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A ponta do silêncio
Valesca de Assis


A ponta do silêncio, de Valesca de Assis (BesouroBox, 2016),é um livro que comove e inquieta pelo delicado equilíbrio entre a brutalidade de um crime e a construção bem dosada de uma causa, ou melhor, de muitas para justificá-lo: a opressão e a violência em todas as suas formas –moral, psicológica e física. Um tema de todos os tempos e latitudes, porque as “Margas” estão em todas as geografias, atravessando as eras com seus fardos de silêncio. E, o que é pior, diante do silêncio da maioria da sociedade. Uma chaga que frustra a ilusão de progresso das mentalidades, inclusive nos povos mais civilizados.  Isso porque também os “Rudys” são forjados todos os dias por séculos de cultura machista, algumas vezes e até inconscientemente, fomentada pelas próprias mulheres.

Mas a violência de gênero é caso grave, exigindo debatefarpado einesgotável.Eassim como as“Margas”seguirão trilhando seus árduos calvários, por razões muito diferentes, a arte literária atravessa as eras.  Por isso, quero falar do livro, pois, além de ahistória ser impactante, a forma de contá-la é excelente, obrigando-nos a olhar o problema de dentro e com lente de aumento.

A arquitetura da narrativa em 24 capítulos breves ou brevíssimos dá um dinamismo especial à leitura, que tem uma circularidade bem estruturada. Soma-se a isso a adoção da primeira pessoa, que é protagonista e não testemunha, mas que “sempre fora de inventar coisas”. Esse viés clariceano dá a Marga um salvo conduto para que ela transite entre o sonhar e o imaginar, algo que veda algumas certezas ao leitor. Outro acerto é a oscilação entre os gêneros diário, carta e fragmentos. Tais opções narrativas criam um ambiente em que o leitor vai se apropriando de estilhaços de uma escrita íntima e dilacerante, numa espécie de voyeurismo

A repetição de cenas similares vividas por personagens diferentes remete à continuidade dos dramas a que as mulheres são submetidas: a mãe de Marga e ela própria, sua filha Vivian e Cirlene, a esposa do delegado cujo drama análogo fica sugerido, tanto pelas diferenças sociais entre a jovem eseu marido como pelo teor das cartas enviadas à Marga. Circunstância que duplica o drama nuclear da narrativa como possibilidade.

Outro ponto a destacar é a linguagemintencionalmente simbólica e metafórica, na qual o bordado e a escritura são modos de “dar sentido à vida” da protagonista.A poeticidade dá o necessário equilíbrio à aridez de tema tão espinhoso. Contraponto que se potencializa com abela e certeira imagem da capa de Marco Cena.

Um tempero especial da obra é a incerteza que envolve o leitor sobre o que teria acontecido de fato, uma vez que a narradora era dada a “inventar coisas”. Enfim, um livro que merece ser lido e debatido.

 

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