Contos

O telhado e o violinista

Cíntia Moscovich


Não há escolha: estamos presos ao livre-arbítrio
I. B. Singer


- Judia suja.

Eu, que nunca havia experimentado a s√©rio ser quem era - porque uma menina de nove anos apenas tem nove anos -, passei, de uma hora a outra, a ser judia e a ser tamb√©m suja - o √≥dio na boca de Paula fazia com que as duas palavras se equivalessem. Fiquei ali, parada, paradinha, olhando para a menina, que, subitamente, se tornara dona de uma voz t√£o impositiva que se assemelhava √† verdade. Sem sabermos, ela ou eu, obedeciam-se a velhas tradi√ß√Ķes - era um conhecimento com que os ruins j√° nascem. O √≥dio cintilando a ponto de zunir no miolo dos olhos negros, Paula repetiu a ofensa, arrastando-a escandida:

ju-di-a-su-ja.

Ent√£o em mim, pela primeira vez, se abriu uma violenta ferida de sangue, uma hemorragia de raiva e dor grande demais para o esp√≠rito de uma menina. E a crian√ßa que eu era arranjou ainda √Ęnimo de fazer a pose da insol√™ncia, as duas m√£os na cintura, e arranjou ainda instinto para retrucar:

- E você é uma bocó. E uma burra.

Pronto, eu, como ela, tamb√©m obedecia a antigas tradi√ß√Ķes - pela minha lei de tali√£o, ser boc√≥ e ainda por cima ser burra era pior do que ser suja. E a f√ļria com que a insultei inaugurava em mim um novo sentido para a verdade, aquela da qual, enfim, eu tamb√©m podia ser autora. Recolhi a boneca do ch√£o, penteei com a ponta dos dedos a franja muito loura, muito sim√©trica, e agora desfeita: magoava-me que minha Suzi fosse o inocente motivo de desaven√ßa. Dei as costas para Paula e para sua porqueira de casinha em madeira pintada de azul e subi de dois em dois os degraus do pr√©dio. Empurrei com raiva a porta da √°rea de servi√ßo de nosso apartamento, que estava sempre aberta.

Suja era ela. E toda a família dela. E os filhos, netos e bisnetos que ela ia ter.



Desde a morte de meu av√ī e desde que viera morar conosco, virava e mexia, a pose era a mesma: sentada na beira do sof√°, p√©s paralelos, cotovelo apoiado no joelho, queixo descansando na palma da m√£o.

Nessas horas, o olhar de minha v√≥ se perdia num alheamento de fulgura√ß√Ķes azuis, fixo na imprecis√£o de quem recolhe lembran√ßas encravadas numa rebarba de tempo. A imobilidade daqueles instantes era sempre cortada por um longo - t√£o longo - suspiro, arrematado por um oi, veis is mir, a lamenta√ß√£o dos judeus em todo o universo. "Pobre de mim", comiserava-se ela. Que triste era aquilo.

Na sala, encontrei-a na mesma posição, interrompendo-se num lamento que remontava a eras lá bem remotas. Sentei a seu lado no sofá. Fiz beiço para contar:

- Vó, me chamaram de judia suja.

Ela, a quem nunca fez falta o delicado essencial, me olhou espantada.

- Quem?

"Quem?" era pergunta de espectro amplo. Podia tamb√©m significar, "por qu√™?". Respondi, ainda dolorida, que Paula, a menina que morava no trezentos e quatro, queria que minha Suzi fosse a empregada no brinquedo de casinha. A v√≥, que farejava de longe as disposi√ß√Ķes hier√°rquicas mal-intencionadas, teceu um improp√©rio em i√≠diche. Depois falou devagar, para que eu compreendesse:

- Você é a menina mais limpa do planeta. Ela que é uma mischigne. Entendeu?

