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Literatura

Seda
Luiz Paulo Faccioli

Talvez tenha sido esse o primeiro gato que comprei por lebre na vida: em 1974, a reforma do ensino acabou com os antigos cursos científico e clássico, e, a um bando de adolescentes com idéia fixa no exame vestibular dali a três anos, o novo modelo apresentado, quando ainda cursávamos o ginásio, mostrava um currículo básico, com todo o conteúdo programático do segundo grau, acrescido de uma “terminalidade”, horrendo neologismo criado para designar um elenco de matérias extracurriculares de caráter profissionalizante. Assim esclarecido, optei pelo curso de tradutor e intérprete. A surpresa veio no primeiro dia de aula, ao descobrir que o currículo era todo ele voltado à opção feita — o que, no meu caso, significava um mínimo de aulas de matemática, química, física e biologia contra a prevalência do português, inglês, francês, literatura e algumas disciplinas de nomes esdrúxulos, como morfologia e estilística. Na condição de cobaias do novo modelo, passamos a viver às turras com a administração da escola, que era pública, exigindo as aulas das matérias que nos foram prometidas e depois sonegadas. E, nessa briga, deixamos de aproveitar pérolas de ensinamento que somente anos mais tarde tive a capacidade de reconhecer. Enquanto ansiávamos por alguém que nos mostrasse o pulo-do-gato para riscar o “x” no lugar certo na prova de português, mandavam-nos um idoso professor que, julgando corretamente ser o vestibular a conseqüência e não o objetivo de um processo de aprendizagem, ensinava a formação das palavras simultaneamente em três idiomas (ele conhecia doze).

O colégio era o Cristóvão de Mendoza, um dos maiores e mais tradicionais de Caxias do Sul, Serra Gaúcha. O professor, Zulmiro Lermen, que tinha paixão pelas palavras, e muito antes de elas se tornarem literatura. Lembro de uma vez em que, ao discorrer sobre a beleza intrínseca da palavra “rosa”, as lágrimas subiram a seus olhos claros de quase ancião. Ou de outra, explicando-nos o que era onomatopéia, quando se pôs a zunir: “zuin, zuin, zuin, zuind... wind”. E nós, de todo indiferentes, reclamando daquele velho gagá que nunca nos dava qualquer dica prática para marcar pelo menos um acerto na prova.

Concluí há pouco uma leitura fascinante. Decidido a escrever sobre o livro e querendo fazer jus à sua grandeza, a memória me trouxe de volta aquela tarde de 1974 em que o velho mestre chorou diante da beleza de uma palavra para uma platéia de jovens buliçosos a quem esse tipo de emoção dizia tão pouco. A viagem no tempo começou num singelo exercício de reflexão: o título da obra: Seda. Quatro singelas letras. O Seta original do italiano Alessandro Baricco — publicado em 1996, já vertido para outros quinze idiomas e que acaba de ganhar uma nova edição brasileira pela Companhia das Letras — vira Seda (espanhol e português), Seide (alemão), Silk (inglês), Soie (francês), vocábulos curtos sempre iniciados por “s”. Seta, seda, seide, silk, soie: uma sucessão que, parece, vai-se tornando mais macia à medida que deixa o italiano em direção ao francês. Em outras palavras, de uma língua masculina rumo à mais feminina das línguas do Lácio. “Sedoso”, por sua vez, remete a “suave”, e a própria sibilação também sugere “suavidade”. Uma carícia no ouvido. Mas como se diz “seda” em árabe? Em russo? Em japonês? “Seda” evoca luxo, requinte, leveza, mistério. Sensualidade. Recende também a algo anacrônico. E a um Extremo Oriente ainda não ocidentalizado. É de lá que vem a melhor das sedas:

Baldabiou conhecia (...) uma lenda que recorrentemente surgia nos relatos de quem lá estivera. Ela dizia que naquela ilha produziam a mais bela seda do mundo. E a produziam havia mais de mil anos, de acordo com ritos e segredos que atingiram uma exatidão mística. Baldabiou pensava que se tratava não de uma lenda, mas da verdade pura e simples. Uma vez tivera entre os dedos um véu tecido com fio de seda japonesa. Era como ter entre os dedos o nada.

(“Ter entre os dedos o nada” é uma definição de dar raiva de tão bela.)

