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Teatro

As novas caras de Bailei na Curva
Marcelo Spalding, com fotos de Paulo Kunzler

Evandro Elias e Patrícia Soso são Pedro e Gabriela
Evandro Elias e Patrícia Soso são Pedro e Gabriela

Quando Evandro Elias subiu ao palco no dia 22 de janeiro de 2007, terça-feira, para interpretar Pedro, talvez não tivesse plena noção do que representa Pedro para o teatro gaúcho, do que representa Pedro na história brasileira. E talvez se o jovem Evandro tivesse essa noção, não teria se saído tão bem.

Juntamente com Patrícia Soso e Ian Ramil, Evandro é uma das três novas caras do clássico do teatro gaúcho “Bailei na Curva”, de Julio Conte. O jovem de 21 anos, nascido depois da estréia de “Bailei”, confessa nunca ter assistido ao espetáculo antes e vibra com sua primeira experiência no teatro profissional: “eu tremi bastante, mas eu tô vivo, fazendo teatro eu me sinto vivo”.

A irmã de Pedro no espetáculo, Gabriela, também foi representada com extrema graça e competência por uma estreante, Patrícia Soso. Mas Patrícia já pode dizer que tem um currículo vasto e sólido: diplomada na Scuola Internazionale Teatro Arsenale, em Milão, atuou em espetáculos como o italiano Babele e os porto-alegrenses O Urso e Manual Prático da Mulher Moderna.

Filho de Vítor Ramil e ator profissional com experiência em peças como Pé de Pilão e Um, Dois, Três de Oliveira Quatro, Ian Ramil é o terceiro a se juntar a Melissa Dornelles, Cíntia Ferrer, Érico Ramos, Juliana Brondani e Felipe De Paula, que há sete anos representam a história dos anos de chumbo para um público que em geral não pegou em bandeiras e certamente não pegaria em armas.

A chegada recente do trio, que começou a ensaiar com o elenco apenas a partir de dezembro, parece ter feito bem ao espetáculo. Cíntia Ferrer, uma das “veterenas”, diz que o trio revigorou a peça: “tudo é uma renovação, tudo é um recomeço, assim como quem chega na peça tem que se encaixar na forma desse grupo trabalhar, também nós precisamos nos encaixar na jogada dessa gente que vem trazer coisas novas para nós também, e eles se encaixaram super bem”.

Esta formação, que junta subiu ao palco pela primeira vez neste Porto Verão Alegre, é a que deve participar da histórica temporada de 25 anos de “Bailei na Curva”, no começo de abril deste ano, no Theatro São Pedro. O jubileu, aliás, não envelheceu o texto de Júlio Conte, pelo contrário. Os ícones da história da vida privada dos anos setenta, como calça boca de sino, carrinho de rolimã e repressão sexual, tornaram-se motivo de riso solto para uma platéia nostálgica ou surpresa. E o olhar que se tem hoje, décadas depois, sobre episódios tão difíceis já permite mais poesia, mais auto-crítica, mais lucidez, e “Bailei na Curva”, diferentemente de alguns textos mais incisivos da época, soube perceber estas nuances daquele período abordando os crimes da ditadura a partir de conflitos familiares, universais, atemporais.

Sintomático é que os próprios atores, e não só o estreante e jovem Evandro, já não vivenciaram a ditadura e seus efeitos, suas torturas, seus sumiços, suas mentiras. Melissa Dornelles, uma das atrizes que há sete anos faz parte do cerne do elenco, lembra que a vida de sua família pouco foi alterada pela ditadura militar, e atribui à direção de Julio a possibilidade de a peça funcionar depois de tantos anos, com elencos distintos e atores de outra geração: “o Júlio sabe bem o que quer, ele pega as pessoas e substitui em três semanas, sabe onde quer chegar; agora mesmo, recém entraram três atores e o grupo está coeso, tá gostoso de fazer o espetáculo”.

A história de como Melissa conheceu a peça, aliás, mostra a vitalidade de Bailei na Curva: “eu tinha 15 anos de idade e achava muito chato ver teatro em POA, achava careta, um bando de gente egocêntrica, e o Bailei na Curva me arrebatou; não foi ali que eu resolvi fazer teatro, mas depois daquilo comecei a ser uma espectadora assídua”.

Por isso não dá para descartar que da platéia lotada desse Porto Verão saia um futuro integrante do elenco. Só para se ter uma idéia, na comunidade “Eu já fiz Bailei na Curva”, do Orkut, criada pelo próprio Julio para “reunir atores e atrizes que já fizeram a peça Bailei na Curva em algum momento da vida e em algum lugar do Brasil e do mundo”, há incríveis 795 membros. São Pedros, Gabrielas, jovens, pais, talvez avôs, irmãos ou filhos de desaparecidos, globais, não globais, gente que como Evandro um dia subiu ao palco pela primeira vez para fazer história, contar uma história e lembrar a todos nós de um triste episódio da História nacional.


28/01/2008

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