Paula era, na voz da vó, uma louca - dito no antigo dialeto, o insulto era muito maior. O mundo voltara a se organizar, as terríveis histórias que sempre escutei passaram a fazer todo o sentido. Abraçada à minha Suzi, descansei a cabeça sobre as pernas da vó, aspirando o perfume da florzinha de jasmim - mimo que a dona da casa ao lado lhe alcançava todas as manhãs e que ela, faceira, sempre trazia dentro do sutiã.
Entremeava os dedos de juntas nodosas em meu cabelo, crespo como o seu: fazia e desfazia a mesma trança numa mecha cuidadosamente repartida. Pelos repetidos suspiros, soube que estava angustiada - tanto que começou a reprisar aquela história de cossacos com sabres em seus cavalos. Melhor não ter contado a ela sobre a briga: reavivava na coitada uma dor grande. Não queria que ela sofresse.

E eu também fazia e desfazia uma trança no cabelo da Suzi. Num suspiro que interrompeu minhas ternuras, fui gêmea de minha vó: odiava tanto Paula quanto ela odiava os cossacos.




No final daquela tarde, quando o pai e a mãe chegaram, reuniram-se os adultos em nervoso comitê na sala de jantar: a vó contava do meu primeiro enfrentamento, enquanto eu, na cadeira ao lado do pai, protegia bem forte a Suzi contra o peito. Meus dois irmãos, que vinham do futebol, entrando em algazarra pela porta da área de serviço, foram chamados à sessão - e que parassem com aquela bagunça, tratava-se de assunto sério. Sentaram-se, os rostos no vermelhidão do suador: eram a alegria interrompida.

O pai espalmou as duas m√£os sobre a madeira da mesa, os olhos ferviam de ultraje. Voltou a lembrar daquela hist√≥ria que era nosso horror ancestral: o √≥dio, as persegui√ß√Ķes, os mortos a troco de nada e - horror entre os horrores - a casa e a fam√≠lia da v√≥ arrasadas num pogrom, daqueles com cossacos em seus cavalos. Nossa velhinha emitiu mais um suspiro, os olhos se perderam em novas cintila√ß√Ķes azuis. O pai deu um jeito solene √† voz:

- Daqui por diante, que nenhum de n√≥s volte a falar com aquela mocinha anti-semita - e punha-se bem em seu papel de patriarca. Olhando para mim, agora com ternura de aprova√ß√£o, ele acariciou a minha franja e a da minha boneca: - Voc√™ fez bem em chamar aquela burra de burra. Nada de humilha√ß√Ķes e de vergonha.

A m√£e emendou:

- Se você se abaixa demais, aparece a calcinha.
A vó fez pu-pu-pu, a simulação das três cusparadas, espantando a presença do diabo.

A partir daquele momento, nós, os filhos, fomos invadidos pela consciência da vergonha que havia em ser humilhado. Era tão indigno quanto mostrar a bunda.


O pai, ao nos preparar para dormir, sempre dizia que a vida começava no dia seguinte. A frase era declinada em italiano, fato que, partindo de um filho de imigrantes judeus russos, tinha lá sua parte no insólito - sem nunca deixar de ser verdadeira. Assim, dias melhores vieram. Tanto que já era época do Yom Kipur. Como sempre acontecia nos arredores do Dia do Perdão, uma bela tarde minha vó trouxe da rua uma galinha.

Viva.

Conhecia de cor o roteiro a ser cumprido dali por diante, motivo pelo qual sempre me neguei a comer carne de qualquer ave. A abomina√ß√£o: o bichinho teria uma das patas amarrada ao tanque de lavar roupas e ficaria preso por uns tr√™s dias na √°rea de servi√ßo, o piso coberto por jornal para proteger dos coc√īs, ciscando numa gamela de madeira gr√£os de grosso e amarelo milho. Para mim, o espet√°culo era mais do que terr√≠vel: escavada num tosco peda√ßo de pau, a √ļltima refei√ß√£o da condenada. Eu, que costumava entrar no apartamento justamente pela porta de servi√ßo, passaria por ela v√°rias vezes, desviando o olhar, com culpa impotente de deix√°-la em seu pavor de prisioneira da sua pr√≥pria natureza e de seu destino de galinha - o f√©retro seria uma assadeira, o corpinho de asas curtas e pernas abertas rodeado por cebolas e por batatas luzindo na gordura dourada. Na v√©spera do jantar que romperia o jejum, haveria um gritedo na cozinha: a v√≥ em √≥i-√≥i-√≥i, e a galinha em desespero de cacarejo, as duas se altercando numa batalha desigual. Eu fugiria da contenda, os ouvidos tapados com as palmas das m√£os, rezando para que aquilo tudo passasse logo, passasse logo, passasse logo. Da luta, √† qual se somaria um asqueroso cheiro de queimado, haveria um s√≥ vencedor. Era, segundo meu pai, a lei do mais forte: a hist√≥ria de David e do gigante Golias √†s avessas.

