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Literatura

A Cor do Mundo
Celso Sisto

Imaginem se o mundo fosse sem cor?! Muita coisa perderia a graça, a beleza, o mistério, o encanto. Mesmo que a vista alcançasse o longe-bem-longe!

Neste livro sem texto, a menina espia o mundo da janela de sua casa, na companhia de seu gato e de uma bolsinha colorida. Tudo é preto e branco, exceto a menina, seu animal de estimação e a tal bolsinha. Ao deparar-se com um casal de agricultores (talvez seus pais) e presentear-lhes com uma pedrinha verde, ela ganha uma bicicleta, miniatura, que de repente fica grande, e com a qual ela atravessa os campos, pedalando, em direção à cidade (sempre na companhia do gato e da bolsinha). Para entrar na cidade (Veneza), ele usa outra de suas pedrinhas, agora azul, e recebe da estátua que guarda o portal (Dante Aligheri), um galinho desses que marcam os pontos cardeais e que se costuma colocar em cima dos telhados. O objeto cresce e passa a fazer parte da bicicleta da menina. Agora, ao percorrer as ruelas e arcadas, ela encontra um pintor (Leonardo da Vinci?). Dá a ele uma pedra vermelha, ganha dele um pequeno dirigível, que ela imediatamente acopla à bicicleta. Depois encontra uma mulher de negro (quem sabe, a própria noite?), que lhe dá um bauzinho. Ao abrir o baú, a menina liberta a lua, ganha uma caixa dourada que vira o próprio sol e assim volta pra casa escorregando nas cores do arco-íris. Seu passeio completa o ciclo. 

Mas esta é só uma das possíveis leituras dessa história. Cada leitor pode inventar outras, uma vez que a narrativa é somente visual. Ou seja, a história é contada pela sequência das imagens.

Vale lembrar que os artistas da Idade Média já obtinham ótimos resultados explorando a imagem como processo narrativo. Há também um parentesco entre o livro de imagem e as tiras em quadrinhos.

Este tipo de livro, que começa a aparecer no Brasil, lá pelos idos de 1976, com Juarez Machado (e seu livro Ida e volta - publicado primeiro na Alemanha, Holanda, França e Itália antes de sair aqui.) é uma das formas mais democráticas da literatura. Atinge todo tipo de leitor (embora, seja algumas vezes alvo de preconceito por parte dos que têm medo de inventar textos! Ou dos que olham para as coisas apressadamente). Normalmente as crianças lidam com esse material de forma muito mais criativa que os adultos. Além do que a experiência estética proporcionada por esse tipo de livro, salva, de algum modo, a relação fugaz e fragmentária que as próprias crianças já têm com as mídias eletrônicas.

Aqui, Cristina Biazetto, em seu primeiro livro de imagem, cita visualmente o primeiro balão tripulado, construído pelos irmãos Montgolfier; o dirigível nº 9, de Santos Dumont; uma bicicleta do século XIX, feita de madeira; o poeta Dante Aligheri , o multi-artista Leonardo da Vinci e a cidade de Veneza. São referências requintadas, que fazem do livro um grande exercício lúdico.

A capa branca é extremamente elegante. O título de cor brilhante e a imagem de Veneza aparecendo no quadradinho vazado completam o toque de luxo do livro. Isso tudo é só o começo, a porta de entrada, porque no corpo do livro vamos encontrar as belas imagens que misturam tinta acrílica, aquarela, nanquim, lápis de cor, colagem, etc.

Mas há mais, muito mais. Por exemplo: Aurora é quem? A menina, protagonista do livro ou o período de tempo recoberto pela narrativa, que vai de uma aurora à outra, de um amanhecer a outro? E por que as coisas só ganham cor quando a menina chega perto e entrega a cada personagem uma pedrinha colorida? Aurora é só um momento do amanhecer? Ou é esse jorro de luz, que fazendo aparecer o dia, vai fazendo aparecer também o contorno das coisas, dos objetos, do mundo?  Da silhueta à iluminação total, quando se podem ver os detalhes, forma, volume, cor – e quem sabe, enxergar também o que fica por dentro? Aurora é ser, é fase, é ciclo de vida.

O globo terrestre, colocado no início e ao final do livro (em cima ainda é dia, embaixo já é noite (ou vice-versa) e ao redor está a bicicleta voadora da menina, cruzando o tempo) dá todo o tom da história. É uma vinheta que funciona como imagem-síntese no abrir-e-fechar do livro.

O mais estimulante é acompanhar o olhar infantil, o olhar da menina, que vai atribuindo sentido às coisas e ao mundo que a cerca. É o exercício de acompanhar a fantasia, pelo olhar da criança que conduz a obra. É a própria metáfora da literatura infantil e do fazer literatura para a criança. Uma maravilha!  


BIAZETTO, Cristina. Aurora. Ilustrações da autora. Porto Alegre, Editora Projeto, 2009. 40 p.


24/04/2009

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Comentários:

Tu e um pau no cú
Filha da puta, Sao Leopoldo RS 01/11/2012 - 09:28
Vai fazer uma plastica neste nariz
Lucas, Sao Leopoldo RS 01/11/2012 - 09:25

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  Celso Sisto

Celso Sisto é escritor, ilustrador, contador de histórias do grupo Morandubetá (RJ), ator, arte-educador, especialista em literatura infantil e juvenil, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Mestre em Literatura Brasileira, pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Doutor em Teoria da Literatura, pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e crítico literário de várias colunas dedicadas à literatura infantil e juvenil, na mídia impressa e on line.

csisto@hotmail.com
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