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Teatro

A babel em expansão
Isabel Bonorino


“Não espere uma peça familiar”. Realmente, a resposta do professor e ator Zé Adão Barbosa minutos antes do início da peça Babel Genet resume o espírito do espetáculo.

Sexta-feira, 16 de maio. Depois de mais de seis meses de trabalho do diretor Humberto Vieira e do ator Felipe Nicolai, o cenário com praticáveis, que tanto podem representar um cabaré ou a própria Torre de Babel, ganhou o palco do Teatro Renascença, em Porto Alegre.

Teatro lotado, cheiro de incenso e, depois de mais de meia hora de atraso, um público ainda mais curioso pela estréia, que marcou também a volta de Humberto Vieira aos palcos. Afastado há mais de dez anos, o diretor encarou o desafio, juntamente com Nicolai, de repensar e transformar a poesia do escritor francês Jean Genet* em linguagem cênica, reunindo um grande elenco que canta, dança e representa.

A peça fala de homossexuais, prostitutas e cafetinas; de marginalidade e exclusão a partir de poemas selecionados da obra de Genet, o que reforça a trajetória de espetáculos de Humberto e suas histórias não-lineares. Transformados em linguagem contemporânea, os versos de uma poesia dura, até porque servem para refletir a realidade de personagens degradadas, têm uma melodia harmoniosa e viraram canções na voz dos atores da peça. Canções essas, compostas especialmente para o espetáculo por Thedy Correa, que assina a direção musical da peça.


O fim da várzea

O recurso, apesar de surpreender o público por trazer atores cantando, parece não ter sido muito bem entendido. “Parecia um videokê”, afirma o estudante de artes cênicas e ator Edgar Benites, que apesar de elogiar cenário e figurino, não quis dar sua opinião sobre o espetáculo como um todo. A mesma reação tiveram outras pessoas que ao final da peça limitaram-se a dizer o já batido: “sem comentários”, fugindo da reportagem. Porém, um pouco mais de atenção ao tema e à proposta de Babel Genet, permite outra visão da montagem de Vieira e Nicolai. Se o que temos é um cenário onde homossexuais, vagabundos e prostitutas sobrevivem, o estranho seria ver a atriz Mirna Spritzer cantando como Madonna ou Loreena McKennitt. Mas não, era uma atriz interpretando um travesti cantando na rua, ou mesmo em uma boate, ou um cabaré de quinta categoria (e com videokê, se assim preferirem! Ou seja, o fim da várzea, aliás, o mais adequado ao tema proposto no espetáculo, mas a leitura é livre!), ou seja, uma personagem, teoricamente, sem necessidade de maiores dotes musicais, ou de uma bela voz, pelo contrário, ela simplesmente está cumprindo a tarefa de dar ao público o clima da peça. Nada de pensar em algo estilo Nicole Kidman em Moulin Rouge, pois, provavelmente, essa não era a idéia dos diretores.


A Babel vira realidade e se expande

A Babel de Humberto teve o coro grego**, recurso utilizado recentemente também na peça `Deus ou nada`, no Porto Alegre em Cena. Porém, a atuação do coro não se restringe a pequenas aparições, geralmente explicativas do que está acontecendo ou do que está por vir, como aconteceria na concepção normal dessa ferramenta. Ele serve para mostrar a unidade confusa dentro da multiplicidade daquele universo caótico e marginal. Os diálogos se repetem com os vinte e quatro personagens que interagem em cena, dando uma idéia de que uns são sombras dos outros, de que suas vidas têm muito em comum, mas que mesmo assim, pouco se entendem, pouco sabem uns dos outros e pouco compreendem sobre o que ocorre naquele universo onde reina a falta de expectativas de algo bom acontecer. A Babel sugerida toma conta do público também, pois se no palco ninguém se escuta, no final a cruz invertida e o nu transformam a Babel em realidade para o público, pois poucas foram as pessoas, incluindo atores e diretores de teatro, que se dispuseram a dar uma opinião sobre o que viram. Até mesmo o diretor e ator Júlio Conte limitou-se a dizer que faria comentários apenas em seu blog, coisa que até o fechamento dessa matéria não ocorreu. Entre tantos outros entrevistados, Zé Adão Barbosa, foi um dos poucos que parecia saber realmente o que esperar do diretor e afirmou que o espetáculo estava dentro de suas expectativas. Vá conferir, mas, parodiando o Zé, não espere uma peça familiar.

* Jean Genet (1910 - 1986). Filho de prostituta, homossexual assumido, com várias passagens por prisões, amigo de Michel Foucault, Jean Cocteau e Sartre, o francês retratou sua realidade em peças como O Balcão e em romances como o autobiográfico Diário de um Ladrão.

** “Desde a Grécia de Aristóteles recomendava-se a associação do coro à ação da peça (cap. XVIII da Poética ), mas a evolução da narrativa dramática no sentido de causa e efeito fez com que o papel do coro se restringisse a uma mera decoração para, em seguida, desaparecer. No século XX, é justamente com o Teatro Épico que o coro é resgatado como um importante elemento de linguagem cênica.” Luiz Paulo Vasconcellos - Dicionário de Teatro

28/05/2008

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  Isabel Bonorino

Isabel Bonorino é jornalista, radialista e relações públicas. Musicista, dedicou-se ao canto lírico de 1995 a 2005, atuando como soprano nos corais da Ospa e PUC. Foi colaboradora da Revista Literária Blau e produtora/apresentadora na Rádio da Universidade, onde criou o programa "UFRGS em Canto". Atualmente é produtora e repórter da TV Assembléia.

isabel@artistasgauchos.com.br
twitter.com/ISAbonorino


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