Enfim seria sil√™ncio f√ļnebre - dessa maneira passei a ensaiar os primeiros lutos de minha vida. A v√≥ me chamaria por meu nome em i√≠diche, coisa muito s√©ria. Eu iria √† cozinha, cheia de ang√ļstia na antevis√£o da cena tr√°gica, a galinha pendurada pelas patas √† torneira, o sangue escorrendo do talho da degola sobre a lou√ßa branca da pia. Um golfo de n√°usea, e eu ficaria ali, no meio do assoalho de ladrilhos, dura de obedi√™ncia, para que a v√≥ desse sete voltas com o bicho morto sobre a minha cabe√ßa, recitando alguma b√™n√ß√£o esquisita. Pronto: o sangue impuro da ave escoado pelo ralo, e eu teria feito parte de mais um estranho ritual antepassado. A morte da galinha, dizia a v√≥ no seu torto sotaque, levara todas as ruindades que me cercavam. Pobrezinho do bichinho.

Naquela tarde, no entanto, por aquele instinto ativo a que estava me habituando, fui até a cozinha antes que o momento tétrico chegasse. A galinha em cacarejo: penas pardas arrepiadas, pata presa por um cordão ao tanque, zonza de tanto ser bicho. Sem atinar o inescapável da situação, tentava se desvencilhar do sacrifício. A vó, cantarolando distraída, areava a panela de arroz com uma barra de sapólio. Era uma desumanidade: como ela, logo ela, podia ficar indiferente ao terror ali do lado?

Foi a√≠ que aconteceu: a galinha me olhou. Um olho de esperan√ßa, como se eu tivesse algum poder messi√Ęnico. E as pupilas pretas da galinha, com um espanto de cera preso nas p√°lpebras amendoadas, pediam qualquer gesto redentor da crian√ßa que eu era. Amor de salva√ß√£o era coisa de adultos. Mas houve um momento em que a bondade me ultrapassou, porque um dia eu seria m√£e, e porque era filha e neta e irm√£ e sobrinha. Acocorada, repeti os mimosinhos e afaguei a crista sang√ľ√≠nea e tenra, a galinha deixando-se acariciar como se fosse um gato ou um cachorro. Como se n√£o fosse uma galinha. Alguma coisa, em mim e nela, acontecia, algo que eu n√£o chegava a entender a olho nu. Sei hoje que a galinha foi acometida de uma esperan√ßa dif√≠cil e torta, mas ainda assim esperan√ßa.

Eu, dona de uma vida, autora de uma verdade, disse impositiva de redenção:

- Essa galinha não vai morrer - e, para garantir minha ordem, igualei bicho a gente: - O nome dela vai ser Hortênsia.


No jantar de Yom Kipur, a mesa era mais do que matar a fome: tivemos beigales de batatas que estouravam em crostas tostadas, knishes de ricota fofos na textura de gordura e farinha, saladas de mangas e mel√Ķes nadando em espesso creme agridoce, torta de berinjelas e cebolas que cintilavam √† luz do casti√ßal de prata. O chrein, na energia colorida das beterrabas, acompanhava os bolinhos de peixe: comemos guefiltefish ensopado com tiras de cenouras, piment√Ķes e tomates. Est√°vamos pacificados pela fartura, esperan√ßosos pelo ano que se iniciava, mas mesmo assim meus irm√£os reclamaram. Foi o primeiro Yom Kipur em que n√£o houve disputa pelas coxas de galinha. Uma vez que galinha n√£o havia.

O bem tinha vencido.

