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Literatura

Um escritor camaleão
Luiz Paulo Faccioli

Por estranho que isso possa parecer, o miniconto é ainda uma questão controversa. Se há quem já tenha se rendido à novidade, também vicejam por aí longas fileiras de detratores. Os primeiros argumentam que as mininarrativas têm tudo a ver com a estética — e mesmo a velocidade — do mundo contemporâneo e que sem dúvida elas constituem uma alternativa interessante para esfarrapar a desculpa de quem diz que não lê por falta de tempo. Lembram que a forma nem pode mais ser considerada algo assim tão novo, uma vez que Kafka já a experimentara, e que, na literatura brasileira, o paranaense Dalton Trevisan é a prova mais loquaz de que ela funciona, e muito bem. Já os detratores sustentam que o melhor dos minicontos jamais passará de um projeto, pois lhe faltaria o estofo das palavras, sem o que não se faz literatura. Apontam também as armadilhas da concisão extrema, da tendência ao aforismo e à anedota até uma deletéria confusão com a poesia.

O esdrúxulo dessa discussão fica por conta de que ambos os lados têm razão, e nem poderia ser diferente, visto que a medida da qualidade literária certamente passa ao largo do tamanho do texto. Noutras palavras, um conto longo pode apresentar exatamente as mesmas virtudes — ou padecer dos mesmos vícios — de um irmão menos abastado de palavras. Mas, para quem ainda assim continua com um pé atrás em relação aos mínis, nada melhor do que recomendar o originalíssimo projeto do português Gonçalo M. Tavares, onde eles casam à perfeição com sua proposta minimalista.

Com experiência no romance, na poesia e no conto, desde 2002 Tavares dedica-se à coleção O Bairro: num fictício conjunto de apartamentos, os moradores são 38 ilustres da literatura universal, cada um deles dando nome a um livro e sempre introduzido por um “senhor”. Nasceram assim O senhor Valéry e O senhor Henri, publicados no Brasil pela editora Escritos em 2004. Na seqüência, vieram O senhor Brecht, O senhor Calvino, O senhor Juarroz e O senhor Kraus, lançados aqui pela editora Casa da Palavra, o primeiro em 2005 e os demais neste ano. Ainda inédito no Brasil, O senhor Walser é o sétimo e por ora o último da série. Diz o autor que O Bairro “é um projeto para muitos anos, para toda a vida. O próximo talvez seja O senhor Eliot, mas nunca se sabe bem qual o fluxo de trânsito de um bairro real ou imaginário. O aparecimento de cada um dos senhores no bairro não tem um programa prévio. Embora imaginário, é um bairro, portanto há pessoas que podem mudar-se subitamente para lá, e há outras que podem sair. É um bairro aberto. Por exemplo, há uma senhora Clarice que talvez se mude para lá.” E aqui o autor nos revela uma de suas predileções na literatura brasileira; outras são Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Neto e o de sempre Machado de Assis.

Os quatro títulos lançados pela Casa da Palavra vêm em edições caprichadas. As capas, em papel-cartão e cada qual numa cor, trazem uma caricatura em preto do escritor homenageado e, nas contracapas, um desenho à mão livre do Bairro; os miolos, em papel de gramatura privilegiada, têm ilustrações de Rachel Caiano. Além dessa unidade visual e temática, não há dúvida de que os textos saíram todos da mesma pena, embora haja diferenças tão importantes quanto sutis entre eles. A proposta de Tavares é “fazer alguma coisa não necessariamente sobre outra obra, mas a partir de — como se fôssemos empurrados por uma leitura ou por um filme para outro lado”. Ele continua: “a principal idéia é colocar o escritor como personagem — ele que está fora, empurrá-lo lá para dentro, para a arena”. E ainda: “a partir do momento em que dou um nome é como se a personagem adquirisse algum do espírito da obra dos autores referidos”. De fato, mais do que fazer um mero pasticho de estilo ou de idéias, Tavares consegue a proeza de recriar a “alma ficcional” desses autores.

O senhor Brecht é dos quatro o que mais se aproxima daquilo a que se chama de coletânea de contos, reflexo de sua própria concepção:

“Apesar de a sala estar praticamente vazia o senhor Brecht começou a contar as suas histórias.”

Após este preâmbulo, o protagonista se afasta e só vai aparecer de novo para fechar o volume. Entre os dois momentos, estão 50 parábolas bem ao estilo politicamente “engajado” do criador da Berliner Ensemble. Mas, longe de qualquer intenção de proselitismo, os minicontos têm um delicioso toque démodé que lhes garante, de alguma forma, um sentido de perenidade. Entre eles, encontram-se pequenas pérolas, como O gatinho:

“Havia um gato que todos os fins de tarde se aproximava do dono e lhe lambia os sapatos com sua língua minúscula.

Vencendo uma certa timidez e uma certa precaução higiênica, o homem um dia decidiu descalçar-se para observar se o gato lhe lambia os pés como fazia aos sapatos.

Foi aí que o tigre, que se disfarçara de gato durante anos, decidiu que era o seu momento, e em vez de lamber, comeu.”

E, ato contínuo à leitura de O presidente e Sintaxe, é quase impossível não ceder ao impulso de enviá-los a algum governante.

