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Grave essa voz, grave!
Luiz Gonzaga Lopes (Blog Livros A+ - Correio do Povo)


“Ninguém se torna um escritor de verdade sem antes encontrar sua voz própria ­- aquela que, segundo Philip Roth, é ‘algo que começa mais ou menos na parte de trás dos joelhos e chega até bem acima da cabeça’. Mas encontrar uma voz implica que haja leitores por aí que saberão como escutar, e escutar é uma habilidade quase tão caprichosa quanto escrever.”

A. Alvarez – A Voz do Escritor (Civilização Brasileira, 2006)

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Encontrar uma voz narrativa seja no romance, no conto, na crônica ou mesmo na poesia é uma tarefa interna de garimpo para qualquer escritor. A voz própria como é designada nas duas sentenças que compõem a epígrafe desta apresentação do lançamento de um livro é reconhecível e louvável no contista Cleo Oliveira, 49 anos, natural de Novo Hamburgo, a cidade vizinha à minha natal (São Leopoldo).

Voltando ao crítico norte-americano A. Alvarez e à questão da voz própria e ainda à questão da habilidade da escuta, posso dizer que “Escute essa Voz” nos pega de pronto pela intimidade com a descrição de memórias – sejam elas verdadeiras e ficcionalizadas ou inventadas a partir de reminiscências. Cleo nos chama para o íntimo e divide os 18 contos em três capítulos temáticos: Das Primeiras Vozes, Das Outras Vozes e Das Últimas Vozes. Ali está o ciclo da vida e o círculo memorial.
Só para dar um exemplo, o primeiro e o último conto do livro são sobre morte de pais.

No primeiro “Meu Pai Não Sabe Jogar Bola”, o que transparece é a reconstituição da irreverência do pai, que interrompia o futebol do filho com os amigos no pátio de casa para chutar torto, errar pênaltis, mas ao pular o muro do vizinho para pegar a bola e trazer goiabas, inventando uma forma de amainar o efeito duro da vida e até do bichinho da goiaba. O último conto “Todavia Sigamos” é um inventário textual do filho, professor de filosofia, que escreve a partir das observações no dia do enterro do seu patronímico, como um trocar de pilhas para para seguir adiante, mesmo com a dor dilacerante dele e constatada na família, principalmente na irmã que veio de longe para fazê-lo recordar da infância, do feijão cheiroso e do pão cortado em quatro pedaços. Resoluções do luto pelo frasal, com anotações do tipo: “É preciso avançar. Aprender com as gerações anteriores e ir além. Uma velha necessidade, desde Heráclito. Ser o mesmo e o diferente. Cumprir com as nossas tarefas(…)”. “Havemos de pensar nossos legados. Na construção humana montada numa base animal. Da nossa aurora resplandecente herdamos a memória selvagem dos antepassados (…)”. “Qual era o nosso amanhã ontem? Adivinhávamos estar aqui? Todavia sigamos. Compreender nosso passado para libertarmo-nos dele (…)”.

Nas outras vozes, Cleo reconstrói memórias cotidianas da prostituta que se depara com alguém distante que já foi próximo em “À Noite, Dayene”, ou do casal que precisa se reapaixonar para não ficar no “Samba de uma Nota Só”, do João Gilberto, passando da bossa para a reinvenção do cotidiano em “Autor de uma Nota Só” ou ainda o conto de mais fôlego de um hippie que viveu Woodstock (era o cara do coberto vermelho do lado do casal abraçado, enrolado num edredon, na foto da capa do disco do festival) e foi parar em Sapiranga, em “Separando Folhas em Woodstock”.

Deixei propositalmente para o ocaso deste texto o conto-título “Escuta Essa Voz”. Na relação edipiana do filho com a mãe, desde que o pai partiu quando ele tinha oito anos, o narrador nos coloca do íntimo da sensação de completude do amor pleno filio-maternal ou materno-filial. No meio deste amor, está uma voz. Não conto qual é para não estragar o desfecho do conto, mas digo que com esta narrativa, Cleo nos chama ao íntimo para escutarmos a sua voz narrativa. Fui todo ouvidos. Espero que vocês também.

 

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