Eu nem acabei de comer direito, pedi licença para ir ver Hortênsia, que descansava na área de serviço, acomodada no cestinho de palha montado dias antes. Porque era feriado santo, o comentário de meu pai, à cabeceira da mesa, foi comedido:

- E essa agora.


Naquela madrugada, a casa foi sacudida por uma gritadeira de mundo que está acabando: Hortênsia finava-se em cocoricação e bater de asas. Pulei da cama. A mãe saía do quarto abotoando-se no chambre, o pai vinha atrás de peito nu. A luz da área de serviço estava acesa. Reconheci o vulto da vó, de pé frente a Hortênsia, que, por seu turno, colocara-se de pé sobre o ninho. Os braços da minha velhinha estavam caídos ao lado do corpo; Hortênsia não parava de bater as asas. O pai espetou no ar o indicador, o dedo apontando a surpresa.

- Um ovo - ele disse, agudo de espanto - a galinha botou um ovo.
O rosto da vó se iluminou. Disse o que se costuma dizer nessas horas, em iídiche, claro, e em português:

- Mazel tov - eram os aug√ļrios de felicidade futura. - Que venha em boa hora.

A mãe, que sempre adorou bebês, enterneceu-se:

- Que amor!

Eu, sonolenta, custei um pouco a entender. Logo a mãe mandou acordar os meninos, viessem todos, que a galinha agora também era mãe. Foi meu irmão o primeiro a se dar conta:

- O ovo tem pinto dentro?

O pai olhou-nos a todos. Tinha uma express√£o desolada:

- Mas é cada uma que me acontece.


Hortênsia passava a maior parte do tempo no ninho. Entronizada, o peito estufado, permanecia altiva em sua condição galinácea, feliz de estar chocando. De vez em quando, piscava os olhos lentamente: podia jurar que ela pensava.

- Uma gravidez, ainda que do lado de fora, n√£o deixa de ser gravidez - a m√£e ponderou quando eu quis pegar o ovo para ver se tinha pinto dentro.
- Deixe a Hortênsia chocar em paz. E troque os jornais da área de serviço, ninguém quer ser mãe meio no meio da cocozada.

Assim, ao lado da grávida, eu me sentava na cadeirinha de vime que o pai tinha me dado. Minha vó passava as tardes na área de serviço, contando histórias no conforto da cadeira preguiçosa, que, agora, migrara para o berçário da casa. Ela me ajudava a fazer tranças em minha Suzi, costurava roupinhas novas, fazia de conta que a gente, as três, passeávamos. Hortênsia e eu aprendíamos as delicadezas da maternidade.

Lá uma bela manhã, todos se preparavam para ir à escola, quando novo alarido na área de serviço invadiu a casa. A vó se exclamava toda, dava gritinhos em ui-ui-uis de alegria, viéssemos todos ver.

Eu e a mãe fomos correndo. O pai, ainda ajeitando a gravata, nos seguiu porta afora. Daí que eu vi:
a casca do ovo quebrada.

Um pintinho.

E ele piou.

Foi um pio sofrido e choroso, pio fino que estremece quem ouve. √Äquela altura, lambuzado das secre√ß√Ķes natais, o pinto resplandecia de amarelo, acontecimento de penugem perfeita - uma gra√ßa. Dei um passo √† frente e estendi a m√£o. Hort√™nsia, com uma rapidez de raio, bicou meu dedo. A v√≥ contemporizou:

- Bicho é igual a gente. A mãe não deixa ninguém mexer no bebê.

Entendi. Os irm√£os vieram correndo. Estacaram:

- Mas é um pinto - disse o mais novo.

- Um pinto - repisou o mais velho.

- Pois é, um pinto - trepliquei.

Enquanto fic√°vamos nessa de descobrir que o quadrado n√£o √© redondo, o pinto inaugurava a plena forma de seus pulm√Ķes: uma pia√ßada constante. A v√≥, nervos√≠ssima, repetia mazel tov, mazel tov, mazel tov, a m√£e n√£o parava de exclamar que o rec√©m-nascido era um amor - e o pinto era um ser em desespero com nossa alegria. O pai, meio abobado, pronunciou a pergunta do ano:

- O que a gente faz agora?

