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Literatura

Literatura que vem de longe
Luiz Paulo Faccioli

Os livros comprados em viagem têm um sabor todo especial. Eles trazem, além de suas próprias histórias, outras que lhes são acrescidas: a livraria onde foram adquiridos, o impulso que os fez desejados, o lugar onde foram acomodados na bagagem e, obviamente, todas as aventuras da própria viagem, que vêm a cabeça sempre que os lemos e os vemos depois guardados na estante.

Numa recente viagem a Lisboa, bati os olhos num exemplar de Bartleby, obra fundamental do norte-americano Herman Melville, que é mais conhecido como o autor de outro clássico, o romance Moby Dick. Bartleby, apesar de me ter sido recomendado havia muito tempo e das várias edições brasileiras disponíveis, inclusive a da coleção L&PM Pocket, só foi cair em minhas mãos na Livraria FNAC do Chiado, numa caprichada edição da portuguesa Assírio & Alvim.

Não foi difícil descobrir por que Bartleby — que em algumas edições pode também levar o nome de Bartleby, o Escrivão, respeitado assim o título original em inglês — é uma obra tão comentada e referida. Num escritório de advocacia da Wall Street nova-iorquina do século 19, Bartleby é empregado como escrivão. Desempenha suas tarefas com capricho e competência, merecendo a confiança irrestrita de seu empregador. Um belo dia, ao ser solicitado para uma tarefa diferente daquela a que está acostumado, responde com um singelo “preferia não o fazer”. A partir desse episódio, a frase passa a ser uma resposta monocórdia a qualquer outro tipo de solicitação e vem sempre desacompanhada de qualquer justificativa. O dono do escritório e narrador da história não consegue todavia dispensar o funcionário-problema e vai postergando uma solução para o conflito, esperando que um dia um milagre aconteça.

É uma trama simples mas com tal riqueza de possibilidades que, trabalhada por um grande ficcionista como Melville, já nasceu antológica. Nas palavras de Gil de Carvalho, tradutor da edição portuguesa: “Bartleby é um dos escritos ‘proféticos’ da passagem, no século 19, à modernidade. O abandono do protagonista responde ao desassossego de Wall Street, a quietude gera a lúcida exasperação de quem irá contar a história, de quem pode, desvendando-se sem o saber, contá-la, na medida em que o consentem a verdade e a ‘hipocrisia’ das relações humanas, a sua arte.”

Bartleby, o escrivãoé de fato um título indispensável.

* * *

Muitas vezes, ao concluir um bom livro, fico imaginando que espírito baixou no autor para que ele tenha conseguido ir tão longe com tão pouco. A língua é a mesma que usamos no dia a dia e com a qual, por isso mesmo, temos intimidade. O escritor, é claro, pode se valer de um vocabulário mais erudito, de construções sintáticas mais sofisticadas que as do uso cotidiano, mas pode também preferir um tom bem próximo do coloquial sem deixar de ser literário. As histórias, por outro lado, não são muitas: por mais original que seja a proposta, as tramas são variações de um conjunto limitado de conflitos humanos, qualquer que seja o cenário.

Histórias do mundo virtual, livro de contos de Tânia Alegria há pouco lançado por um consórcio de três editoras (Movimento, Crivella e Alegre POA), é um bom exemplo disso. Apesar do título sugerir a ficção científica, trata-se na verdade de uma coletânea de oito ótimas histórias sobre relacionamentos entre internautas e suas implicações no mundo real.

Nascida em Porto Alegre, Tânia Alegria mora há mais de 40 anos em Portugal. Aposentada, depois de atuar por 25 anos no setor do comércio internacional e transportes marítimos, passou a se dedicar à literatura, escrevendo poesia e prosa em português e espanhol. No ano passado, foi finalista do Prêmio Açorianos com o livro de poemas InVerso.

