; relembrando, ele disse, "Abbazia (hoje em dia Opatija, na Croácia) e o Mar Adriático são bons, mas Luka e o Psyol são melhores". Seu irmão Nikolay morreu de tuberculose no segundo verão e está enterrado no cemitério local; depois do funeral, a família passou algum tempo em um monastério na vizinha Okhtyrka. Seus anfitriões em Luka tornaram-se amigos da vida inteira; a região e seus habitantes eram uma fonte de rica inspiração para o jovem escritor.

Tchekhov é, com frequência, considerado o maior escritor de contos do mundo e talvez perca somente para Shakespeare em termos de número de vezes que suas peças foram adaptadas ou produzidas. Não é somente um escritor russo, ele pertence ao mundo. Sumy tem razão em se sentir orgulhosa de ter tido um papel importante em sua vida e de ter continuado a honrar seu legado desde 1960, o centenário de seu nascimento, quando o bangalô, convertido em biblioteca escolar pelos Bolcheviques, foi reformado para seu estado original e transformado em museu.

Está localizado perto da estrada que leva ao rio, do outro lado da casa senhorial arruinada; ele tem seu próprio jardim com íris e um gazebo e, quando eu visitei, um gato morador. É pequeno - seis cômodos - comparado com outros museus de Tchekhov localizados em Moscou, Melikhovo e Ialta, mas as memórias que o escritor levou daqueles verões incomparáveis da sua juventude ressoam até os dias de hoje para além de qualquer fronteira - nas histórias e peças que ele passou para inúmeros leitores e espectadores de teatro, inclusive, com certeza, para oficiais e soldados que agora lutam pela posse de Sumy: todos estudaram Tchekhov na escola.

Eu recebi outro e-mail, não muito tempo depois do primeiro, desta vez de um professor universitário na Rússia, que também é amigo de Olla:

“Eu tenho entrado em contato com Sumy todos os dias e as notícias são desoladoras. Ludmila Nikolayevna está em Sumy, é quase impossível falar com ela - ela não queria falar sobre o museu, que estava na zona de guerra e neste momento eu não sei o que aconteceu com ele. Eu entrei em contato com um colega estudioso de Tchekhov em Moscou para pedir que ele fizesse um apelo ao Ministério da Defesa pelo museu, então ele ligou para o atual presidente do museu, que disse não haver necessidade de se preocupar. Eu também tentei ligar para o diretor do museu, mas ele não falou comigo”.

Olla está agora em segurança, na Alemanha, com seus filhos. Eu continuo pesquisando notícias do museu na internet - ele pode estar bombardeado, ou simplesmente saqueado - e a falta de notícias, à medida em que navego por avisos de ataques aéreos e cortes de energia, iminentes corredores de evacuação e mortes, parece, de uma forma perversa, ser uma boa notícia.

Considerando o todo, é somente uma pequena casa de verão com uns poucos artefatos preciosos doados pela irmã e pela viúva do escritor: seus instrumentos médicos, um pince-nez, o retrato de seu irmão Nikolay pintado por ele, um chapéu de jardinagem usado por sua irmã Masha. O povo da Ucrânia está perdendo, perdeu, infinitamente, incomensuravelmente mais, porém o museu permanece maior do que a soma de suas partes, um repositório de esperança na humanidade, um local de peregrinação para uma fé indestrutível.

Depois de retornar para Moscou, em setembro de 1889, Tchekhov não visitou Luka novamente. Ele escreveu para uma das filhas de Lintvaryov, "Eu deixei minha alma em Luka". O tom do resto da carta é jocoso, mas eu gosto de pensar que essas palavras foram escritas com uma grande seriedade; um aviso para a posteridade.


14/04/2022

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  Caroline Rodrigues

Caroline Rodrigues é licenciada em Letras e mestra em Linguística Aplicada. Atua como professora e tradutora de língua inglesa. Desde o ano passado, cursa oficinas de criação literária e, como resultado, teve, em 2018, um conto publicado em coletânea. Sempre foi, e continua sendo, apaixonada por livros e literatura. Mora com seu filho em São Leopoldo. Escreve contos, minicontos e poemas.

caroline.letras@gmail.com


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