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Música

Belchior, um gênio
Solon Saldanha

Nestes tempos de recolhimento coronavirulense, tem sobrado tempo para se ler e reler textos e livros, ouvir outras vezes músicas que marcaram nossa história e andavam esquecidas, e também para que alguns DVDs de filmes muito especiais saiam da prateleira para o aparelho. Eu coleciono isso tudo, desconfiado que sou da eficiência da tal da nuvem e da lista da Netflix, que muda conforme interesses que nem sempre coincidem com os meus. Foi com esse espírito que ouvi pela manhã o inigualável álbum de Belchior, Alucinação. Foi lançado em 1976 – era o segundo dele produzido em estúdio -, eu terminando o ensino médio no Julinho e no Parobé, duas escolas simultâneas, cabelos compridos, rebelde sem causa, cheio de hormônios e de ideias. Momento oportuno para se ter ídolos e, felizmente, nesse quesito fiz excelente escolha.

Belchior foi um gênio. Nunca teve o respeito devido da mídia, que preferia garotos bem comportados, os Ivan Lins da vida. Mas, ao contrário desse, que parecia tocar a mesma música em todas as faixas dos LPs que lançava, o compositor e cantor cearense – era natural de Sobral – transbordava em criatividade, fazendo cada música ser diferente da outra, sem deixar de dar uma estrutura coesa e muito coerente para o todo. Alucinação tinha dez canções diferentes. E todas eram um clamor autêntico do “retirante” nordestino, que trazia sua verdade e seu alerta, abrindo os olhos da juventude do centro-sul do Brasil, para nossa real identidade. Como Nossos Pais é uma obra prima, depois imortalizada na voz de Elis Regina. Mas Velha Roupa Colorida, assim como Fotografia 3x4 e também Sujeito de Sorte são quase perfeitas. Pouco ficam devendo para Apenas um Rapaz Latino-Americano e para Alucinação, que dá nome ao álbum.

A mais curta de todas as canções era Como o Diabo Gosta, que eu adorava cantarolar depois de ouvir várias e várias vezes o disco todo, para desespero da minha mãe. Para ela era um absurdo eu repetir “Não quero regra nem nada. Tudo está como o Diabo gosta, está. Já tenho este peso que me fere as costas. E não vou eu mesmo atar minha mão”. Mas doía muito mais na minha velhinha outro trecho da letra: “...a única forma que pode ser norma. É nenhuma regra ter. É nunca fazer nada que o mestre mandar. Sempre desobedecer, nunca reverenciar”. Isso era demais para alguém com a idade e a formação dela, que sacudia a cabeça, olhar desalentado. Tenho certeza que nessas ocasiões só não perdeu de vez a esperança em que eu viesse a ter algum futuro, devido ao amor infinito que habita o coração da maioria das mães.

As outras três músicas que completam esta obra são Não Leve Flores, À Palo Seco e Antes do Fim. E a soma de todas elas consegue resumir o que sentia grande parte da minha geração. Um misto de inquietude, da angústia que os tempos sombrios da ditadura depositava sobre nossos ombros, de urgência para se buscar o sonho de liberdade que ainda se tinha, de amargura junto com o regozijo de ainda estar presente o prazer de viver. Não se pode entender a juventude brasileira dos anos 1970 sem ouvir Belchior, com atenção. Não apenas esse álbum – até 1999 lançou 14 deles produzidos em estúdio –, mas ele em especial. Coração Selvagem, assim como Divina Comédia Humana se destacariam entre esses outros. Mas Alucinação é muito superior, fez sucesso instantâneo e vendou mais de 500 mil cópias, um fenômeno para a época.

O que pouca gente sabe é que Belchior cursou quatro anos de medicina, antes de abandonar seu estado natal para perseguir o sonho de ser cantor. Que começou sua trajetória como parceiro de Fagner. E que morreu em Santa Cruz do Sul em 2017, onde residia na casa de amigos, vivendo literalmente de favor. No anonimato que buscou nos últimos anos, sem dinheiro, sem desejo de voltar a fazer shows, recluso mas produzindo trabalhos que ainda estão inéditos. Escondido da imprensa, arredio e quase arrependido de ter estado tanto à frente do seu tempo. Talvez porque viu terem sido inúteis tantos alertas seus. Porque a juventude das décadas seguintes repetiu muitos dos erros das anteriores e ele não percebia o quanto isso é normal. Mesmo tendo cantado que “apesar de termos feito tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos, ainda somos os mesmos e vivemos, como nossos pais”. E olha que ele repetiu duas vezes este verso chave.

10/04/2020

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  Solon Saldanha

Solon José da Cunha Saldanha, graduado em jornalismo, tem especialização em Comunicação e Política, além de mestrado em Letras. Com experiencia na mídia impressa, rádio e assessoria de imprensa, atua como revisor estilístico de textos e professor universitário. Escreve contos e crônicas.

solonsaldanha@gmail.com


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