Nos entreolhamos: ter√≠amos de deixar que a natureza fizesse seus milagres, o pinto viveria sob os cuidados de Hort√™nsia, assim raciocinou a m√£e. Me veio a s√ļbita id√©ia: e o nome do pinto? O pai ia iniciar uma frase de protesto, mas se deteve, contrariado. Eu declarei:

- Ele vai se chamar F√ļlvio.

O pai me perguntou de onde eu tirava aqueles nomes, como se bicho fosse gente. Respondi que não sabia. Então ele fez uma consulta ao relógio e enxotou todo o mundo, hora de colégio. Antes de sairmos, foi dar uma olhada na área de serviço. Perguntei como andavam as coisas.

- M√£e e filho passam bem - respondeu, dando de m√£o na pasta de trabalho.

A fala era minha:

- E essa agora.

Ele fez que n√£o escutou.


Naquele dia e na semana que se seguiu, a fun√ß√£o da casa era F√ļlvio. √Äquela altura, ele j√° tinha mais corpo, as penas feito suspiros amarelos: passava o dia ciscando farelinhos. Vez que outra, eu consegui mant√™-lo na palma das m√£os, cuidando com a alma aquele ser cujos ossos pareciam gravetos numa montagem periclitante. Hort√™nsia mantinha-se alerta, mas n√£o me bicava mais. Tenho hoje certeza de ela se orgulhava em exibir seu pimpolho penugento.

A not√≠cia de que t√≠nhamos uma galinha, que a galinha tinha botado um ovo e que o ovo tinha virado um pinto logo se espalhou pela vizinhan√ßa. V√°rias vezes a campainha soava: F√ļlvio era o destino de visitas guiadas - todo mundo devidamente advertido de que podia olhar com os olhos, jamais com as m√£os.

At√© que l√° uma tarde de domingo, logo depois que os meninos sa√≠ram para o futebol, a campainha tocou. Como eu estava com a minha Suzi fazendo companhia a F√ļlvio e Hort√™nsia, corri a abrir a porta da √°rea de servi√ßo.

Paula.

A anti-semita.

Mantive a porta entreaberta, protegi a entrada de casa com meu próprio corpo. Perguntei ao inimigo o que desejava.

Queria ver o pinto.

Eu disse que est√°vamos proibidos de falar com ela. Ainda assim, insistiu:

- Minhas sinceras desculpas por ter ofendido você. Posso ver o pinto?

Havia ali uma variante que eu não dominava: o pedido de desculpas. Disse peraí, encostei a porta, corri para a sala, atravessando a cozinha. O pai lia o jornal. Expus meu drama:

- A Paula est√° l√° fora, pediu desculpas sinceras e quer ver o F√ļlvio.

- Anti-semitas só são sinceros no ódio. Essa menina não entra em nossa casa, caso encerrado - rosnou o pai.

- E o que eu digo?

- Diga que ela não é bem-vinda - ele se deteve um instante para a mensagem de desaforo: - E diga também que o pinto é judeu.

Foi a√≠ que parei. Fiz as contas: s√≥ √© judeu o filho de m√£e judia. Se o F√ļlvio era judeu, ent√£o faltava um peda√ßo da hist√≥ria. A pergunta foi imediata:

- Pai, a Hortênsia é judia?

Ele descolou os olhos do jornal, não sem algo de impaciência. Decidiu salomonicamente:

- Nós adotamos a galinha. Ela e o pinto estão sob a responsabilidade de uma família judia.

Eu raciocinei em voz alta:

- Se nós adotamos Hortênsia, então ela faz parte da família. Como somos judeus, ela também é judia.

O pai desviou a atenção do jornal. Me escutava visivelmente interessado, mesmo que o raciocínio fosse meio caolho.

Concluí:

- Portanto, o filho dela também é judeu.

Ele arregalou os olhos. Deteve-se um instante, pensativo. P√īs fim ao assunto:

- Pois ent√£o, foi o que eu disse. E essa menina n√£o p√Ķe os p√©s aqui. √Č uma chicse, uma schleper e uma sonem.

