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Resenha

Eu me recuso a ser o outro
Elaine Miragaia

Recentemente li "A Filha Perdida", de Elena Ferrante, o que me colocou num lugar de reflexão profunda sobre a maternidade. O livro me atravessou e identifiquei-me absurdamente com os pensamentos atribuídos a Leda, a protagonista da história. O filme, assistido um ano atrás, não acessou um milésimo dos lugares acessados pela leitura.

Ferrante deposita na protagonista os pensamentos, questionamentos e sentimentos que perpassam as mulheres-mães. Tira a maternidade do pedestal da santidade que a colocamos. Na verdade, ela chuta o pedestal e estraçalha a imagem da mãe ideal. Leda é humana, a maternidade é pesada e ela assume que não vai carregar o fardo.

Desconheço função mais ingrata do que ser mãe e digo isso de vários lugares diferentes: mãe, esposa, filha e profissional.

É ingrato pois somos julgadas em tempo integral, inclusive pelos filhos, que colocam em nossas costas a culpa por tudo, em todas as fases da vida.

Somos responsabilizadas por todas as mais ínfimas banalidades da vida daqueles que nos cercam. Sim, quando nasce o filho, nasce a mãe de todo mundo que está em volta. Vira uma chave coletiva e imediatamente as pessoas entendem que aquela mulher agora cuida de todos e esse cuidado é cobrado.

Basicamente somos desumanizadas, pois espera-se que interrompamos nossa vida. Ok, talvez por um ano e, desculpa aí, mas é uma merda se desidentificar, não se reconhecer em si mesma, ser destroçada por essa nova realidade e ter que se achar do jeito que dá.

Existe o lado positivo, pois qualquer indício de megalomania ou egocentrismo é destruído e recomeçamos de um lugar mais dimensionado, mas só. Nossa vida vira no avesso e espera-se que aceitemos isso com doçura e subserviência. Não.

Leda sufoca com tudo isso. Todas nós sufocamos. TO-DAS. Sem exceção. É brutal. A diferença é que Leda foi embora. Não aceitou ser desumanizada ou restrita ao papel de mãe.

Extremista? Sim. Mas apenas dessa forma conseguimos olhar a solidão e o desespero desse lugar, principalmente quando os filhos são pequenos. Conforme eles crescem, parece que melhora. Eu prefiro acreditar que melhora, senão enlouqueço. Sinto ser infinitamente mais tranquilo ser mãe de um pré-adolescente e uma adolescente do que ser mãe de dois bebês ou duas crianças.

É surreal onde vamos parar quando colocamos filhos no mundo. É absurdo o tamanho do buraco, a sensação de inadequação e a constante incerteza. É exaustivo manter-se sempre em alerta, sem espaço pra pensar em si. A individualidade tem que ser resgatada a tapa, o espaço pessoal definido à faca. Se não formos aguerridas, firmes e às vezes cruéis, perdemos o direito de existir como indivíduos. Deixamos de ser eu pra ser um eterno nós. Ou melhor: um eterno outro.

E eu me recuso a ser o outro.


Elaine Miragaia, 44 anos, psicóloga junguiana, arteterapeuta, mediadora do Clube do Livro Elas Reveladas (Taubaté-Caçapava/SP, onde mulheres lêem mulheres) e terapeuta integrativa do feminino. Atuo com psicologia clínica há 21 anos, atendendo exclusivamente mulheres. Escrevo crônicas e relatos e, vez ou outra, resenhas bastante pessoais sobre os livros que me atropelam. Mais em @elainemiragaia.


16/03/2023

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