artistasgauchos












Desenvolvido por:
msmidia

Literatura

O declínio do fauno e o homem comum
Luiz Paulo Faccioli

Minha relação com Philip Roth nunca foi lá muito tranqüila — ou, pensando melhor, talvez ela tenha falhado justamente pelo excesso de tranqüilidade. Eu, que nunca achei difícil encarar volumes alentados, olhava com certa preguiça para aquele conjunto disposto na estante e que só fazia crescer: Pastoral americana, Casei com um comunista, A marca humana, Complô contra a América, títulos sempre tão bem comentados quanto longos que em mim foram sedimentando uma certeza — teria de lê-los algum dia — e também uma dúvida, esta bem típica de preguiçoso — por onde começar. Acabei me decidindo pelo O complexo de Portnoy, um livro divertido, não tão extenso quanto seus irmãos, que acabou me deixando com vontade de ler mais. Depois disso, outras leituras se impuseram e tive de adiar mais uma vez a intenção. Como se comesse um mingau pelas beiradas, voltei a Roth para conhecer suas mais recentes obras lançadas no Brasil, O animal agonizante e Homem comum, duas novelas curtas, aparentadas na temática, que podem muito bem ser lidas como um díptico.

Tenho um especial carinho pelos escritores de origem judaica, em grande parte por causa de seu humor único. A capacidade de rir da própria desgraça, atributo que se pode considerar atávico aos judeus, é sempre um luxo quando a serviço da literatura. Embora tenham bebido todos eles da mesmíssima fonte, é natural também que haja uma certa graduação: quanto maior a tragédia envolvida, tanto mais corrosivo se torna esse humor. Em O complexo de Portnoy — que causou polêmica quando surgiu, em 1969, por conta dessa espécie de elogio da masturbação que ele encerra vir no contrapé da liberação sexual fervilhante à época —, Roth vale-se da faceta, por assim dizer, mais folclórica do humor judaico: a relação do personagem-narrador com a iídiche mame, figura a um tempo amorosa e repressora — e rainha absoluta de todas as culpas. O livro é a transcrição de uma longa sessão de psicoterapia, outra rotina que os judeus aprenderam a conhecer como poucos (há inclusive uma piada que diz que Freud só pôde criar a psicanálise porque tinha uma mãe judia).

Em O animal agonizante, de 2001, para minha total decepção vi esse lado pitoresco e admirável de Philip Roth encolher para dar lugar à canalhice do personagem principal. Narrada em primeira pessoa por David Kepesh — que os leitores já conhecem de O seio, um kafkiano relato onde o protagonista se transforma num imenso seio feminino, e de O professor do desejo —, trata-se da história do fauno decadente que, gozando de pífia notoriedade por pilotar na tevê um programa cultural, vive de conquistar alunas do curso de literatura que ministra uma vez a cada ano. Uma dessas alunas, a cubana Consuela Castillo, possui o mais belo par de seios que o coroa jamais viu na vida, e esse fascínio babão faz com que ele acabe se envolvendo com a discípula muito além do que gostaria. Nauseante.

Quando estava prestes a abandonar o livro em favor de uma leitura menos aborrecida — afinal, há sempre tanta coisa boa à nossa espera que não se justifica perder tempo com o que não nos concede um mínimo de prazer —, eis que a história dá uma bonita guinada. Não posso antecipar o que acontece para não estragar a surpresa a quem ainda não leu, mas digo que talvez valha a pena resistir à tortura de várias páginas que não se afastam um minuto sequer do umbigo de um ser dos mais patéticos para no fim saborear uma desforra à altura. Aliás, é marca registrada de Roth construir personagens abjetos e aparentemente bem resolvidos só para ter depois o gostinho de flagrá-los no momento do turning point, o que também pode ser um bom exemplo do cinismo característico do escritor norte-americano.

Embora não tenha me entusiasmado com O animal agonizante, a despeito da engenhosa solução, sou forçado a admitir que poucos escritores dispõem do talento necessário para salvar da catástrofe uma história que, como essa, desde o início parece estar fadada ao naufrágio.

Em Homem comum, publicado originalmente em 2006, a ousadia é de uma natureza distinta. Narrado agora em terceira pessoa — e, por incrível que pareça, num tom ainda mais íntimo que o obtido por Roth com o “eu” torpe de O animal... —, ele traz a história de um homem de vida absolutamente comum, desde a primeira falha de seu corpo, quando se submete a uma prosaica cirurgia de hérnia na infância, até sua morte por complicações advindas de uma delicada intervenção cardíaca. A novela abre com o enterro do personagem, uma belíssima cena que evoca um tipo de cerimônia que o cinema hollywoodiano é pródigo em reprisar. Os discursos de despedida e a própria atitude dos presentes são reveladores da relação que cada um deles mantinha com morto, não bem explicada nesse momento, o que funciona como o alinhavo das costuras que serão adiante refeitas, dentro de uma clássica estrutura in media res.

