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Resenha

"As traças", de Cassandra Rios
Emilly Garcia

"As traças" (Editora Record, 1981) é um romance escrito por Cassandra Rios, que narra o envolvimento sáfico entre a personagem principal, a estudante Andréa Guimarães Laclete, e sua professora de História Geral, Berenice.

Ao mesmo tempo em que atravessa dilemas comuns à idade, como qual carreira seguir e a descoberta da sexualidade, Andréa passa pelo difícil processo de aceitação da sua homossexualidade.

Ambientada na São Paulo dos anos 1970, as relações homoafetivas, principalmente, entre mulheres, ainda eram tabus naquela sociedade brasileira sufocada pela Ditadura Militar. Cassandra Rios merece todo o reconhecimento pela coragem de escrever lesbianidades em um período de forte repressão.

Andréa é geniosa, inconsequente e insegura. Uma típica adolescente de classe média prestes a completar 18 anos. Recém matriculada no Instituto de Ensino para cursar o colegial, é lá que Andréa conhece Berenice. A garota fica intrigada com a presença marcante e a beleza daquela mulher.

Quem espera por um clima de romance logo nos primeiros capítulos, o que se percebe, na verdade, é uma atmosfera de animosidade crescente entre as duas. Por não compreender os próprios desejos, Andréa adota uma postura passivo-agressiva, muitas vezes evitativa diante da professora, que apenas reage. As tentativas de tratar Berenice com indiferença, no entanto, apenas aumentam o interesse de ambas.

Circulam boatos pelos corredores da escola de que Berenice seja "entendida" e já teria se envolvido com Bárbara, uma colega de classe. Essa suposição desperta ciúmes coléricos em Andréa, e não é possível saber, ao certo, se a colega e a professora, realmente, "tinham intimidades".

Berenice é descrita como "uma mulher muito bonita" e, ao longo da narrativa, a percebemos como uma pessoa de comportamentos ambíguos. Ora parece perdidamente apaixonada por Andréa, ora age de modo impessoal, distante. Tal ambiguidade é muito bem explorada pelo ponto de vista do narrador, que conhece a fundo a psique e as emoções de Andréa, mas é alheio aos sentimentos e pensamentos das outras personagens.

Aos poucos, a animosidade dos primeiros capítulos vai se transformando em desejo urgente. Cada vez mais, fantasias ardentes pululam a imaginação de Andréa, como no trecho abaixo:

"Estava ardendo. Sabia que precisava saciar o fogo que a devorara. E que só teria calma o dia em que Berenice pousasse seus lábios deliciosos na sua boca faminta de beijos" (p. 76).

Quanto mais as duas se aproximam, mais o mundo de Andréa vira de cabeça para baixo. Ela começa a faltar às aulas, vê seu rendimento caindo. A incerteza sobre o real interesse de Berenice desencadeia paranoias. No limite de sua angústia, a garota rouba pílulas calmantes do pai para se drogar.

Outras personagens aparecem na narrativa e, assim como a protagonista, são complexas e apresentam características únicas. A colega Rosana é uma delas. A colega tem papel fundamental, pois é ela quem introduz Andréa ao universo sáfico, tanto no linguajar, quanto nos comportamentos.

Rosana nutre uma paixão obsessiva por Andréa, talvez hoje fosse chamada de "stalker". Todos os dias ela estaciona o carro em frente à casa de Andréa para observá-la. Telefona, a persegue pelos corredores da escola, é bastante incisiva nas investidas e até consegue algo, mas a protagonista só tem olhos para Berenice.

É na companhia de Rosana que Andréa vai ao icônico Ferro's Bar, local que virou símbolo de luta pela visibilidade e direitos das lésbicas. No capítulo dezoito, uma conversa sobre os lugares frequentados pelos "entendidos" é o ponto de partida para uma fala potente de Rosana:

"(...) as pessoas estão se desentocando, enfiando a cara no mundo, sabe, vai ser muito difícil fazer o 'povo' recuar e se esconder como antigamente" (p.137).

Rosana continua, trazendo o relato de uma tia lésbica:

" Eu tenho uma tia que é lésbica e ela me disse que nos tempos de hoje a coisa está melhor, evoluída, há mais compreensão, que no tempo dela havia muitos suicídios, outras ficavam loucas, a família enfiava em sanatório, tomavam choque elétrico e acabavam mesmo endoidando as coitadinhas. Ninguém queria aceitar, nem a própria lésbica (...) (p.137)".

Outros personagens recorrentes são Dona Júlia e Dr. Américo, os pais de Andréa, e Buby, o irmão mais novo. Quando Buby está em cena há sempre uma quebra na tensão psicológica causada pelos dramas da protagonista. O menino faz perguntas astutas, dotadas de ironia e certa malandragem, o que provoca o riso e a fúria da família.

Nas cenas de sexo, Cassandra Rios soube equilibrar com maestria o carnal e o simbólico. Alguns trechos são viscerais, pendendo para o Naturalismo, em outros, a autora utiliza metáforas, deixando para o leitor a tarefa de captar as referências.

"Berenice cavalgava o sonho, dominava o mundo, atingia a galáxia, invadia os mistérios mais profundos dos oceanos, voava alto, além de outros mundos, despencava em vertigens, em abismos insondáveis" (p.170).

Em algumas passagens, entretanto, percebemos uma linguagem heteronormativa, talvez um resquício cultural do tempo-espaço no qual a obra foi concebida ou uma maneira encontrada pela autora para alcançar o grande público. Outra marca temporal são as gírias e a utilização de termos como "entendida" e "fanchona", que praticamente não as escutamos mais.

"As traças" é uma obra visceral, angustiante, surpreendente. Sob a perspectiva de Andréa, poderia ser uma história de amor, o primeiro amor sáfico de uma adolescente. Porém a forma como o enredo é conduzido tende a levar o leitor para o entendimento de uma relação abusiva, não apenas pelo fato de ser entre uma mulher madura e uma adolescente, mas pela intermitência e ambiguidade de Berenice, que levam Andréa a tomar decisões precipitadas. O final reserva uma grande surpresa.


Sobre a autora: Cassandra Rios (1932 - 2002), pseudônimo de Odete Rios, foi uma escritora lésbica pioneira na publicação de narrativas sáficas no Brasil. Pouco conhecida fora da "bolha" LGBTQIAP+, Cassandra teve mais de trinta livros censurados pela Ditadura Militar. Suas obras foram consideradas pornográficas, subversivas e de baixa qualidade por retratarem o relacionamento entre mulheres. Ainda assim, Cassandra se tornou um sucesso de vendas. Atingiu a marca de 1 milhão de livros vendidos. Para saber mais sobre sua vida e obra, fica a sugestão do documentário "Cassandra Rios - A Safo de Perdizes".

01/01/2024

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  Emilly Garcia

Emilly Garcia nasceu em Marabá-PA, é bacharel em Jornalismo pela Universidade da Amazônia-PA (2010), pós-graduanda em Filosofia pela Universidade Estácio de Sá e pós-graduada em Televisão e Convergência Digital pela UNISINOS-RS (2012). Participou de oficinas, saraus e de três coletâneas. Estudou Literatura e Teorias do Imaginário na PUC-RS (2022) e foi aluna do Curso Livre de Formação de Escritores (2020), da Editora Metamorfose.

garcia.emilly@gmail.com


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