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Resenha

O vento e o abismo: reflexões sobre o prazer de existir em "Vento em Setembro", de Tony Bellotto
G. J. Simões

Recentemente, "Vento em Setembro", de Tony Bellotto, conquistou o renomado Prêmio Jabuti na categoria "Romance Literário", consolidando o autor - conhecido inicialmente pelo gênero policial - como uma das vozes mais consistentes da literatura brasileira contemporânea. Bellotto, que iniciou sua trajetória com o célebre detetive Bellini, personagem central de seus primeiros romances, expande aqui seu universo narrativo: sai das ruas escuras e do mistério investigativo para mergulhar em territórios mais íntimos, existenciais e reflexivos. "Vento em Setembro" representa essa virada - um romance sobre o desejo, o abismo e a busca por sentido no meio da ruína.

No livro, Tony Bellotto aborda temas-limite - o suicídio, o desejo, a culpa e a herança familiar - para desmascarar o verniz das elites brasileiras e revelar a fragilidade que se oculta sob o luxo. Em uma das passagens mais significativas do romance, Bellotto condensa esse jogo entre destino, delírio e narrativa:

"Lá fora, a chuva anunciada mais cedo pelo padre Robson começou a cair com uma urgência que me pareceu premonitória.

'A chuva', ele disse.

Um trovão enfatizou a obviedade de suas palavras.

'Bem', prosseguiu, me fitando com expressão grave, 'tudo isso não deve passar de coincidência, certo? Ou de um delírio.

Por que razão, afinal de contas, alguém iria querer atrair você até aqui?'

'Não sei, padre. Estou bastante confuso.'

'Você é escritor, pense que no mínimo conheceu uma boa história'."

- Tony Bellotto, "Vento em Setembro"

O livro parte das consequências de uma festa de desvirginamento promovida por um latifundiário do ramo da soja - um ritual de poder que inaugura uma cadeia de eventos, tragédias e revelações. Nesse contexto, o narrador colapsa no próprio fluxo da história, de forma surpreendente, como se a narrativa também fosse tragada pelo abismo que tenta compreender.

O desejo, aqui, é mais que pulsão - é um espelho partido de uma sociedade que perdeu o sentido de si. Entre o poder e o prazer, o autor mostra como as fronteiras da moral se dissolvem.

Mas Bellotto não se detém na decadência. No centro do labirinto surge Davi, que ao confrontar o próprio passado recusa o trauma como destino. Educado, culto, escritor, Davi atravessa o abismo sem sucumbir ao peso do passado.

Esse percurso evoca o que Albert Camus escreveu em O Mito de Sísifo:

"Il faut imaginer Sisyphe heureux" - é preciso imaginar Sísifo feliz.

Em Bellotto, assim como em Camus, a consciência do absurdo não paralisa: abre espaço para uma lucidez capaz de transformar o peso em movimento. Mesmo nos corredores mais repetidos do labirinto, há lugar para o prazer - não como fuga, mas como forma ativa de resistência.

Essa calma, quase paralisante, é o momento em que o absurdo se encontra com a beleza. Bellotto transforma o luto em contemplação; a morte, em intervalo de lucidez. A serenidade diante do cemitério da Filosofia, em Santos, ecoa a atitude de Davi diante da vida - aceitar o peso, mas continuar.

A famosa música "Comida", dos Titãs, composta por Arnaldo Antunes, Marcelo Fromer e Sérgio Britto, parece traduzir essa mesma pulsão vital ao afirmar: "A gente não quer só comida. A gente quer comida, diversão e arte." No romance, esse "querer" se transforma em desejo de expressão - uma fome por sentido que se confunde com a própria vontade de existir. Davi escreve, observa, respira: o prazer, para ele, é uma forma de lucidez.

E, como cantou Raul Seixas em Liberdade: "Viver assim, até aguento… desde que eu possa nascer livre, viver livre." Davi escolhe exatamente isso: viver. Mais do que sobreviver, mais do que carregar o peso de um segredo, ele escolhe ser livre na própria história, vencer o abismo não pela fuga, mas pela afirmação do existir.

As referências culturais que atravessam o livro - Rita Lee, Raul Seixas, Jack London e Hermann Hesse, entre outros - reforçam seu contexto de ruptura. São vozes que se erguem contra a norma e fazem da arte um gesto de insubmissão. Rita representa a liberdade de ser múltipla e provocadora; Raul, o espírito anárquico e filosófico que desafia o tédio social; Jack London, o escritor que mergulhou no instinto e nas fronteiras da sobrevivência; e Hesse, o mestre da travessia interior, que fez da busca espiritual uma forma de resistência existencial.

Todos ecoam como ecos de uma geração que não teme o abismo, porque aprendeu a dançar à sua beira. Bellotto escreve como quem compreende que a arte, o corpo, o som, o vinho e o vento são resistências silenciosas contra a ruína. Porque a vida - e sua beleza - estão em viver, e não em se aprisionar aos fatos que não escolhemos.


Gustavo José Simões é escritor e engenheiro, com formação em História e pós-graduação em Literatura, Artes e Filosofia pela PUCRS. É autor de O Diário do Último Homem e Porto das Memórias, e editor do blog "Nós, Pessoas Comuns".

18/11/2025

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