artistasgauchos












Desenvolvido por:
msmidia

Literatura

O peso do medo, de Wellington de Melo
Telma Scherer

Recife, domingo, 10:30 da manhã, salão de convenções onde acontece a VIII Bienal Internacional do Livro de Pernambuco. No estande ao lado, Frederico Barbosa tenta dar sua ótima oficina de crítica literária, e consegue, apesar de que os autofalantes não param de anunciar as atrações da programação e fazer a propaganda do megaevento. Dentro do café vazio, montado com folhas de vidro no fundo do pavilhão, eu e Wellington de Melo tentamos dar início ao bate-papo "Não alimente a escritora", para o qual fui convidada. O telefone dele não para de tocar. Ele tenta desligá-lo, mas não para de tocar. Então Wellington joga com toda a força o aparelho ao chão, e joga novamente, atira-o com mais força, e o telefone não quebra, e não para de tocar. 

Enquanto isso, penso na diferença entre os homens que olham, os que pensam, e os que fazem, uma classificação tão limpa e clara que chega a me cheirar aristotélica. Há muitas pessoas que não fazem, entre as que pensam; possuem conhecimentos preciosos e os desperdiçam. Preferem o conforto parasitário de não integrar esse mundo sujo da ação. E há as que pensam e não fazem, mas nem sempre são as mesmas. Algumas envenenam-se no olhar. E são as mesmas. Divago. Já Wellington pensa e faz.

Horas depois, abro o seu livro O peso do medo. E lembro ainda da minha distinção. Se a ação sem reflexão é inócua (o consumidor padrão não o percebe), também o convívio íntimo com o fruto do pensamento, sem uma relação com o mundo de fora, resta aleijado, filho do nada. Sonhadores que não sonham: jovens trotskistas observando a revolução pela janela, isolados, confortáveis, e cheios de idéias de vanguarda, bem protegidos pelo cheque dos pais. Esse é o tipo de gente que abunda em nossas universidades, saindo da classe média para tomar postos de trabalho intelectual, fazer cultura em nosso país; tornam o cenário ainda mais passivo à dominação de um mercado que procura alinhar arte e entretenimento.

O mesmo para os escritores. A poesia contemporânea tão pouco ou nada dialoga com o leitor comum que a palavra “poeta” ganha semitons quase pejorativos, o que já pude comprovar perguntando a trabalhadores de periferia seu significado. Quantos professores de ensino médio são capazes de citar versos dos poetas contemporâneos consagrados? Quantos conhecem os seus nomes?

Se o medo que Carlos Drummond de Andrade cantou em seu tempo era um pouco diferente daquele que se encerra nos corações desse meio artístico com o qual convivemos, Wellington de Melo descreve-o com perfeição. Um medo mais relacionado ao absurdo de existir no caos contemporâneo, à violência urbana e social, aos desníveis do nosso mundo e ao papel do poeta sem interlocução com o exterior. Um medo cheio de vazio existencial, com toques de consciência da própria sem-razão. Porque há sempre quem fure a bolha do conforto. A poesia precisa cantar com fúria pois ela é, de um lado, o resultado irrefreável de um olhar e um pensar. E constitui ela própria a única ação possível, embora não necessariamente frutífera, porém redenção segura quando se pergunta “como incendiar em mim o gabinete”.

Num país de livros tão mal editados e de poesia tão desrespeitada em sua faceta visual, parece-me acertado o formato do livro, com páginas de 21cm x 26cm. A superfície tem de ser suficientemente ampla para que o olho respire e descanse e deixe fruir a leitura de um texto denso. As ilustrações fazem o percurso circular do poema possível e estão acertadamente construídas em preto, branco, olho, boca, cidade, bicho, resquício, marca de sombra e sujeira que acompanha o ritmo dos textos, tão bem casados um com o outro que se unem em um só. Este se apresenta sempre na mesma forma, a do poema em prosa sem pontuação, com repetições e ritmos orquestrados em cada sequência sem que haja marcação de estrofe e verso. Desse modo o leitor pode completar a tarefa poética lendo-o no ritmo da sua respiração, uma escolha bem ao gosto do leitor contemporâneo, que também há de simpatizar com o recurso de grifar palavras certeiras ocultando certas letras. Em termos de trabalho visual, parece-me um casamento amoroso a poesia de Wellington e a obra de Rosana Palazyan (em O lugar do sonho, p.ex.), estética em que a sutileza e a violência se integram.



Telma Scherer é mestra em Literatura Comparada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Publicou Rumor da casa pela editora 7 Letras e Desconjunto pelo Instituto Estadual do Livro. 

24/11/2011

Compartilhe

 

Comentários:

Ao se apoiar em fatos-ações e a reflexão que produzem em quem os assiste, independente de o quanto tenha ela a ver em sua totalidade com os mesmos, o texto inicia com sabor de epifania, e conclui instigando curiosidade para a poesia que quer fazer coisas no mundo através da linguagem. Excelente!
Sidnei Schneider, Porto Alegre-RS 04/12/2011 - 18:24

Envie seu comentário

Preencha os campos abaixo.

Nome :
E-mail :
Cidade/UF:
Mensagem:
Verificação: Repita os caracteres "523607" no campo ao lado.
 
  

 

  Resenhas

As resenhas pubicadas no portal Artistas Gaúchos são de inteira responsabilidade dos articulistas. Se você deseja enviar um texto, entre em contato com o editor do portal. Não é necessário estar cadastrado no portal para enviar resenhas e a veiculação ou não é uma escolha editorial.

editor@artistasgauchos.com.br


Colunas de Resenhas:


Os comentários são publicados no portal da forma como foram enviados em respeito
ao usuário, não responsabilizando-se o AG ou o autor pelo teor dos comentários
nem pela sua correção linguística.


Copyright © msmidia.com







Cursos em Porto Alegre

Cursos de Escrita

Cursos para escritores

Confira cursos e oficinas exclusivos feitos especialmente para escritores ou aspirantes a escritores.

Mais informações


Cursos de Escrita

Oficinas literárias

Oficinas de criação literária e escrita criativa em Porto Alegre.

Mais informações

 


Livros em destaque

O Guardião da
Chave Dourada

Airton Ortiz

Fundamentos à prática de revisão de textos

A Fantástica Jornada do Escritor no Brasil

 

compre nossos livros na