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Teatro

Quando a vida cabe numa folha de diálogo
Marcelo Spalding



Encontros, cantadas, coincidências, jantares, mentiras, equívocos, gemidos, farsas, decepções. Esse é o universo do texto de Luiz Fernando Veríssimo, escritor que talvez melhor tenha representado a vida privada da classe média brasileira, apontando sempre com bom humor suas pequenas tragédias, seus prosaicos conflitos. Não há espaço para Deuses, heróis, vilões, tampouco para incestos, estupros, seqüestros, a contística aparentemente simples de Veríssimo alimenta-se do trivial ou, como diriam os estudiosos, da nossa diária ilíada doméstica.

Não por acaso Veríssimo é dos mais lidos (com prazer) nos bancos escolares, e já deve ter assistido duzentas mil montagens amadoras de seus contos nos pequenos auditórios colegiais, porque seu universo temático se presta sobremaneira aos palcos, onde o diálogo ganha rosto, entonação, vida. E por isso mesmo não é fácil representá-lo, não é nada fácil levar ao palco o humor fino das entrelinhas de suas crônicas, humor que muitas vezes se encontra no não-dito, no silêncio, não um humor para gargalhadas, e sim um humor de riso constrangido, da identificação direta e constante.

Diferenças habilmente contornadas por Dilmar Messias, diretor de “O marido do Dr. Pompeu”, talvez a peça profissional que há mais tempo leva a comédia da vida privada de Veríssimo para os palcos, decerto a mais badalada. Profissional experimentado, Messias encara o desafio e consegue arrancar gargalhada do público, especialmente o masculino, mantendo a verve e o tom das comédias da vida privada a partir de uma história única com começo, meio e fim, fugindo da solução fácil da mesclagem de esquetes.

Além dessa costura que “O marido do Dr. Pompeu” faz de algumas das mais conhecidas crônicas, costura escrita por vezes pelo próprio Veríssimo, o autor é transformado em personagem da peça. Isso mesmo, interpretado por Zé Victor Castiel, nosso LFV narra o desenrolar da relação entre Dr. Pompeu, interpretado por João França, e Nara, vivida pela bela Fernanda Carvalho Leite, relação que pode-se resumir em poucas linhas: os dois se conhecem na sala de espera de um consultório dentário, depois se reencontram casualmente num restaurante e iniciam a odisséia doméstica da paixão ao casamento à separação.

Entre os acertos da adaptação está, necessariamente, o trabalho dos atores. Já na primeira cena, Zé Victor encarna Veríssimo, encarna mesmo, roupa, rosto, feições, timidez, surpreendendo a quem teve a oportunidade de conhecer o filho de Érico. “Compus o personagem a partir do próprio Veríssimo e gosto muito dele, foi meu único prêmio Açorianos ao longo da carreira”, conta Zé Victor, simpático dos palcos ao camarim. O ator contou, ainda, que apesar de Veríssimo ter colaborado no texto final e escrito algumas costuras, jamais assistiu a peça: “a família toda dele já nos viu ao longo desses dez anos, mas ele não”.

João França e Fernanda Carvalho Leite interpretam o casal protagonista da narrativa, e muitas vezes garantem as gargalhadas do público que o texto de Veríssimo, pela sua natureza, sozinho não o faria. Alternando simplicidade e caricatura, como na impagável cena de choro da esposa traída, o casal demonstra sintonia e segurança, motivo pelo qual a identificação do público masculino com o canastrão Dr. Pompeu é instantânea, e a figura da bela e, digamos, complicada esposa, também. Porque são figuras, tipos, situações absolutamente corriqueiras, comuns, domésticas.

A vida, como diria a personagem Veríssimo ao final do espetáculo, “cabe numa folha de diálogo”. Pelo menos quando o autor do diálogo é um mestre como Luiz Fernando e, o público, formado pela nossa por vezes previsível classe média.

21/02/2008

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