No i√≠diche arrevesado de meu pai, as tr√™s express√Ķes eram o desprezo m√°ximo: a menina era, pela ordem, uma n√£o-judia desprez√≠vel, uma vagabunda e uma inimiga. O caso chegara a seu final. Ajeitei minhas tran√ßas e revisei mentalmente os fatos do di√°logo. Ia j√° j√° dizer para Paula que as desculpas n√£o seriam aceitas, que anti-semitas n√£o eram sinceros e que F√ļlvio era judeu, bem assim, daquele jeito. O pai nem baixou o jornal:

- √Č.

Foi ent√£o que ouvimos o estardalha√ßo cocoricante de Hort√™nsia e o piar aflit√≠ssimo de F√ļlvio.

Tive uma agulhada de lucidez - pensei na minha Suzi -, e custei a crer na intui√ß√£o, erro que me fez ficar im√≥vel no meio da sala. O pai se p√īs de p√© num salto, a v√≥ e a m√£e sa√≠ram de seus quartos correndo. Eu n√£o conseguia me mexer.

Ouvi gritos - do pai, da mãe, da vó.

O sangue voltou a me correr nas veias. Atravessei a cozinha voando. Na área de serviço, a cena era um pesadelo em andamento.

Paula estava dentro de nossa casa.

Pior: estava na área de serviço.

Muito pior: tinha F√ļlvio apertado na concha das m√£os.

Mais amarelo do que nunca, meu pintinho piava em p√Ęnico, os dedos assassinos pressionando a complei√ß√£o delicada de beb√™. Quis avan√ßar, a v√≥ me deteve pelo ombro e disse algum grosso improp√©rio, as veias do pesco√ßo infladas. Hort√™nsia era o quadro do desespero: batendo as asas, arremetia contra as pernas da menina, que, aos chutes com a ponta do sapatinho de verniz, achava jeito de se defender. Minha m√£e colheu a galinha entre os bra√ßos, numa estrat√©gia de defesa. O pai, em rea√ß√£o en√©rgica, avan√ßou e sacudiu Paula pelos ombros, aos gritos de larga, larga, larga. Os cachinhos e fitas e babados agitavam-se com os safan√Ķes. O rosto, entretanto, tinha a frieza de quem nasceu com o instinto dos maus:

- N√£o largo o pinto coisa nenhuma. O senhor est√° me machucando. Vou contar para meu pai.

- Pois conte para quem quiser. Se você não largar esse pinto agora, daí sim que vai aprender o que é uma surra - e dizendo isso, o pai ergueu a menina do chão.

Os sapatinhos de verniz ficaram balançando no ar. Ela desatou num berreiro, coisa que lhe garantiu a liberdade.

O pinto, sumidinho entre os dedos da infeliz, piava cada vez mais fraco, de cortar o coração. A vó falou algo entredentes e me libertou. Antes que eu avançasse em direção à desgranida, aconteceu:
vinda do nada, de lugar nenhum, a vassoura de pia√ßava com que se varria o ch√£o zuniu no ar e se estatelou em plaft nas costas da menina. Paula gemeu e imediatamente curvou-se. F√ļlvio espremido na m√£o que se levantava para a defesa. Todos estacamos, aparvalhados diante da cena: segurando a vassoura, a v√≥ tinha os olhos cintilantes de √≥dio, as veias do pesco√ßo inundadas de f√ļria mosaica - Paula tinha virado um cossaco. Num arranque de instinto, a v√≥ ergueu o cabo acima da pr√≥pria cabe√ßa, pronunciando uma enorme senten√ßa em i√≠diche, e, cuspindo aos p√©s da menina, voltou a golpe√°-la com vitalidade.

