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Literatura

A boa estreia da Dublinense
Luiz Paulo Faccioli

Um dos mais importantes acontecimentos literários de 2009 em Porto Alegre foi sem dúvida alguma a criação da Editora Dublinense. Surgida em agosto com o lançamento simultâneo de três títulos, logo lançou mais quatro, fechando o ano com o cabalístico número de sete publicações: quatro coletâneas de contos, um romance, um livro de ensaios e uma autobiografia. Apenas um dos autores já havia lançado livro individual; os demais debutaram na Dublinense com edições bem cuidadas que nada ficam a dever ao profissionalismo de editoras maiores e já consagradas.

Comento aqui os três livros que inauguraram a Dublinense: O ideograma impronunciável, de João Kovacs Castro, Um guarda-sol na noite, de Luiz Filipe Varella, e Sanga Menor, de Cíntia Lacroix.

* * *

O processo de formação de um escritor dura uma vida inteira. Não há escritor que já nasça pronto e tampouco aquele que não tenha nada a crescer depois do último livro. A literatura é um eterno processo de aprendizado. Quanto mais se vive, e quanto mais se aprende, mais chance há de se viver e de se aprender. Mas existe também um aspecto bastante subjetivo e que parece contrariar a possibilidade de superação pela aprendizagem: há os que nascem com o talento para escrever, e há os que, mesmo querendo e tentando uma vida inteira, jamais chegarão lá. Será obra da genética, da água que se bebe, de uma determinada configuração astral na hora do nascimento? Talvez um dia a ciência venha a explicar o fenômeno. Mas há, posso garantir que há, o dom para escrever, e que poucos têm.

Quem gosta de ler está sempre à procura desses espécimes raros e, quando um aparece, é sempre um alento: a literatura continua a salvo.

João Kowacs Castro tem duas décadas de vida e lançou pela Dublinense seu primeiro livro de contos, O ideograma impronunciável. Segundo o autor, o livro foi escrito aos dezenove anos.

Tudo nele impressiona: o domínio do conto, talvez o mais difícil dos gêneros em prosa, a naturalidade do discurso, as belas e originais figuras de linguagem, o despudor de usar um léxico forte, às vezes chulo, mas sempre condizente com o universo ficcional, o timing preciso, o atrevimento de inserir poesia em meio à prosa — o último conto, inclusive, é todo ele escrito em versos. Não há uma linha temática, mas temas recorrentes, como anjos e alturas, que propiciam uma certa unidade.

Algumas passagens surpreendem pela construção sofisticada:

PASSOS NAS MINHAS PEGADAS! OLHOS NAS MINHAS COSTAS! Não tenho descanso.

Está bem atrás de mim. Entro em um prédio, dou de cara com uma escada. Meus pés se desfazem na velocidade da subida. Tudo para trás e para baixo, para trás e para baixo, e eu subo, uma rolha em direção aos milhões de fogos de artifício. Meu sangue minhas pernas meus pulmões. Sorrio canino, a língua de fora, o coiote repousando na beira do penhasco. Estou no topo de um prédio, tenho talvez minutos.

O ideograma impronunciável é obra de gente grande.

* * *

O conto se intitula O fruto, e diz assim:

Eufórica com o primeiro calor de novembro, não chaveou a porta do banheiro. E estava ali, em cremes, em espelho, em nudez, subindo o maiô pelas pernas muito retas, quando abriram a porta. Ela ergueu a cabeça com o susto, uma mecha dos cabelos caiu sobre a testa, a boca abriu-se vermelha para um grito que não veio e que se transformou em sorriso.

Ele quase recuou, também se assustara, mas acabou entrando.

Entre palavras de um e de outro, que nem ele nem ela voltariam a lembrar, conceberam o filho com o qual, dois meses depois, não saberiam o que fazer.

Eis aí bem exemplificada uma característica comum aos contos de Um guarda-sol na noite, do porto-alegrense Luiz Filipe Varella: todas as histórias começam de um jeito e terminam de outro. O elemento surpresa, que é inerente a qualquer conto, significa neste caso uma ruptura, uma guinada em outra direção que sempre se dá de forma abrupta, em função da extrema concisão perseguida pelo autor, outra característica da coletânea. Um guarda-sol na noite é o segundo título de Varella, que estreou na literatura em 2003, com Tinha um Telefunken preto-e-branco na sala.

