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Literatura

Plim! A mágica da palavreta!
Celso Sisto

As histórias estão povoadas de animais. Até parece que no território do imaginário eles vivem mais à vontade... pelo menos, mais livres e talvez até mais superlativizados, porque mais cheios de enredos, de aventuras, livres da domesticação e do controle de seus donos!

Gato então é figurinha fácil em história pra criança! Mas, também, há gatos tão célebres! Poderíamos lembrar uma ninhada deles: o Gato de Botas, o gato Felix, Tom, Frajola, Garfield etc. Sem esquecer, é claro, do mais enigmático, o gato de Cheshire, o famoso gato de Alice no País das Maravilhas, com aquele sorriso de orelha a orelha, marcando para sempre sua existência no mundo da fantasia. Esse gato, com “ares filosofais” é conselheiro, como nesta conversa com Alice:

“Você poderia me dizer, por favor, que caminho devo seguir para sair daqui?
“Isto depende bastante de onde você quer chegar (...).
“Eu não me importo muito com isso (...).
“Então não importa muito que caminho você irá tomar.”

Mas, tão propalado como o gato que ri é o tal do gato xadrez! Nomeado aos quatro ventos, pelos versos populares: “Era uma vez um gato xadrez,,,, quer que eu te conte outra vez?”; “Era uma vez um gato xadrez, entrou num buraco e saiu outra vez”; “Era uma vez um gato xadrez. Pulou a janela, quer que eu conte outra vez?”. São muitas as variações possíveis! Tantas quantos são os pulos do gato! Êpa, outra idéia da cultura popular: “o pulo do gato”. Aquele escondido na manga, para usar quando menos se espera, e que não se ensina pra ninguém! A cartada final, transformadora! E redentora!

Mas gato tem ainda uma simbologia vasta, dependendo da civilização. Para os celtas ele já teve nove vidas (atualmente tem sete); seus mistérios associam-no aos poderes da lua, ao mundo da magia e às bruxas; e os machos pretos eram a personificação do diabo. Para o budismo ele representa a sabedoria, a prudência e a vivacidade. Para a tradição popular japonesa era um animal que atraia má sorte. No antigo Egito era um ser divino, que ao morrer (de morte natural) obrigava as pessoas da casa a rasparem as sobrancelhas em sinal de luto. Enfim, estamos diante de um “personagem” que tem atrás de si uma enorme riqueza simbólica.

E respaldada neste universo de significações, está a história de Letícia Wierzchowski. O livro conta de um gato xadrez que queria porque queria mudar de cor. Era intelectual, falava línguas, mas queria ser discreto. Seu desejo de mudança de pelagem o levou a uma loja de tecidos, a um cabeleireiro e nada! Até que se depara com um periquito adivinho, que sugere os serviços de uma bruxa que curava qualquer coisa. Montado em uma águia de fino humor, o gato vai parar na casa da bruxa, que ficava num desfiladeiro, no alto da colina. Mas a bruxa mal falada e acostumada a mal-feitos, está gora aposentada, embora faça alguns feitiços usando técnica moderna. Se o pedido do gato xadrez, para ser preto de fato, for atendido, pode até pintar um romance e uma sociedade, unindo línguas e informática. Quem sabe?

A história é contada em versos e por isso tem o aspecto de um grande poema narrativo. O livro torna-se assim, delicioso, por uma série de motivos: a musicalidade das rimas, as quadras elegantes e um vocabulário sem concessão ao fácil. Há “estrofes” de três, quatro, cinco, seis versos:

“Um gato xadrez é muito visado
sob o sol ou sob a lua
é o mais vistoso da rua
é sempre o grande culpado.”

(...)

“Um intelectual felino
que sonhava com
um pêlo alabastrino
e um ar de lorde inglês.”

E são muitas as idéias engraçadas na história: um gato que tem astigmatismo e por isso se sente incomodado com seu pêlo xadrez, uma águia que gosta de churrasco de menino, uma bruxa doente e aposentada, um pouco esquecida, que doou seu caldeirão, que mora numa casa alada (e branca!) e usa i-pod, computador e internet! O livro desconstrói o estereótipo da bruxa clássica, modernizando-a com todos esses elementos! Mas a risada da bruxa está lá, embora ela mesma diga:

“Tu tens sorte, disse a bruxa.
Fazer maldades não está com nada.
E, além disso, ando doente
e sempre derrubo a poção”.

Mas a maldade clássica é redimida mesmo pelo amor. E é o gato quem propõe a união exótica, que acaba gerando uma imagem romântica: um gato que faz pudim, que ensina latim, que vai à quitanda, declama Rimbaud (o poeta francês) e cultiva alamanda no jardim; uma bruxa que faz ginástica, varre a varanda, faz tricô e trabalha com computador. A graça é mantida o tempo todo com essas soluções contrastantes e inusitadas!

Dessa forma, gato e bruxa continuam inseparáveis!

As ilustrações do livro são todas em preto e branco (aparentemente feitas a nanquim!): um retângulo, de tamanho regular, aplicado num fundo branco, com bordas xadrez. Nas páginas de texto, a letra grande e a cor lilás completam o projeto gráfico. Essa intercalação do lilás e do branco, no virar das páginas, produz um contraste dinâmico e de bom impacto. Talvez, exatamente por ser o lilás a cor da alquimia, da energia cósmica, da inspiração espiritual e da magia. E o uso dessa cor fica perfeito como significado da transformação!

Letícia Wiercozchowski ficou conhecida pelo seriado “A casa das sete mulheres”, adaptado pela Rede Globo, em 2003. A minissérie revelou e projetou sua obra, sua escrita e seu talento. Para crianças já publicou: O dragão de Wawel e outras lendas polonesas; Todas as coisas querem ser outras coisas; O menino paciente (em parceria com seu marido Marcelo Pires).

Virgílio Neves tem sido sempre o ilustrador dos livros infantis de Letícia, exceto o de lendas polonesas, ilustrado por André Neves.

WIERZCHOWSKI, Letícia. Era outra vez um gato xadrez. Il. de Virgílio Neves, Rio de Janeiro, Record, 2008. 32 p.

31/07/2008

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