E outra vez golpeou, e outra, e Paula, obedecendo √†quele impulso com que os ruins j√° nascem, esquivava-se a correr de um lado a outro com o pinto entre as m√£os, provocando um rebuli√ßo nos jornais que forravam o piso. A v√≥, tamb√©m obedecendo a velhas tradi√ß√Ķes, ganhava uma energia nunca vista e perseguia a menina brandindo a arma de pau e pia√ßava. O pai tentou cont√™-la, mas ela, num urro, desceu uma tremenda vassourada no genro, viol√™ncia que lhe atirou os √≥culos longe. Protegendo-se com o antebra√ßo, o pai p√īs-se de quatro a procurar a arma√ß√£o que ca√≠ra perto do ninho, justamente onde minha Suzi ficara descansando.

E a v√≥, em sua lei de tali√£o - a vassoura era agora um sabre -, continuou em golpes e golpes, e a m√£e recuou com Hort√™nsia nos bra√ßos, e cada plaft que ouv√≠amos era uma insurrei√ß√£o, um ato de rebeldia, uma vontade crua de vingan√ßa, o √≥dio cintilando no miolo dos olhos azuis. A v√≥ tinha, finalmente, m√£os de punir, cora√ß√£o sem nenhuma ternura, e d√°-lhe a sarrafear a menina - que, imune √† dor de tanta ruindade, j√° tinha os cachos desgrenhados e os sapatos e carpins sujos de coc√ī de galinha. E que, acuada contra a parede, os dedos completamente fechados em torno do corpinho de nosso mimoso, pronunciou, √≠ntima do diabo:

- N√£o adianta bater em mim. O pinto est√° morto.

A vó parou.

O pai parou.

O mundo parou.

A menina abriu os dedos, e o corpinho molenga foi parar no monte de jornais amarfanhados. A bandida riu - um riso que foi cortado por uma bofetada do pai. Paula começou um berreiro e correu porta afora, gritando e gritando.

Quanto a nós, fizemos um círculo em torno do defunto nascido de clara e gema, o silêncio de quando um anjo passa. O pai pronunciou nossa profissão de fé, o Shemá Israel. A mãe, protegendo Hortênsia, correu aos prantos para a cozinha. Que ela não visse o filho morto.

Em mim, voltava a desatar-se uma hemorragia de raiva e dor. Peguei minha Suzi, apertando-a entre os braços: chorava. O luto se instalara de novo em nossa casa. Aos soluços, perguntei a meu pai por que aquilo tinha acontecido. Ele, cobrindo o finado com o lenço de cambraia que levava sempre no bolso da calça, me ensinou:

- Às vezes não existe por quê.

Daí me abraçou bem forte. Foi a primeira vez na vida em que vi o pai chorar.


Hort√™nsia continuou a viver conosco e, apesar de todo o conforto que lhe d√°vamos, o olhar era constantemente aterrado, uma express√£o de ser que tem o susto nas entranhas. Morreu velhinha, velhinha, na mesma cesta de palha na qual chocou o √ļnico filho. A carne de ave - qualquer ave - foi banida de nossa casa, por respeito √† doce mem√≥ria.

Quanto a mim, casei-me com um m√ļsico judeu de sobrenome Stern, como o violinista. Temos uma √ļnica filha, Fl√°via. Hoje, minha pequena voltou do col√©gio com uma novidade: trazia um pintinho, conseguido sabe-se l√° onde, uma gra√ßa. Recebi os dois, na resigna√ß√£o materna: um eu mandei para o banho, outro pus numa caixinha forrada com jornal. Coisas passadas voltaram.

Na hora da janta, apesar da contrariedade do meu marido, o pintinho foi colocado para nos fazer companhia. Contei a Flávia que eu também tive um pintinho quando era criança e que ele havia sido morto por uma menina muito má. Minha filha, apavorada, quis saber:

- Por quê?

Olhei o pinto: parecia-se √† gema que havia sido, tr√™mulo de inf√Ęncia. Olhei meu marido, olhei minha filha: eles esperavam a resposta que ia salvar a fam√≠lia e a humanidade.

- Sei l√° - quis ganhar tempo.

E já ia falar algo sobre pogroms, holocaustos e pescoços quebrados, quando fui interrompida por um longo - tão longo - piar do pinto.

O adorado estava resplandecente em sua sabedoria amarela.


Para Rosa Soirefman e Rosa Moscovich, avós

 

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