O autor é pródigo em criar histórias originais a partir de situações corriqueiras vividas por personagens comuns. É o ponto alto da obra e uma virtude cara a qualquer ficcionista. A concisão, contudo, deixa às vezes no leitor um gosto de quero mais. Uma boa trama pede para ser explorada, e para isso é preciso tempo e espaço. Dito de outra forma, é preciso palavras. Nos contos mais longos pode se observar que Varella domina a técnica e tem bala na agulha para vôos mais altos.

* * *

Sanga menor, romance de estreia da porto-alegrense Cíntia Lacroix veio com a mesma qualidade editorial dos demais, a começar pela bonita capa criada por Samir Machado de Machado.

O livro traz a história de Lírio Caramunhoz, um moleirão que vive de parasitar a mãe e a tia-avó, enfiados num fim de mundo chamado Sanga Menor, pacata vila de interior a seiscentos quilômetros de uma fictícia capital. A sanga que batiza o lugarejo é também um local malvisto pelos moradores, sempre às voltas com crendices e maledicências. A trama está repleta de acontecimentos bizarros que, bem antes de sugerirem um realismo fantástico, são típicas dos causos interioranos contados em torno de uma fogueira. As peripécias de Lírio Caramunhoz formam um espetáculo à parte.

Cíntia Lacroix tem dois grandes méritos: o primeiro, a condução segura da história, que vem num timing preciso, onde tudo é necessário e nenhuma ponta fica solta; o segundo, a construção primorosa dos personagens — e o melhor exemplo é Lírio, um tipo que já nasceu antológico.

Quanto à linguagem, Cíntia Lacroix opta por uma narrativa algo gongórica, que força num vocabulário já em desuso e em construções sintáticas que lembram os rebusques próprios do jargão jurídico:

Correndo o dedo ainda trêmulo por uma das listras do robe, Lírio ponderou que palestrar consigo mesmo havia de ser o remédio definitivo contra a solidão. Porque pressupunha um destacar-se da própria pessoa, um duplicar-se. Mas era, ao mesmo tempo, coisa de gente com o parafuso frouxo. Dona Valderez era uma senhora gentil e equilibrada: era difícil imaginá-la entregue a tal esquisitice. Além disso, se estava falando de si para si, por que os intervalos de silêncio entre uma frase e outra? Até parece que ela queria oportunizar o aparte de um interlocutor, cuja voz, todavia, era inaudível, ao menos para além da porta fechada.

Esses percalços, no entanto, não tiram o prazer da leitura. Apenas nos fazem pensar o quanto a obra poderia ter crescido se fosse escrita com mais naturalidade.


03/03/2010

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  Luiz Paulo Faccioli

LUIZ PAULO FACCIOLI nasceu em Caxias do Sul em 1958 e lá viveu até 1977, quando mudou-se para Porto Alegre, cidade onde mora atualmente. É músico, compositor, juiz Allbreed e Instrutor pela The International Cat Association — TICA. Autor de Elepê (contos, WS Editor, 2000), Estudo das Teclas Pretas (novela, Record, 2004), Cida, a Gata Maravilha (infanto-juvenil, Galera Record, 2008) e Trocando em miúdos (contos, Record, 2008), participou das antologias Porto Alegre: curvas e prazeres (contos eróticos, WS Editor, 2002), Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século (Ateliê Editorial & eraOdito editOra, 2004) e 35 segredos para chegar a lugar nenhum (crônicas, Bertrand Brasil, 2007), entre outras. Integrou o grupo Casa Verde, participando das seis coletâneas lançadas pelo selo entre 2005 e 2008: Fatais, Contos de bolso, Contos de bolsa, Era uma Vez em Porto Alegre, Contos de algibeira e Contos comprimidos. É crítico literário, colunista de literatura da Band News Porto Alegre e colunista do portal Artistas Gaúchos.

lpaulof@terra.com.br
www.luizpaulofaccioli.com
twitter.com/lpfaccioli


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