Mas de comum o protagonista não tem nada. Publicitário bem-sucedido de uma grande agência nova-iorquina, pintor diletante, três casamentos no lombo, dois filhos (do primeiro) que o odeiam e uma filha (do segundo) que o ama, mulherengo inveterado, tudo leva a pensar numa vida bastante tumultuada. Será isso tão comum assim? Ou quem sabe eu já esteja um pouco desatualizado quanto ao que seja ou não considerado banal hoje em dia? Talvez a soma de todos esses fatores revelem uma riqueza que contradiz a intenção expressa no título. Salva-nos aqui uma pequena nota na orelha: “O título original deste livro, Everyman, é o nome de uma peça alegórica do século XV, um clássico da dramaturgia inglesa, cujo tema é a convocação dos vivos para a morte.” Na interpretação que Roth faz desse mote, a vida do protagonista não passaria de um anticlímax para a morte, um embate constante contra a mortalidade da qual nenhum homem está livre, e assim o título ganha de repente todo sentido. Por outro lado, Roth se detém nos aspectos mais comezinhos da existência de seu personagem, dos problemas de saúde que ele enfrenta durante a vida à mesquinhez de suas fraquezas de caráter, compondo com isso o retrato genérico — e brilhante — do homem contemporâneo.

Roth não é propriamente um esteta da palavra, mas seguidor da linha da ficção norte-americana que privilegia a condução da história deixando em segundo plano as preocupações estilísticas. Isso não impede que o leitor seja às vezes brindado com belas figuras que remetem a um erotismo viril também característico em sua obra:

Corria para casa descalço, molhado, salgado, relembrando a potência daquele mar imenso a ferver em seus ouvidos e lambendo o antebraço para sentir o gosto da pele recém-saída do oceano, tostada pelo sol. Juntamente com o êxtase de passar todo o dia sendo socado pelo mar até ficar tonto, aquele gosto e aquele cheiro o inebriavam de tal modo que por um triz ele não cravava os dentes na sua carne para arrancar um pedaço e saborear sua própria existência carnal.

Se lhe falta um pouco de sofisticação, Philip Roth consegue surpreender pela força de sua narrativa. E esse vigor é um dos aspectos que o credencia a figurar no seletíssimo grupo dos maiores escritores da atualidade.

13/03/2008

Compartilhe

 

Comentários:

Envie seu comentário

Preencha os campos abaixo.

Nome :
E-mail :
Cidade/UF:
Mensagem:
Verificação: Repita os caracteres "510609" no campo ao lado.
 
  

 

  Luiz Paulo Faccioli

LUIZ PAULO FACCIOLI nasceu em Caxias do Sul em 1958 e lá viveu até 1977, quando mudou-se para Porto Alegre, cidade onde mora atualmente. É músico, compositor, juiz Allbreed e Instrutor pela The International Cat Association — TICA. Autor de Elepê (contos, WS Editor, 2000), Estudo das Teclas Pretas (novela, Record, 2004), Cida, a Gata Maravilha (infanto-juvenil, Galera Record, 2008) e Trocando em miúdos (contos, Record, 2008), participou das antologias Porto Alegre: curvas e prazeres (contos eróticos, WS Editor, 2002), Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século (Ateliê Editorial & eraOdito editOra, 2004) e 35 segredos para chegar a lugar nenhum (crônicas, Bertrand Brasil, 2007), entre outras. Integrou o grupo Casa Verde, participando das seis coletâneas lançadas pelo selo entre 2005 e 2008: Fatais, Contos de bolso, Contos de bolsa, Era uma Vez em Porto Alegre, Contos de algibeira e Contos comprimidos. É crítico literário, colunista de literatura da Band News Porto Alegre e colunista do portal Artistas Gaúchos.

lpaulof@terra.com.br
www.luizpaulofaccioli.com
twitter.com/lpfaccioli


Colunas de Luiz Paulo Faccioli:


Os comentários são publicados no portal da forma como foram enviados em respeito
ao usuário, não responsabilizando-se o AG ou o autor pelo teor dos comentários
nem pela sua correção linguística.


Copyright © msmidia.com







Cursos em Porto Alegre

Cursos de Escrita

Cursos para escritores

Confira cursos e oficinas exclusivos feitos especialmente para escritores ou aspirantes a escritores.

Mais informações


Cursos de Escrita

Oficinas literárias

Oficinas de criação literária e escrita criativa em Porto Alegre.

Mais informações

 


Livros em destaque

O Guardião da
Chave Dourada

Airton Ortiz

Fundamentos à prática de revisão de textos

A Fantástica Jornada do Escritor no Brasil

 

compre nossos livros na