Em Histórias do mundo virtual Tânia Alegria demonstra um domínio perfeito do conto. Eles seguem um padrão mais tradicional, sem inovações estruturais, mas buscando a essencialidade, a esfericidade e o estranhamento que são os elementos-chave do gênero. Os desfechos, quase sempre inesperados, remetem ao começo, e o leitor muitas vezes vai sentir-se tentado a reler a história depois de chegar ao ponto final. O português tem o acento daquele falado em Portugal, o que não representa nenhuma dificuldade ao leitor brasileiro; ao contrário, pode nos reservar algumas boas surpresas. A linguagem é sofisticada sem ser pretensiosa, e é fácil perceber que existe uma poeta por trás da prosista:

Mando-lhe um e-mail para que ele o encontre quando chegar ao trabalho, são quatro horas de diferença horária entre Barcelona e Buenos Aires, ao chegar encontrará a minha mensagem, é como se eu o estivesse esperando. Com uma túnica de gaze e uma orquídea selvagem no cabelo. Estou me passando de novo. Voltando à neutralidade da sensatez, se me houvessem dito que algum dia eu haveria de passar um fim de semana ansiando pelo momento de voltar ao trabalho para encontrar uma mensagem de amor vinda do outro lado do mundo, enviada por alguém a quem jamais hei de encontrar, não acreditaria.

Histórias do mundo virtual é um dos bons lançamentos do ano.

* * *

130 milhões de livros vendidos. Esta espantosa cifra mostra o desempenho do inglês Jeffrey Archer e seus 25 títulos pelo mundo afora. Significa nada menos do que 43 mil vezes a tiragem-padrão de uma edição nacional. Não é coisa pouca. Há livros e autores que caem nas graças do grande público e se tornam prodígios de venda. Isto acontece por várias e imponderáveis razões, e até mesmo virtudes literárias podem entrar na conta, embora haja quem ainda acredite que a boa literatura já nasça fadada ao fracasso comercial — e, pela mesma razão, jamais um best-seller será bem sucedido no plano artístico. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra.

Jeffrey Archer tem ele próprio uma história curiosa. Era um político de destaque até ser condenado por crimes de perjúrio e obstrução da justiça e obrigado a passar dois anos em presídios de Sua Majestade. Nesse tempo, colheu histórias de outros presos que decidiu mais tarde transformar em livro. Nasceu assim Gato escaldado tem nove vidas, lançado aqui pela Bertrand Brasil. A nove relatos ouvidos na prisão (as nove vidas do título), Archer somou outros três para compor os doze contos da coletânea.

Hábil contador de histórias, Archer consegue prender a atenção do início ao fim do livro. Embora não seja propriamente um esteta, une naturalidade e bom gosto para criar um texto fluído e bem humorado. E sem a intenção de fazer crônica social, acaba revelando o espírito deliciosamente inglês comum a seus personagens. Alguns dos contos têm finais surpreendentes, como O homem que roubou a própria agência dos correios, que instiga já pelo título auto-explicativo, e Não beba água, sobre um homem que tenta envenenar a esposa. A sabedoria de Salomão é outro destaque da coletânea e traz um caso de divórcio de solução inesperada.

Mas o preferido de Archer, e meu também, está entre os que não vieram da prisão: Aos olhos de quem vê é a história de um belo e famoso jogador de futebol italiano que se apaixona por uma mulher espantosamente rica e espantosamente grande. O desfecho mais uma vez inesperado, pode ser lido agora como uma declaração de crença na humanidade ao desafiar o senso comum, para o qual o leitor é sutilmente cooptado.

Gato escaldado tem nove vidasé literatura de entretenimento, sem dúvida, mas muito bem realizada e perfeita para uma tarde de fim de semana da primavera que acabou de chegar.


19/10/2010

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  Luiz Paulo Faccioli

LUIZ PAULO FACCIOLI nasceu em Caxias do Sul em 1958 e lá viveu até 1977, quando mudou-se para Porto Alegre, cidade onde mora atualmente. É músico, compositor, juiz Allbreed e Instrutor pela The International Cat Association — TICA. Autor de Elepê (contos, WS Editor, 2000), Estudo das Teclas Pretas (novela, Record, 2004), Cida, a Gata Maravilha (infanto-juvenil, Galera Record, 2008) e Trocando em miúdos (contos, Record, 2008), participou das antologias Porto Alegre: curvas e prazeres (contos eróticos, WS Editor, 2002), Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século (Ateliê Editorial & eraOdito editOra, 2004) e 35 segredos para chegar a lugar nenhum (crônicas, Bertrand Brasil, 2007), entre outras. Integrou o grupo Casa Verde, participando das seis coletâneas lançadas pelo selo entre 2005 e 2008: Fatais, Contos de bolso, Contos de bolsa, Era uma Vez em Porto Alegre, Contos de algibeira e Contos comprimidos. É crítico literário, colunista de literatura da Band News Porto Alegre e colunista do portal Artistas Gaúchos.

lpaulof@terra.com.br
www.luizpaulofaccioli.com
twitter.com/lpfaccioli


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