Em O senhor Calvino, o protagonista torna-se refém da metódica tão característica do escritor italiano. Os contos são um pouco mais longos, e pelo menos um deles — Um passeio do senhor Calvino, que fecha o livro — foge à classificação de míni. Sem perder nunca a elegância, o personagem é posto em situações do mais absoluto nonsense, e o efeito é surrealista. Os editores usam o termo “vertiginosa” para qualificar a narrativa, o que não encerra nenhum exagero mas talvez um certo reducionismo. Um dos melhores momentos é o conto O balão, onde a estranheza é anunciada já na primeira frase:

“Calvino certas vezes andava uma semana inteira pela cidade levando consigo um balão bem cheio.”

Imagine-se a figura disciplinada e sempre impecável do signore Calvino andando pela rua a segurar “com precisão de relojoeiro o fio de um
balão” entre os dedos. A cena, de todo desconcertante, evoca um filme em preto-e-branco ao estilo do francês Jacques Tati.

Uma curiosidade: As cidades invisíveis, um dos livros mais célebres de Italo Calvino, também se compõe de mininarrativas. Coincidência
ou não, o diálogo com o estilo sóbrio e elegante do italiano ultrapassa em Tavares os limites do livro que o homenageia.

O senhor Juarroz rende tributo a um poeta argentino contemporâneo e ainda pouco conhecido no Brasil. Enquanto o senhor Brecht não protagoniza nenhuma de suas histórias e o senhor Calvino é o personagem solitário de todas, o senhor Juarroz conta às vezes com a interlocução da esposa,
que mantém um pé firme na realidade e faz o contraponto às elucubrações do marido, sempre tão poético e destituído do menor senso prático:

“O senhor Juarroz insistia em manter em casa uma gaveta para guardar o vazio.

Costumava até dizer esta estranha frase:

— Quero encher esta gaveta de vazio.

Claro que a esposa do senhor Juarroz, cada vez com menos espaço em casa, protestava por aquilo que considerava ser uma péssima utilização do metro quadrado.”

A intromissão da poesia é flagrante; contudo, aquilo que qualquer purista da prosa consideraria um defeito acaba fazendo aqui todo o sentido.

Por último, O senhor Kraus inspira-se no escritor, jornalista e satirista austríaco Karl Kraus. Contratado por um jornal para escrever crônicas que retratem os grandes acontecimentos do país, Kraus ironiza políticos e burocratas em parábolas certeiras, fiel à sua própria máxima de que “a única forma objetiva de comentar política é a sátira”. Embora com proposta semelhante, O senhor Kraus difere muito em estilo do colega O senhor Brecht. E, de certa forma, a crítica agora é bem menos sutil.

Gonçalo M. Tavares é um escritor que, aos 37 anos, demonstra uma invejável maturidade. Raros os que chegam aonde ele já conseguiu chegar. Se alguém duvida, basta pensar no que representa o exercício de assumir tantas e tão peculiares personalidades literárias — e em tão pouco tempo. Talvez o segredo possa estar numa afirmação que Tavares fez à guisa de conselho a um hipotético jovem escritor que desejasse melhorar seu nível de escrita: “as experiências são determinantes, mas o fundamental é mesmo ler, ler, ler muito e ler bem, ler os melhores autores — e escrever, não parar de escrever”.

Certamente o sucesso não terá sido ao acaso ou por obra de alguma estranha alquimia que só os conterrâneos de Fernando Pessoa e seus heterônimos conhecem.

O autor: Gonçalo M. Tavares, português nascido em Angola, lançou o primeiro livro há seis anos e hoje, aos 37 de idade, já contabiliza 20 títulos publicados, abrangendo o romance, o conto e a poesia. Conquistou vários prêmios literário importantes, dentre ele o José Saramago em 2005. Considerado pela crítica uma das revelações da literatura contemporânea, seus textos já foram traduzidos e lançados em diversos países.


Publicado originalmente no jornal Rascunho, edição de agosto/2007


23/11/2007

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  Luiz Paulo Faccioli

LUIZ PAULO FACCIOLI nasceu em Caxias do Sul em 1958 e lá viveu até 1977, quando mudou-se para Porto Alegre, cidade onde mora atualmente. É músico, compositor, juiz Allbreed e Instrutor pela The International Cat Association — TICA. Autor de Elepê (contos, WS Editor, 2000), Estudo das Teclas Pretas (novela, Record, 2004), Cida, a Gata Maravilha (infanto-juvenil, Galera Record, 2008) e Trocando em miúdos (contos, Record, 2008), participou das antologias Porto Alegre: curvas e prazeres (contos eróticos, WS Editor, 2002), Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século (Ateliê Editorial & eraOdito editOra, 2004) e 35 segredos para chegar a lugar nenhum (crônicas, Bertrand Brasil, 2007), entre outras. Integrou o grupo Casa Verde, participando das seis coletâneas lançadas pelo selo entre 2005 e 2008: Fatais, Contos de bolso, Contos de bolsa, Era uma Vez em Porto Alegre, Contos de algibeira e Contos comprimidos. É crítico literário, colunista de literatura da Band News Porto Alegre e colunista do portal Artistas Gaúchos.

lpaulof@terra.com.br
www.luizpaulofaccioli.com
twitter.com/lpfaccioli


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