Là voilà o Japão, com sua cultura tradicional e milenar que, aos olhos de um aventureiro do século 19, é paradoxalmente nova e excitante. O personagem é Hervé Joncour, francês de Lavilledieu contratado por um fabricante de seda local para ir ao outro lado do mundo comprar ovos de bicho-da-seda num país que, por duzentos anos, manteve-se fechado ao comércio internacional e ainda cultiva uma perigosa hostilidade em relação a forasteiros. Tal audácia vinha no bojo de uma premência: a economia de Lavilledieu florescia com a sericicultura quando uma praga começou a dizimar os ovos antes trazidos do Oriente Médio. No Japão, Joncour exercita seu talento de negociador e prova o fascínio de uma paixão proibida.

A figura de um comerciante de ovos de bicho-da-seda é por si só um mote dos mais atraentes. Mas o que de fato impressiona em Seda é o que seu autor consegue fazer com as palavras. Ou melhor, desfazendo-se delas. Ao longo de 65 capítulos, que ocupam exatas 115 páginas, Baricco escreve a história de uma vida em toda sua riqueza e complexidade. Deduz-se daí que muito pouco aparece com todas as letras: as sutilezas escondem-se nas entrelinhas. Numa concepção minimalista, cada palavra ganha um peso inusitado. A grande questão é saber escolher as palavras certas que levem o leitor ao que está oculto. A ponta que sinaliza o iceberg, na clássica definição de Hemingway. Eis aí a maestria de Baricco.

Há capítulos de um único parágrafo — um, pelo menos, composto de apenas vinte e duas palavras. Há parágrafos que sintetizam a passagem de vários anos. Para mostrar o quão penoso era viajar da França até o Japão através da Ásia, antes da abertura do canal de Suez, Baricco vale-se da repetição de um mesmo e sucinto trecho, martelado por quatro vezes de forma quase idêntica, que são justamente as quatro viagens empreendidas por Jabour. Entre elas, o erotismo corre com a delicadeza da seda. A natural, posto que a sintética só seria desenvolvida anos mais tarde.

Se Alessandro Baricco se dispusesse a escrever a longa introdução desta crônica, por certo ele a reduziria a uma quinta parte de seu tamanho atual — e, é claro, com um resultado infinitamente superior. O problema é que olho, analiso, reviso, corto, escrevo de volta, e não vejo como chegar à cena do professor emocionado, que é o que de fato eu queria contar, sem passar pela história que a precede (e que, sou obrigado a admitir, não tem nada a ver com o resto).

E chegamos enfim ao ponto: Baricco não conta, mostra. Explora as sensações. Constrói sua história a partir de singelas quatro letras, permanecendo, fiel, em seu entorno. Consegue um texto táctil, exótico, refinado. Soberbo.

Uma jóia rara.

Não, uma seda.


20/01/2008

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Comentários:

Muito bom resgatar a memória de Zulmiro Lermen! Legal! Fui seu colega!!
sady carlos, São Paulo 09/11/2013 - 17:10

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  Luiz Paulo Faccioli

LUIZ PAULO FACCIOLI nasceu em Caxias do Sul em 1958 e lá viveu até 1977, quando mudou-se para Porto Alegre, cidade onde mora atualmente. É músico, compositor, juiz Allbreed e Instrutor pela The International Cat Association — TICA. Autor de Elepê (contos, WS Editor, 2000), Estudo das Teclas Pretas (novela, Record, 2004), Cida, a Gata Maravilha (infanto-juvenil, Galera Record, 2008) e Trocando em miúdos (contos, Record, 2008), participou das antologias Porto Alegre: curvas e prazeres (contos eróticos, WS Editor, 2002), Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século (Ateliê Editorial & eraOdito editOra, 2004) e 35 segredos para chegar a lugar nenhum (crônicas, Bertrand Brasil, 2007), entre outras. Integrou o grupo Casa Verde, participando das seis coletâneas lançadas pelo selo entre 2005 e 2008: Fatais, Contos de bolso, Contos de bolsa, Era uma Vez em Porto Alegre, Contos de algibeira e Contos comprimidos. É crítico literário, colunista de literatura da Band News Porto Alegre e colunista do portal Artistas Gaúchos.

lpaulof@terra.com.br
www.luizpaulofaccioli.com
twitter.com/lpfaccioli


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